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“Foi o meu primeiro golo de cabeça, não foi?” Não, não foi

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David Ramos/ Getty Images

Entrevista a Miguel Veloso, futebolista do Dínamo de Kiev

Miguel Veloso regressou à seleção e fez o golo que deu o triunfo a Portugal frente à Albânia que nos deixa a um pontinho apenas da qualificação para o Euro-2016. Ele diz que teve sorte, que está mais magro e mais crescido...

Não marcas muitos golos com a cabeça...
Acho até que foi o meu primeiro golo de cabeça, em termos profissionais, não foi?

Não, não foi. Estive a fazer uma busca e tu...
[interrompe] Ah, sim, contra o Rio Ave para a Liga Europa. Mas não sou um jogador que marque golos de cabeça. Este foi mais importante porque foi no último minuto e ajudou a seleção.

Não foi um golo de sorte?
Foi sorte, porque eu estava fora da área, à espera da segunda bola, e o mister disse-me para ir lá para dentro. E eu fui e meti na cabeça que a bola ia sobrar para mim. “Vai sobrar para mim, vai sobrar para mim.” Estava na hora certa quando o Quaresma cruzou.

Andaste desaparecido...
O ano passado não me correu bem, tive lesões. Quando não estás bem no clube, obviamente que não vais para a seleção.

E este ano está a correr melhor?
Preparei-me bem antes de começar a época, porque tinha consciência das coisas. Propus-me objetivos para esta época e estou a trabalhar para eles.

Vi no Instagram que andaste a dar o litro no ginásio...
[risos] É verdade. É como te digo, pus objetivos na cabeça. Antes de começar a época, comecei a trabalhar com um preparador físico.

Estás mais magro, nota-se.
[risos] Sim, sim, não sei quantos, mas perdi uns bons quilinhos.

Como é viver na Ucrânia?
No primeiro dia que cheguei, pensei que estava muito frio, porque é sempre a ideia que se tem da Ucrânia. Então eu aterrei com o fato de treino da Nike vestido [risos], quentinho, e estava um calor horrível, horrível mesmo. Suei. Era agosto. O verão na Ucrânia é muito quente, e o inverno é muito, muito frio. Mas viver na Ucrânia é difícil, porque estou longe da família e dos amigos, mas faz parte da vida. Cada um tem o seu trabalho, e aquilo que quero é jogar futebol.

E o frio?
Há jogadores que põem sacos de plástico à volta dos pés ou colocam pensos nas palmilhas.

Sacos de plástico?
Sim, sacos de plástico. Eu não uso nada disso. Ponho um bocadinho de creme. Dizem que aquilo resulta, mas eu não uso. Mas, apesar das confusões e da guerra, não tenho razões de queixa, porque o clube dá-me todas as condições. O centro de Kiev é bastante bom, tem tudo. Nos últimos seis meses, as coisas voltaram à normalidade.

Mas nesses meses em que as coisas não estavam tranquilas...
Quando a guerra começou... foi muito de repente. Nós, no Dínamo, estávamos fora da Ucrânia, porque em dezembro e janeiro começamos uma nova pré-época, quando o campeonato para. Estávamos em Espanha. Lembro-me de que tínhamos um jogo com o Valência em Kiev, a primeira mão da Champions, mas tivemos de alterar a data e jogámos em Espanha. Tive oportunidade de ir ao centro de Kiev e vi pessoas a ocupar as vias, a dormir na rua. Aquilo meteu-me pena, aquele caos todo na cidade. Não tive colegas com familiares em dificuldades, mas é o país deles, percebes? Sei que os jogadores do Shakhtar Donetsk vivem e treinam em Kiev e vão jogar a outra cidade.

O teu futuro passa por Kiev?
O meu contrato acaba em junho, portanto quero fazer uma grande época, porque tenho o desejo de, por exemplo, voltar para Itália, pois a minha esposa é italiana.

A tua mulher é filha do presidente do Génova, clube em que jogaste depois de saíres do Sporting.
Eu conheci-a quando fui assinar o contrato na empresa do presidente. Mas não namorei com ela enquanto estava no Génova; só comecei quando saí para a Ucrânia.

Sempre quiseste ser futebolista?
Claro. Porque o meu pai [António Veloso] foi jogador, e eu habituei-me a ir a todos os jogos em casa, a andar no balneário. Eu só queria bola e só via bola à frente. Jogava muito na rua — agora já não se joga na rua... —, depois da escola. Mal acabavam as aulas, ia para a rua jogar.

Ser filho do Veloso ajudou-te?
Comecei a jogar no Benfica, em miúdo, e pouco tempo depois mandaram-me embora. Portanto, não tive privilégios nenhuns por ser filho do Veloso [risos]. Mas foi bom, porque depois de ter sido dispensado fui jogar para o Cultural da Pontinha, e aí correu-me tudo bem. Tão bem que o senhor Aurélio Pereira [olheiro do Sporting] foi falar com o meu pai e perguntou-lhe se eu gostaria de ser jogador do Sporting. Foi a melhor coisa que me aconteceu.

Corre a história de que foste dispensado do Benfica por peso a mais...
Tens de perguntar isso a eles, mas eu era muito gordinho.

Como é crescer num clube grande?
Olha, lembro-me do tempo em que nasceu a Academia, em Alcochete. Eu, como vivia em Lisboa, ia de autocarro de Alvalade para lá. Eram 40 minutos em que ia com as mesmas pessoas todos os dias. Ia com o Nani; o Yannick vivia na Academia, e o Moutinho tinha quem o levasse de carro. Eu e o Nani estávamos sempre na brincadeira, na palhaçada, e tínhamos o mesmo sonho, que era o de jogar pelo Sporting na equipa principal. Então, o Ronaldo, que tem um ano a mais do que eu, já andava pela equipa principal, porque ele sempre jogou num escalão acima do dele. Só joguei uma vez contra ele quando era miúdo, numa altura em que eu estava no Cultural da Pontinha e ele no Sporting. Passou muitas vezes por mim [risos].

Viveste com os teus pais até saíres?
Até sair de Portugal, tinha 24 anos. Era um miúdo traquina, sempre fui. Gostava de andar na rua até às tantas [risos]. Depois, lá iam à minha procura, para saber onde é que eu andava. Faz parte do crescimento.

O que é que te fez crescer?
Olha, antes de ir para Itália, pus na cabeça que queria sair do Sporting. Mas, quando assinei pelo Génova, pensei: “Então, querias tanto sair, querias tanto sair, e agora? Será que as coisas te vão correr bem?” Tive ansiedade, medo... Mas fez-me crescer. Aprendi a fazer a cama, a fazer comida, a lavar a roupa no clube, etc. Cresci. Viver fora, em mais do que um país, dá-te vida. Em Itália, aprendi o que é um campeonato em que todas as equipas, da primeira à última, têm jogadores importantes, com nome. E aprendi o que é trabalhar no ginásio, porque eles lá dão-lhe muito forte no ferro [risos]. Na Ucrânia, o futebol é menos competitivo, mas há duas, três equipas com muito qualidade; as outras são chatas [risos], correm muito, não descansam, batem em ti...

Continuas a matar nas consolas ou a tua mulher não te deixa?
[risos] É mais difícil, mas continuo a gostar de jogar PlayStation. “NBA”, “FIFA”, “Call of Duty”. Jogo em rede.

E quem é o melhor?
Claro que sou eu, não é? [risos] A sério, sou mesmo o melhor. Pode depender dos jogos, mas, normalmente, eu ganho. Se for o “Call of Duty”, então, não dou hipóteses. O Nani é aquele jogador que fala, fala, fala, mas não joga nada. O Moutinho joga bem o “NBA” e o “FIFA”... O Nani... olha, o Nani é aquele que diz que sabe jogar tudo mas perde sempre.

Eu e ele somos os melhores amigos; aliás, ele é mais do que um amigo. Sou muito chegado às pessoas de quem gosto. A amizade é importante, e mais vale ter poucas e boas amizades do que muitas e más. O Nani é o gajo mais divertido da seleção, está sempre a rir. Mas também há o Raul Meireles, que faz com que todo o grupo se alegre.

Mas olha que não é o que parece.
Lá está, sem conheceres as pessoas não podes dar uma opinião.

Não se deviam dar mais a conhecer?
O Raul parece calado, mas eu digo-te que ele é dos mais divertidos. Nós damos algumas entrevistas, a crítica vai estar sempre presente, porque nem todas as pessoas podem gostar do mesmo. Agora, não é por seres jogador de futebol que és mais burro ou mais inteligente do que uma pessoa que vai para a universidade. Até posso dizer que sou mais burro do que uma pessoa que está na universidade, mas se calhar tenho os mesmos valores de um universitário. A inteligência... Posso ser mais inteligente do que outra pessoa em determinados aspetos.

Falas com o teu pai?
Desejo-lhe a maior felicidade do mundo, mas neste momento não falo com ele. Quando uma pessoa que é muito chegada a ti te faz mal e te magoa... Mas quero que siga a vida dele. Foi duro. Eu sou futebolista porque ele era futebolista, o meu ídolo. Sempre o acompanhei nos jogos, era um exemplo para mim. O que as pessoas dizem é que o tempo cura tudo, não é? Vamos ver o que acontece no futuro.

Por isso é que passaste a ter só o teu nome próprio na camisola?
[silêncio] Não. Eu chamo-me Miguel. Tenho Pinto e também tenho Veloso e Luís no meu nome. Sou o Miguel Luís Pinto Veloso.