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Jesus e a tentação dos grandes

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MÁRIO CRUZ/ LUSA

Jorge Jesus confirmou o desejo secreto que há uns meses circulava nos bastidores do mundo do futebol: treinar os três grandes portugueses e ser campeão pelo Benfica, Sporting e FC Porto

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

Três meses depois de protagonizar a mais inesperada troca de bancos do futebol português, o treinador do Sporting não fecha portas ao Dragão. Numa longa entrevista, este domingo, ao “Record”, Jorge Jesus não resistiu a dizer alto e bom som aquilo que já há algum tempo confidenciava entre os mais próximos: o desejo de não acabar a carreira sem treinar os três grandes.

“FC Porto? Porque não?”, responde Jesus, recordando que já disse várias vezes que não é treinador “de uma equipa”. Caso venha a sentar-se no banco portista, o que não será um lance estranho dadas as relações cordatas e admiração mútua que Pinto da Costa e Jesus alimentam há décadas, não será um feito inédito no futebol nacional, seguindo o trilho dos portugueses Fernando Santos e Jesualdo Ferreira.

O que o fará entrar na história dos mitos do futebol é ser campeão tricolor, algo que nem o atual treinador da seleção ou Jesualdo lograram alcançar. Fernando Santos foi o engenheiro do penta portista, mas falhou na sua incursão pelo Sporting e Benfica - na Luz, foi protagonista de uma chicotada invulgar logo após a primeira jornada no seu segundo ano na Luz.

Jesualdo Ferreira, tricampeão azul e branco após uma passagem não menos inglória pelo Benfica, também saiu de Alvalade sem fama nem glória, ato falhado que Jorge Jesus não admite repetir. Confessando-se de pedra e cal no Sporting e completamente envolvido no projeto desportivo de Bruno de Carvalho, o técnico que não peca pela modéstia “acredita poder festejar o título já em maio” com a camisola leonina.

Na entrevista - incómoda para os dirigentes do outro lado da Segunda Circular -, Jesus culpa Luís Filipe Vieira pela sua saída da Luz, desmentindo o presidente do Benfica, que afirmou ter sido o treinador que não quis continuar no clube. “Não me senti desejado. Tive de ir à minha vida, mas dentro da ideia de que seria eu a escolher o meu futuro e não aceitar que fossem outras pessoas a impor-me”, garante Jorge Jesus.

Sustentando que durante a sua longa carreira sempre pensou pela sua cabeça e “nunca pela dos meus agentes nem pelas de quem me rodeia”, o veterano treinador de 61 anos adianta ainda que após a ligação de seis anos não houve aproximação com o líder do Benfica e que não acredita que qualquer outro treinador seja capaz de ficar à frente de um grande português durante tanto tempo. “Nem eu sei se conseguirei repetir isso no Sporting.” Do ciclo de seis anos, Jorge Jesus sai com o ego inchado por ter sido “o treinador que recuperou o Benfica em menos tempo, que mais títulos ganhou e que mais alegrias deu”.

O karma em cima de Jesus

Apesar da passagem vitoriosa, adivinha que vai ter um problema no regresso ao Estádio da Luz: “Quando saio das equipas, os adeptos ficam sempre zangados comigo... saí do Braga para o Benfica e os adeptos do Braga não me perdoaram; saí do Benfica para o Sporting e os adeptos do Benfica não me perdoaram. Tenho tido este karma em cima de mim”.

Sem papas na língua, o intrépido técnico dos leões gaba-se de Rui Vitória ter feito “o que eu queria” na Supertaça, confidencia que abdicou de muito dinheiro para treinar o Sporting e irá receber o último ordenado do Benfica e com juros. “Pode é demorar muito tempo. Está em tribunal.”

Em relação ao Sporting, não regateia elogios aos jogadores e a Bruno de Carvalho, “o presidente que tem pedalada” para ele. Este ano, frisa que irá ser mais fácil chegar à final da Liga Europa do que quando o fez no Benfica e que os jogadores consigo evoluem mais num ano do que em dez com outros treinadores.

Questionado sobre o plantel, optou por dar uma imagem: “Se compras um Ferrari, tens de ter dinheiro para a gasolina. Se me contrataram, têm de ter dinheiro para a gasolina. Não é?”, pergunta, antes de concluir que tem o que precisa para chegar ao fim da corrida.