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“Quando saiu no jornal que o Benfica me queria, pensei que era mentira. Sou o Maradona agora, queres ver?”

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Batam palmas a este senhor porque ele é o melhor jogador do mundo e é português: Ricardinho

Mário Cruz/Lusa

A época do melhor jogador do mundo de futsal não poderia ter começado - lá está - melhor: bisou na conquista da Supertaça espanhola pelo Inter Movistar, já depois de ter completado 30 anos, idade que o atormenta. Nascido e criado Ricardo Filipe da Silva Braga num bairro social no Porto onde aprendeu a jogar até com laranjas, passou a Ricardinho quando começou a brilhar no futsal, no Benfica e lhe disseram que ia ser “o melhor desta merda toda”. Jogou no Japão e na Rússia, mas é em Madrid, onde foi campeão na época passada, que se sente melhor

A Bola TV comprou os direitos da Liga espanhola de futsal. É por tua causa?
Acho que é uma das causas, claro [risos]. É muito bom para mim e acho que para todos os portugueses também porque podem acompanhar a melhor liga do mundo todas as semanas.

Vens a Portugal muitas vezes?
Este ano vai ser mais complicado, porque vamos ter muitas competições, a nível de clube e de seleção, porque temos o Europeu e o apuramento para o Mundial. No ano passado, como jogava à sexta-feira, ia quase todos os fins de semana a casa. Mas este ano acho que vai ser o contrário, infelizmente.

Gostas de viver em Madrid?
Gosto muito. Aliás, já não me vejo a fazer vida fora de Espanha. Acho que é a primeira vez que sinto isto. Já vivi no Japão e na Rússia mas aqui sinto-me em casa, fui muito bem recebido. A verdade é que já tenho aqui muitos amigos e passo as minhas folgas cá, a conhecer Madrid. Quando tenho mais tempo vou a casa ver os meus filhos, mas quando não é possível falamos todos os dias pelo Skype. Ajuda a parecer que estou mais próximo.

E o teu castelhano, que tal?
Está muito melhor. Eles dizem que estou no top 5 dos estrangeiros que passaram pelo clube [risos]. Adaptei-me rapidamente. Já no Japão também, estudei japonês durante três meses e foi muito difícil, mas já dava para ir sair e pedir qualquer coisa. Claro que agora em Espanha é mais fácil, o idioma é parecido. Também sou uma pessoa que gosta muito de aprender e não tenho vergonha nenhuma de falar e ser corrigido, por isso facilitou. No início gozavam um bocado, "no entiendo nada" [risos], porque nós usávamos o tal portunhol, mas agora já não.

E cumprem religiosamente a sesta?
Fazem mesmo e eu já apanhei esse problema [risos]. É incrível, porque antes gozava com eles. Íamos para estágios e quando acabávamos de almoçar eles queriam ir dormir e eu ficava acordado as duas ou três horas que tínhamos de descanso, porque não estava habituado, mas eles com uma facilidade enorme adormeciam e eu ficava sem saber o que fazer. Mas com o tempo... até o café com leite já tomo, já não tomo o café português, portanto é tudo uma questão de hábito.

Estiveste em Lisboa há pouco a jogar contra o Benfica e o Sporting, na Masters Cup, e marcaste seis golos. Foi perfeito?
Perfeito era ter jogado com a camisola do Benfica [risos]. Custou-me imenso marcar ao Benfica, acho que foram os únicos golos que não festejei... Até no bairro festejava sempre.

Como é que tens essa ligação ao Benfica se antes eras do FC Porto?
É verdade, é uma coisa rara, porque costumamos dizer que não se muda de clube, ainda por cima de um rival para o outro, não é? Mas é simples. Nunca fui fanático, desde que tive aquele problema com o futebol, que foi jogar até aos 13 anos e depois no FC Porto dizerem-me que era pequeno demais. Quando fui para o Benfica, com 16 anos, comecei a criar uma ligação. Cresci ali como atleta e pessoa e fui criando raízes, criou-se dentro da mim a mística do que era o Benfica. Estive dez anos e meio lá por isso acho que foi normal isso acontecer, comecei a ver jogos em futebol, andebol, basquete, hóquei em patins... Criei amigos e o Benfica ficou dentro de mim.

Essa nega que te deram por suspostamente seres demasiado pequeno achas que também acontecia hoje? O Messi é o que é e tem 1,69m.
Tenho amigos no futebol e já trocámos muitas conversas sobre este tema, e a verdade é que também tem muito a ver com o treinador que apanhas. Lembro-me que jogava no Cerco do Porto e num jogo contra o Salgueiros ganhámos 4-1 e marquei os quatro golos. E estava lá um treinador do FC Porto, era o Frasco, que me convidou para ir jogar para lá. No ano seguinte fui, mas o treinador já não era ele, era outro, que gostava de jogadores fortes e altos, tinha uma ideia diferente da formação. Para mim foi uma desilusão, se calhar para ele agora também. Foi um sonho perdido.

Mário Cruz/Lusa

Onde começaste a jogar?
O meu pai é do Cerco e a minha mãe de Fânzeres, e eles juntaram-se e foram viver para Fânzeres. E eu comecei a jogar lá, num largo no meio da rua que tinha uns bancos onde os velhotes descansavam, e usávamos a parte de baixo a fazer de balizas. Ficávamos horas a jogar, futebol ou futsal ou lá o que era aquilo. Aí não interessava nem peso nem tamanho nem nada. Depois fomos viver para Gondomar, devia ter uns 8 anos. Aquilo era um bairro social, mas para nós era como um condomínio fechado de grandes condições, porque tinha um ringue [risos]. Íamos para lá todos os dias. Até no dia do batizado de um primo fui para lá e rebentei os sapatos todos. A minha mãe queria-me matar. Era um miúdo reguila que só queria jogar à bola e não havia horários para isso.

Então aprendeste a fintar na rua, no ringue, de ténis, de sapatos...
O meu pai trabalhava no mercado abastecedor do Porto e trazia muita fruta para casa. Eu pegava nas laranjas e nas maçãs para jogar, porque não havia dinheiro para bolas, infelizmente. Começava a fazer truques em casa e levava muita porradinha dos meus pais, porque a fruta não era para estragar [risos]. Mas aquilo para mim era uma coisa redonda e dava para brincar. Ainda este fim de semana estive em Gondomar e estavam laranjas em cima da mesa. E o meu pai disse: “Se fosse há uns anos, já estavam as laranjas todas no chão.” Começaram-me a vir as lágrimas aos olhos. O tempo passa, e hoje em dia os miúdos não valorizam nada disso, só querem computadores e não sei que mais. Até com meias e fita-cola eu jogava. Claro que na minha altura não havia YouTube para ver fintas, mas ia vendo o que os mais velhos faziam, porque jogava sempre com rapazes de 24, 25 anos, tinha eu 14 e 15, e aprendi à força com eles. Claro que quando começava com brincadeiras eles não achavam muita piada [risos].

Como era a vida no bairro?
Nunca tive problemas. Mas somos três irmãos, e o mais velho está preso, há sete anos. Porque no bairro há de tudo e és tu que tens de escolher o teu caminho. Mas, atenção, não tenho vergonha nenhuma, o meu irmão continua a ser um exemplo para mim. Isto para te explicar que sempre fui muito feliz no bairro. Não tinha sapatilhas, o vizinho do 2º esquerdo trazia-me umas sapatilhas; se tinha as meias rotas, o senhor do lado dava-me umas meias... Hoje, acho que a maioria das pessoas nem conhece os vizinhos. Eu conhecia todos e ainda agora vou lá e sou para eles como um ídolo, mas chego lá e sou igual para todos. Vou ao mesmo café, tenho os mesmos amigos, falo com os mesmos senhores mais ou menos velhos, vejo os pequeninos que já cresceram...Aliás, há pessoas que trabalham comigo agora, nas minhas redes sociais, e o meu motorista, que são do meu bairro.

Quando eras miúdo, o que é que querias ser?
Sempre quis ser jogador. Também me alimentavam isso, porque desde pequeno chamavam-me Maradona, e eu nem sabia quem era. Tive de perguntar ao meu pai.

Não havia YouTube...
Nem computador, quanto mais [risos]. O meu pai explicou-me quem ele era, e pensei que era uma responsabilidade enorme. Para mim, girava tudo à volta da bola. Na escola chamavam os meus pais porque eu estava sempre a jogar e depois chegava às aulas todo suado e mal conseguia escrever, a pingar os cadernos. Diziam aos meus pais para me chamarem a atenção, mas para não me proibirem de jogar, porque podia ter futuro.

Lembras-te dos primeiros trocos que ganhaste?
Lembro-me perfeitamente da história toda, se quiseres que te conte. Ainda é longa.

Conta.
Treinava no Miramar, nos juvenis, juniores e seniores.

Como é que é?
Tinha 15 anos e treinava, das 20h às 24h, com os juvenis, os juniores e os seniores. E quem me levava a casa era o André Lima [ex-jogador e treinador do Benfica], no seu Opel Corsa cinzento, lembro-me perfeitamente [risos]. Com os juvenis jogava só jogos mais difíceis, porque normalmente jogava nos juniores e os seniores para mim eram uma espécie de prémio, estar só a treinar com eles era muito bom. E então o que é que aconteceu: há um Miramar-Freixieiro, numa quinta-feira, em que o André Lima é expulso, o Israel é expulso e um guarda-redes é expulso.E nós tínhamos jogo a seguir, sábado, contra o Famalicense. Na sexta-feira, o treinador disse-me que eu estava convocado para o jogo dos seniores e eu fiquei logo todo a suar. Já nem consegui dormir nessa noite. Acho que já dormi com a mochila às costas, para não me esquecer [risos] Combinei com um colega para me ir buscar à rotunda do Freixo, que eram 35 minutos a pé desde a minha casa. Fui a correr o caminho todo, porque estava com medo de me atrasar, mas cheguei lá uma hora antes [risos]. Quando chegámos ao campo, eu todo suado e eles a gozar: “Já estiveste a jogar, Ricardo?” Nunca pensei que fosse entrar, porque eram oito seniores e eu, pensava que estava ali para fazer número. Até que começamos a perder e eu penso logo para mim "agora é que não jogo mesmo". Mas o treinador de repente diz: "Ricardo, anda". Só que na altura havia um outro jogador que se chamava Ricardo, por isso quando ouvi o nome, não me mexi, pensava que era para aquele rapaz. E ele volta a chamar e os outros começam a empurrar-me: "anda lá". E eu pensei "estamos a perder e eu vou lá para dentro fazer o quê?" Entrei... Olha, o Maradona marcou com a ‘mão de Deus’ e eu acho que foi Deus que me deu a mão para marcar três golos. Ganhámos 4-1, mas o treinador tirou-me antes de o jogo acabar, porque disse que eu estava mais branco do que a parede [risos]. Isto para chegarmos então ao que perguntaste: no final, o presidente deu-me um cheque. “Isto é um prémio pelo teu jogo.” Agora imagina, eu nunca tinha tido dinheiro na minha vida - infelizmente a minha mãe, coitadinha, só me dava o que podia para eu levar para a escola, que era uma moeda grande, cinzenta, de 50 escudos - e ele dá-me um papel, o que para mim não era nada. Guardei aquilo e quando cheguei a casa dei à minha mãe, disse-lhe que não sabia bem o que era. E ela pega no cheque e começa a chorar: "Ó filho, isto é dinheiro. São 250 euros." Fiquei muito orgulhoso por poder ajudar os meus pais.

Pouco depois ligaram-te do Benfica. Acreditaste logo?
Achas? Aquilo até saiu primeiro no jornal: “Benfica quer Ricardinho”. Comecei-me a rir-me, claro. Sou o Maradona agora, queres ver? Pensei que era mentira. Passados três ou quatro dias, ligaram para os meus pais. Quer dizer para o meu pai, que ele é que tinha telemóvel. E quando ele me diz aquilo comecei logo a chorar, nem sabia se era felicidade ou medo de falar com eles. Os meus pais na altura faziam-me uma coisa muito boa: diziam que eu é que tinha de decidir o que queria, não tomavam decisões por mim. O meu pai dizia: "Se um dia bateres com a cabeça na parede, é por tua culpa, não é por minha. Mas eu vou estar aqui para te ajudar". Quando o Benfica me ligou, eu já ganhava 750 euros, lembro-me perfeitamente, e o engenheiro Luís Moreira ofereceu-me 1900 euros. Aquilo era um câmbio impressionante, como dizem os espanhóis. Na altura a minha mãe não trabalhava e o meu pai acho que ganhava uns 500 euros. Eu, ingénuo, perguntei se aquele dinheiro fazia muita falta à família, e eles disseram que sim. E eu disse que ia, apesar de querer ficar com os meus amigos, na minha cidade e no meu bairro. Já ganhava 750 euros, por isso para mim já estava rico [risos]. Por incrível que pareça, nos primeiros dois anos no Benfica, eu ficava com 50 euros, o resto mandava tudo para os meus pais, para ajudar. Ficava com aqueles 50 euritos e ia ao Porto de vez em quando, de boleia com o André Lima ou o Arnaldo, ainda por cima eles não me deixavam pagar nada, porque eu era o menino deles. Mesmo assim houve uma altura complicada, antes de ir para o Benfica, porque o Freixieiro apareceu-me em casa com uma mala com cinco mil euros. É algo que não se deve fazer, mas pronto, já se fez. Para um miúdo do bairro ver cinco mil euros à frente dele... Mas a minha mãe rejeitou, disse que éramos pobres mas éramos humildes e tínhamos palavra, já tínhamos dito que ia para o Benfica. E fui.

Como é que te safaste sozinho em Lisboa, com 16 anos?
Só queria voltar para o Porto. Há coisas do caraças, porque agora sou um viajante, adoro viajar, mas naquela altura não. Lembro-me de que no dia em que me fui embora estava o bairro todo à porta de minha casa, tudo a chorar, porque para eles Lisboa era a 50 horas dali. Parecia que ia para o Japão ou o caraças [risos]. "Ai nunca mais te vamos ver, o nosso menino" e estava eu a duas ou três horas de comboio, não é? No Benfica ainda tinha de aprender e jogava pouco. O mister Alípio Matos perguntou-me se estava triste, e eu disse-lhe que me queria ir embora, porque jogava pouco. Ele respondeu: “Aguenta, miúdo, porque vais ser o melhor desta merda toda” [risos].

Vivias com quem?
Vivia em Caneças, no cu de Judas, numa casa do engenheiro Luís Moreira, com o André Lima e com o Arnaldo, o que para mim foi uma salvação, ensinaram-me muito. Ajudaram-me a fazer com que os meus 50 euros parecessem cinco mil euros [risos]. Até parece mal contar isto, mas passei a ir pela primeira vez ao shopping, aquilo para mim era um espanto e eles riam-se de mim, porque eu olhava para tudo, não estava habituado.

Cozinhavas?
Não, não, nós tínhamos um patrocínio na altura de uns restaurantes em Caneças e em Loures e íamos lá. Ainda hoje não sei cozinhar [risos].

E com as miúdas, davas-te bem?
Por acaso acho que sempre me dei bastante bem [risos]. Porque a minha maneira de ser, assim brincalhão, sempre me safei muito bem. Em Lisboa ainda me custou um bocado ao início, porque com aquele sotaque era mais difícil [risos]. Também fui aprendendo com os mestres André e Arnaldo [risos]. Aliás, a minha mulher - infelizmente hoje em dia estamos a pensar separar-nos - é de Lisboa.

Quando estavas no Benfica também houve aquela história de ires experimentar o futebol 11, mas depois não se concretizou.
Infelizmente. Abriu-se uma porta e veio um camião e pôs-se à frente, é o que eu costumo dizer. Entendo que as pessoas que estão nos jornais queiram dar as notícias antes do outros, mas quando isso saiu no jornal, antes do tempo, o Benfica fez marcha atrás, até porque era um ano em que não ganhou nada e estar a arriscar pôr um jogador de futsal no futebol se calhar os adeptos não iam achar muita piada. A ideia era fazer tudo em sigilo mas infelizmente não foi possível. Mas isso fez-me ganhar ainda mais força para continuar a mostrar o meu valor no futsal e chegar a este patamar.

NICOLAS ASFOURI/Getty

Falavas há pouco nos 50 euros com que ficavas. Não houve alguma coisa que quissesses mesmo comprar com o primeiro dinheiro?
Quando comecei a ganhar aqueles 750 euros dava tudo aos meus pais. Mas um dia disse à minha mãe: "No dia em que já não precisares tanto do dinheiro, podes dar-me 500 euros?" E ela muito surpreendida: "Ai filho, para que é que queres tanto dinheiro?" Na altura tinham saído uns telemóveis topo de gama e eu queria comprar um, porque já tinha um amigo lá na escola que felizmente tinha uma vida melhor do que a minha e tinha um. E passados uns tempos, a minha mãe deu-me o dinheiro e foi a primeira coisa a sério que eu comprei, mais para mostrar aos amigos do que para mim até [risos]. A segunda coisa que quis comprar, logo depois de tirar a carta de condução, foi um carro, claro. Foi um Audi A3 cinza. Ainda dormir algumas noites dentro do carro [risos]. Qualquer coisa que acontecesse dizia "vou ali". "Ali onde?", "ali", desde que andasse um bocado de carro [risos].

Foste para o Japão pelos 30 mil euros por mês?
Ainda foi mais um bocado [risos]. Já em 2009, quando ganhava 10 mil euros no Benfica - o que em Portugal já era demasiado forte para um jogador de futsal, como algumas pessoas dizem, porque só os de futebol é que merecem esses valores -, queriam que fosse, mas não me quiseram pagar tanto. No ano seguinte, perguntaram-me o que queria, e eu estava com a minha mulher a mandar o e-mail e dizia: carro, viagens, internet, fogão... sei lá, tudo o que me lembrei. Disse-lhe para ela se preparar, porque ela é cantora e as músicas dela já andavam a passar nas novelas, mas se eles dissessem que sim tínhamos de ir. Achávamos que não iam aceitar, mas a conversa nem sequer durou cinco minutos, porque chegou logo o e-mail a aceitar. Ficámos com cara de parvos. Até tivemos de casar à pressa pelo registo para irmos os dois. Não me arrenpendo de nada, foi uma aventura fantástica, trataram-me muito bem. O único senão eram os terramotos e a distância para Portugal. Perdi mais de 30 internacionalizações com isso, porque eram 22 horas de viagem e era muito desgastante, por isso só vinha para a seleção nos jogos mais a sério.

E em Espanha ganhas menos?
Agora está quase ela por ela. Quando vim, no ano passado, ganhava menos 30%, porque tive de me vir mostrar aos espanhóis, eles são muito desconfiados. “És bom em Portugal e no Japão, mas quero ver em Espanha.” Então fizemos um contrato que era revisto de três em três meses, dependendo da minha prestação. Felizmente, já estou com o valor semelhante ao do Japão. E estou muito bem aqui.

Fizeste quinta-feira 30 anos...
Acabaste comigo agora. Isso é o pior assunto de todos [risos]. As pessoas dizem que estou sempre a sorrir, mas já tinha dito que quando chegasse aos 30 ia ficar triste. Começam a pesar as pernas e as costas e tudo mais. Se Deus quiser e me proteger das lesões, espero jogar a alto nível, a fazer a diferença, até aos 35 ou 36 anos.

Como é sentires-te o melhor do mundo - já por duas vezes?
O que acho é que ser o melhor do mundo é um momento. Porque tu fazes uma temporada fantástica, marcas muitos golos, a tua equipa ganha títulos e é mais fácil seres nomeado melhor do mundo. Mas aconteceu-me isso no Japão e aí não me deram nada. "No Japão até eu", devem ter dito. Foi preciso vir para a melhor liga do mundo, contra os que são supostamente melhores do mundo, para mostrar, até parece que as pessoas só olham para a liga espanhola. Sinto que, mais importante do que ganhar qualquer título, ganhei o respeito dos treinadores contrários, dos adversários, do treinador, dos companheiros... Um português ser recebido em qualquer estádio aqui e ser aplaudido e parado durante uma ou duas horas para fotografias e autógrafos, isso sim é um grande troféu. Por isso é que digo que estou a passar o meu melhor momento. Estou na melhor equipa do mundo para jogar futsal e na melhor liga. Infelizmente não tem os melhores adeptos, porque esses são os do Benfica [risos] mas sou muito bem tratado e espero seguir aqui muitos anos.

Os teus filhos jogam?
O meu filho, Lisandro, tem 7 anos, é canhoto e joga futsal. Mas diz que gosta mais de jogar futebol do que futsal porque tem medo do barulho dos pavilhões [risos]. Infelizmente nunca tive oportunidade de ver um jogo dele, porque ele joga ao sábado e eu raramente tenho sábados livres, mas claro que já joguei com ele e já vi que tem um pé esquerdo bem vincado. Mas eu não sou muito aquele pai de dizer "aqui temos o próximo Cristiano Ronaldo ou Maradona" [risos]. Quanto à minha filha, posso dizer-te que adoro futsal feminino, vejo muito e falo com a Mélissa Antunes, com a Rita Martins e com jogadoras espanholas e brasileiras, mas Deus queira que a minha filha vá por outros caminhos.

Porquê?
Porque acho que o futsal feminino está muito discriminado, muito subvalorizado. Portanto o que vejo, é verdade que já há mais aposta, mas elas sofrem muito para terem o valor reconhecido e preferia não ver a minha filha a passar por essas dificuldades, claro. É só por isso, porque eu adoro futsal feminino, acompanho muito e vou ver a Supertaça feminina aqui de Espanha, por exemplo. Mas é uma luta quase sem fim.

Um dia destes disseste que ias escrever um livro no qual ias falar de temas polémicos. A que te referes?
Ui, está quase pronto e vou contar muita coisa que as pessoas não vão gostar de ouvir. As pessoas de quem vou falar, quero eu dizer. Mas acho que está na hora.

Como por exemplo...
Não, não posso contar ainda. Posso dizer que o livro vai falar da minha história, dos bastidores da história. O que aconteceu no Mundial, o que aconteceu quando o Ricardinho voltou ao Benfica seis meses e foi expulso dois ou três jogos seguidos, o problema que houve nessa altura no balneário... Agora é que as pessoas vão saber. Sairá brevemente.

Versão integral da entrevista originalmente publicada na edição de 5 de setembro de 2015 do Expresso