Siga-nos

Perfil

Expresso

Desporto

Uma bola, 22 jornalistas e muita vergonha alheia: jogámos no relvado da Luz

  • 333

E AÍ, CARA. Jardel e Jonas trocaram as chuteiras pelo banco e foram os misters de serviço num jogo no Estádio do Luz com 22 jornalistas convidados pela Adidas

Qual é a melhor forma de dois jogadores de futebol se vingarem das críticas que ouvem a época inteira por parte de jornalistas? Fácil: meterem os ditos jornalistas no relvado. Jonas e Jardel foram treinadores por um dia no Estádio da Luz e bem tentaram ajudar os “jogadores”, mas não há mister que resista a um plantel destes

Mariana Cabral

Mariana Cabral

Texto

Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotos

Fotojornalista

Sabe quanto mede o relvado do Estádio da Luz? A questão passou-me recorrentemente pela cabeça enquanto arfava como um pugg com problemas respiratórios depois de ter feito a minha primeira incursão atacante pelo corredor lateral direito daquele tapete verde impecável (ao menos posso gabar-me de ter fintado o colega da Visão, Luís Ribeiro - o dia a dia dele aqui no edifício nunca mais será o mesmo). De acordo com o melhor amigo dos internautas no século XXI (o Google, claro), são 105 metros de comprimento e 68 metros de largura.

Agora, sentada confortavelmente na minha secretária, não me parece assim tanto. O problema é que o pós jogo tem a facilidade de passar-se única e exclusivamente no nosso cérebro e raramente corresponde à realidade (ainda para mais, uma realidade em que esta jornalista passou o verão de papo para o ar - e não, não foi a fazer abdominais). Na altura, a correr desalmadamente entre 21 jornalistas, a verdade é que o relvado da Luz me parecia maior do que aquele onde fica a Casa Branca (se quer mesmo saber são 18 hectares - sim, foi o nosso amigo que me disse), mesmo que só tenhamos jogado uma meia horita em ritmo de passeio.

Sei que Jonas e Jardel já devem ter ouvido falar de Marx - “a prática é o critério da verdade”, repetiu Jorge Jesus na época passada, com o seu melhor ar erudito -, por isso deixo aqui uma boa citação para ambos mandarem, para a próxima, aos responsáveis que organizaram este evento: “De nada valem as ideias sem homens que possam pô-las em prática”.

A EQUIPA X(XX). Cuidado, o futebol produzido por esta equipa pode ter conteúdo que alguns espectadores (os 58 que estavam na Luz, disse-nos o speaker de serviço) consideram ofensivo

A EQUIPA X(XX). Cuidado, o futebol produzido por esta equipa pode ter conteúdo que alguns espectadores (os 58 que estavam na Luz, disse-nos o speaker de serviço) consideram ofensivo

Nuno boelho

Para marcar o lançamento das suas novas linhas de chuteiras, a X15 e a ACE15 (todos os outros modelos da marca foram descontinuados), a Adidas convidou 22 jornalistas a viverem durante um dia o sonho de infância que quase todos temos (sim, até raparigas): ser jogador de futebol. Houve direito a convocatória na sala de imprensa da Luz, com o mister Jardel a chamar os jogadores da equipa ACE, a bota para os jogadores que “controlam o jogo”, e com o mister Jonas a - cito - “escalar o time” X, a bota para os jogadores que “provocam o caos no jogo” (mal sabiam eles que caótico era de facto um bom adjetivo para descrever o nosso jogo).

Depois, foi impossível conter um friozinho na barriga quando entrámos no balneário e vimos os nossos nomes escritos num cacifo a sério, à jogador da bola (já posso dizer que tive um cacifo na Luz, ao contrário de Bernardo Silva - desculpem lá, benfiquistas), antes do mister entrar para a palestra. “Galera, vamos jogar em 4-2-3-1. Quem quer ser zagueiro e volante?”, perguntou Jonas, que depois aguentou estoicamente algumas provocações sobre a tática escolhida (mas o que se diz no balneário fica no balneário, bem entendido).

Mais a sério, o avançado brasileiro disse que ainda não pensava em ser treinador - daí que entretanto tenha renovado contrato com o Benfica até 2018, altura em que terá 34 anos -, mas Jardel também não e mesmo assim conseguiu superar o colega. “Foi uma ótima experiência, gostei muito”, disse o central no final (sobre J. J. e Vitória não houve comentários). Ninguém diria, dado o ar inexpressivo com que ia vendo o jogo (não terá uma costela alentejana?), ao contrário de Jonas, que ainda esbracejou qualquer coisa e levou uma reprimenda do árbitro. Se falou ou não para o relvado, sinceramente, não faço ideia. A imponência das bancadas que nos rodeavam (mesmo que só estivessem nelas 58 espetadores, anunciou o speaker com pompa) e a fita da GoPro a apertar-me a cabeça (e só a usei alguns minutos) não me permitiu estar muito atenta ao banco.

No final, a equipa X, de Jonas, perdeu por 2-1 com a equipa ACE, de Jardel (que contava com uma dupla de centrais digna do Campeonato Nacional de Seniores, composta por Nuno Farinha, do Record, e Nuno Travassos, do Maisfutebol). Não houve flash interview (e ainda bem, não fosse o mister Jonas dizer o que nos disse ao intervalo: “Não 'tamo jogando naaaaaada”), mas houve boa disposição e a confirmação de que os futebolistas não precisam de andar sempre fechados numa redoma. Porque os jornalistas não são papões. São apenas uns tipos (e uma tipa) que gostavam de ter sido craques da bola. Isto - veja o vídeo acima - foi o melhor que conseguiram.