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“Sabes que ser pesado não significa ser gordo”

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Maniche estreou-se no Benfica (ainda com pouco cabelo) em 1995/96 e saiu para o Porto em 2002/03. 
Passou a época de 2005/06 no Chelsea e depois mudou-se para o Atlético de Madrid

DYLAN MARTINEZ/REUTERS

Em entrevista ao Expresso, o ex-futebolista Maniche diz que aprendeu a jogar no alcatrão e que é do Futebol Clube do Porto que guarda as melhores recordações

Na próxima semana há Porto-Chelsea e Atlético de Madrid-Benfica para a Liga dos Campeões e há um homem que está ligado a isto tudo: Nuno Ricardo de Oliveira Ribeiro, que é como quem diz Maniche, alcunha que lhe foi atribuída por Arnaldo Teixeira, pai do atual adjunto de Rui Vitória (eis a ligação nº 1), quando Maniche começou a carreira no Benfica, aos 9 anos (ligação nº 2). Depois mudou-se para o Porto de Mourinho (ligações nº 3 e 4), onde foi mais feliz, conquistando a Champions (ligação nº 5), e ainda acompanhou o treinador para o Chelsea (ligação nº 6). Só faltava mesmo ter jogado no Atlético de Madrid... Ah, espera: jogou mesmo, três épocas.

Destas quatro equipas, qual foi a melhor para ti?
A resposta é fácil: Futebol Clube do Porto, não só devido aos títulos que conquistei lá mas também pelo carinho e respeito que os adeptos têm por mim e eu por eles. E também por me terem ido buscar numa fase complicada da minha carreira [depois de ter estado sem jogar no Benfica].

Então a pior foi o Benfica...
Não direi tanto. Separo sempre as coisas: Benfica como instituição é uma coisa, as pessoas que o lideram são outra. Não posso esquecer o Benfica, porque foi lá que me formei.

E na formação estiveste com um mister que está agora no Benfica...
[interrompe] Não, não estive com ele nessa altura, joguei com ele no Alverca. Foi meu colega de equipa, subimos o Alverca à 1ª divisão.

Ah, estás a falar do Rui Vitória. Mas eu estava a falar do Arnaldo Teixeira.
Ah, o Arnaldo. Espera, mas não é esse Arnaldo.

O Arnaldo Teixeira?
É o Arnaldo Teixeira, mas é o pai Arnaldo Teixeira. O filho Arnaldo Teixeira é agora adjunto do Rui Vitória. O pai foi o meu mentor. Tenho muito carinho por ele, foi uma pessoa que me ajudou não só como jogador mas como ser humano. Foi meu treinador nos infantis, mas todos os dias ia ter com ele e pedia-lhe conselhos, nos iniciados, juvenis e juniores. Foi ele que me deu a alcunha de Maniche.

Sabias quem era o Manniche?
Só sabia que ele jogava lá [risos]. O nome apareceu porque eu tinha o cabelo comprido e loiro na altura.

PEDRO ARMESTRE

Aprendeste a jogar no bairro?
Claro. Antigamente não havia sintéticos [risos], era no alcatrão, e metíamos duas pedras a fazer de postes, não havia luxos. O mais importante era o prazer de jogar. Acho que isso está a morrer, devido às escolinhas. Como é que um pai, com tantas dificuldades económicas, paga para os filhos jogarem? Nunca paguei para jogar. Se fores ver, quase todos os grandes jogadores nasceram num bairro.

No Benfica ficaste sem jogar, que é o que pode acontecer agora ao Carrillo no Sporting.
É idêntico, apesar de as histórias serem diferentes. O presidente queria que eu mudasse de empresário, era a condição que metia para renovar. Obviamente recusei. O Benfica renovava comigo, não era o empresário que jogava. Fui colocado a treinar à parte. Quanto ao Carrillo, não sei o que se passa, mas vejo pela minha experiência que perde o jogador, perde o clube e perde o treinador. Se ele não quer assinar, não é obrigado a assinar. Essas situações têm de acabar de vez, porque os clubes têm a faca e o queijo na mão, fazem tudo o que querem com os jogadores. Claro que custa, porque o Sporting também já fez muito por ele e quer ter retorno financeiro. Mas acho que se faz um bicho de sete cabeças só porque é o último ano de contrato. Se o Sporting queria o Carrillo, devia ter renovado na época passada.

Como é que um jogador se sente sabendo que não pode jogar?
Foi uma fase obscura da minha vida, porque já era casado, tinha uma filha, casa e carro para pagar, e o Benfica só me pagava de dois em dois meses, apesar de os outros receberem todos os meses. Não escondo que tive vontade de desistir de tudo. Estava cansado, era muito injusto. Pensava: “O que é que eu estou aqui a fazer?” Tens de ter uma coragem brutal. Não acredito que haja um jogador que diga que não se importa de ficar um ano sem jogar na esperança de depois ir para um clube melhor.

Ficaste de fora um jogo quando o Mourinho chegou ao Benfica. Agora que és treinador, como vês isso?
[risos] Não é fácil lidar com 24 jogadores. Na altura não via isso, porque o jogador é um pouco cínico, só se preocupa com ele. O jogador em 24 horas só trabalha uma hora e vai para casa sossegado, mas o treinador fica lá o dia todo. O Mourinho não gostou de uma entrada dura que eu fiz e mandou-me correr à volta do campo. Não gostei e comecei a correr devagarinho, quase a passo. Não fui convocado, e no treino seguinte, à frente de toda a gente — como faz ainda hoje —, perguntou-me se sabia porque não tinha sido convocado. Presumia que fosse pela entrada. Ele diz que não. “Deixei-te de fora porque tu estás muito mal fisicamente. Em 40 minutos só conseguiste dar duas voltas ao campo.” [risos] No jogo seguinte fui capitão novamente. E não é por acaso que ficámos com uma ligação muito forte.

FRANCK FIFE

Nas redes sociais vejo-te sempre com o Costinha em grandes jantares.
[risos] Somos amigos há muitos anos, desde o tempo do Porto. Depois houve a seleção, o Dínamo de Moscovo, o Atlético... Ficámos com uma ligação muito forte, daí ele ter-me convidado para ser adjunto dele.

Um ex-profissional só agora é que goza a vida, é isso?
Não podes ver mais nada [risos]. Claro que agora há mais tempo para isso, antes não podias. Desde que haja ginásios por perto para abater os quilinhos a mais [risos]...

Por falar em quilinhos a mais. Sabes que quando jogavas...
[risos] Mas sabes que ser pesado não significa ser gordo. Há jogadores que têm uma estrutura mais larga, não quer dizer que sejam gordos. Se vais ao ginásio e fazes máquinas, obviamente que o teu peso vai aumentar, vais ter mais músculo. Mas queimas as gorduras todas. É verdade que há jogadores que têm mais tendência a engordar, aí, sim, é preciso ter cuidado. Não é por acaso que os clubes agora têm nutricionistas e tudo e mais alguma coisa. No meu tempo não havia nada disso [risos]. Quando estás a jogar, tens de te cuidar, por isso há jogadores que duram, o Zanetti, Del Piero, Ricardo Carvalho... Tiro-lhes o chapéu, porque é preciso fazer muitos sacrifícios. O Ricardo não tocava em álcool nem que lhe batessem [risos]. Agora já não sei, tem uma certa idade e já está a aprender outras coisas, se calhar já bebe um copinho [risos].

Já foste às compras com o Costinha? Dizem que ele se veste bem.
Já, já. Nós já passámos por tudo e mais alguma coisa. Anda bem vestido?... Só se for para os outros. A minha opinião, se calhar, não é a mesma [risos]. Ele tem os gostos deles e eu tenho os meus. Ele sente-se bem assim, mas acho que às vezes exagera [risos].

Dos treinadores que tiveste, há algum com quem sejas mais parecido?
Com o Mourinho, pela personalidade. Picava-me para eu dar mais.

Reuters Photographer / Reuters

Castigou-te mais alguma vez?
[desata a rir-se] Os castigos eram rapidinhos. Por exemplo, discutia comigo num treino, no seguinte ignorava-me e no outro a seguir já me falava. Houve uma eliminatória da Taça UEFA com o Polónia Varsóvia que ganhámos 6-0 na primeira mão, e eu, como era titular, estava à espera de na segunda mão ficar a descansar. Mas os únicos titulares que ele levou fui eu e o Postiga. Os outros ficaram a descansar. Ainda por cima estava um calor enorme no dia do jogo. Olha, é o que expliquei há pouco: o jogador pensa sempre nele e esquece os outros. De certeza que houve situações em que eu descansei e outros jogaram. Mas naquela vez custou-me. Chegámos ao intervalo 0-0, e a palestra dele foi só direcionada para mim e para o Postiga. Virou-se para o Postiga: “Tu podes ir tomar banho e marcar já o fim de semana para ires passear com a tua namorada, porque domingo não vais ser convocado.” Depois virou-se para mim: “E tu, se pensas que vais sair para descansar, estás enganado. Vais papar mais 45 minutos disto ao sol.” E pronto [risos], só tens de ir lá para dentro com cara de cachorro e mais nada.

Ele é o melhor do mundo?
Sim. Se o treinador tiver uma comunicação direta e frontal, o jogador dá tudo por ele. E isso acontecia-me. Depois ia para casa a pensar que ele tinha razão. Por vezes, as pessoas dizem que é preciso ter carisma e uma voz mais ativa. Por exemplo, o Rui Vitória é menos ativo, mas não deixa de perceber de futebol. O que importa é a mensagem dentro do balneário. Podes ser um tipo muito simpático, e a comunicação social gostar muito de ti, mas se perdes achas que isso serve para alguma coisa? Se fores um tipo arrogante, mais agressivo, as pessoas não gostam muito, mas ganhas. O que é que vão dizer? Nada. No futebol são as vitórias que ditam tudo.

O teu Porto ganhava a este Porto?
Não gosto de fazer essas comparações. O futebol está diferente, os treinadores hoje têm muito medo de arriscar. Nós jogávamos em 4-3-3, sempre a atacar, o Porto de agora tem dois pivôs e às vezes nem sabes bem como é que joga. Acho que a qualidade baixou muito. Obviamente que diria que ganharíamos, mas não quero faltar ao respeito a ninguém.