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“Doutora, não pode ficar aí, que não consigo protegê-la”

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A entrevista à nova médica do Belenenses ficou combinada no início da última semana de agosto, mas não foi fácil arranjar um dia para a conversa. A fotografia foi tirada ainda de dia, mas a conversa com uma das raras protagonistas femininas do futebol masculino só começou madrugada dentro, já depois de o Belenenses ter garantido a qualificação (histórica) para a fase de grupos da Liga Europa, a 27 de agosto

Posso tratar-te por tu?
À vontade.

E eles como é que te tratam?
Por “doutora”. Tem de se manter o respeito. Não tenho a idade deles [37 anos], mas tem corrido bem. Às vezes, também me chamam “doc” [risos].

Como é que chegaste aqui?
Fui contratada pelo presidente [Rui Pedro Soares]. Trabalhei nove anos na Federação de Atletismo, até 2013, e quando surgiu o convite aceitei.

Logo?
Pensei três ou quatro vezes. Toda a gente me incentivou, porque uma oportunidade destas não aparece todos os dias. Estive reticente, porque há um desgaste enorme, muitos treinos e jogos ao fim de semana, mas tive o apoio de família e de amigos, que sabiam que eu gostava de trabalhar no futebol.

Então gostas de futebol...
Muito. Em casa, vejo sempre tudo o que posso. Também sou fanática pelo atletismo, mas sempre segui o futebol. Acima de tudo, sou muito fã daquilo que faço no dia a dia, que é a medicina desportiva. Estar aqui é um sonho.

Mas és portista.
Desde os 5 anos. Sou de Leiria, que tem um dos maiores núcleos sportinguistas do país, mas tinha um namoradinho na primária que era do Porto e fiquei portista [risos]. Agora, a cor continua a ser azul. Defendo sempre aqueles com quem trabalho, portanto a minha equipa agora é o Belenenses.

Já tinhas vindo ao Restelo?
Não, foi a primeira vez.

Mas viste o Belenenses-Porto que deu o título ao Benfica?
Vi em casa, sim.

Aí não deves ter gostado muito do Belenenses...
[risos] Se o Porto tivesse sido campeão, teria sido melhor, mas não foi por esse resultado.

Entrar em campo contra o Porto faz alguma diferença em termos emocionais?
Nenhuma. Não me interessa quem está do outro lado. Tenho falado com muitos colegas que não trabalham no clube do coração mas que são tão bem recebidos que até se esquecem de qual é o clube do coração.

Hoje não fizeste nada. Como é que se passam 90 minutos no banco?
Com nervosismo e emoção. Sabemos que quando não fazemos nada é porque as coisas correram bem, porque o jogo é correto. Não entrar no relvado é a melhor coisa que pode acontecer a uma equipa médica.

A Eva Carneiro entrou e foi a pior coisa que lhe aconteceu.
Enfim... Há uma pessoa que precisa de ajuda e a nossa função como médicos é ajudar. Se o árbitro chama, a equipa médica tem de entrar, não há volta a dar. É tão simples quanto isto. Se foi chamada e o atleta está no chão, não se levantou, então tem de ir, porque ninguém consegue fazer um diagnóstico a partir da linha lateral.

O Mourinho disse que é preciso perceber o jogo. O que é que isso quer dizer para vocês?
Talvez nós não vejamos o jogo, ou melhor, o apoio ao jogador da forma que um treinador vê. Ele vê-o com o objetivo de ganhar. Claro que nós também, mas temos um canudo por trás, digamos assim. Somos médicos, a nossa formação é ajudar quem precisa, e recusar uma ajuda em campo ou noutro sítio qualquer não faz parte do nosso código deontológico. Percebo que ele se tenha irritado, mas se calhar foi mais por não estar a ganhar em casa do que pela atitude da médica.

Então, o afastamento dela não fez sentido...
Na minha cabeça, não fez sentido nenhum. Acho que ela agiu corretamente.

Se fosse aqui, com o Sá Pinto a gritar, como é que fazias?
Não vai acontecer, de certeza. Há confiança entre o mister e a equipa médica e estamos sempre em constante conversa.

Falas muito no banco?
Sou muitíssimo mais calma do que o resto do pessoal [risos]. Tento acalmá-los, faço um bocadinho de advogada do diabo. Não quer dizer que não viva o jogo com intensidade, mas são formas de estar.

Entras no balneário?
Temos o departamento médico a funcionar em dias de treino, e é aí que eles vão para serem tratados. Em dia de jogo, vamos para o balneário. Não entro se não houver necessidade, na fase em que os atletas estão na parte do banho. Mas o balneário é grande, e temos uma parte que é dos tratamentos e massagens. Eu estou nessa parte. Não há problema nenhum, é tudo impecável. Se é necessário entrar, perguntam: “A doutora pode entrar?” Normalmente, após o jogo, quando estão a tomar banho, tenho de acompanhar os atletas ao controlo antidoping. E depois também tenho de ir tomar o meu banho [risos].

Também trabalhaste nas brigadas antidopagem.
Alguns anos. O caso mais difícil foi num controlo fora da competição, a uma atleta da pesca desportiva. A única indicação que tinha era a praia de Oeiras entre as 4h e as 5h30 da manhã. Mas é claro que os atletas da pesca desportiva pegam no barco e saem, não estão na praia à espera que haja um controlo de surpresa [risos]. Demorou mas lá consegui apanhá-la.

No ano passado havia uma médica no V. Setúbal, mas saiu. Faltam mulheres no futebol?
Espero que eu não seja a única mulher no futuro. Não faltam mulheres, faltam é oportunidades, como me deu o presidente. Desde que haja respeito, tudo funciona bem.

Falas bem italiano, espanhol e inglês. Isso vem tudo de onde?
Cresci em Leiria, mas vivi alguns anos em Nápoles, porque o meu pai era piloto da Força Aérea e trabalhava para a NATO. Fiz lá o secundário, portanto falo bem italiano. Um dos meus melhores amigos era espanhol: ele ensinou-me espanhol e eu ensinei-lhe português, falávamos ao contrário [risos]. E a escola era americana, por isso a educação base era em inglês, mas em casa falávamos meio português, meio italiano, era uma confusão.

Aqui não precisas: o Belenenses é 100% português.
Mas pode fazer a diferença, por exemplo, na Liga Europa, onde temos gente da UEFA de todas as nacionalidades. Na 1ª mão com o Altach, o médico era andorrenho e tivemos uma alegre conversa em espanhol.

Já tiveste alguma situação menos simpática?
No clube não, são incansáveis. No jogo com o Gotemburgo houve um final difícil e lembro-me de o responsável da nossa segurança estar preocupado, porque fiquei mais perto do banco, não fui para a confusão, e ele gritava: “Doutora, não pode ficar aí, que não consigo protegê-la”. Depois comecei a sentir uma chuva de caixinhas de tabaco de mascar, que os nórdicos usam muito, e tive de me pirar dali [risos].

Ouviste alguns insultos?
As bocas entram a cem e saem a mil. Sempre fui super-hiperdespachada, por isso podem dizer o que quiserem que não me afeta em nada o espírito. Uma mulher ali não agrada a toda a gente. Acredito que a Eva Carneiro tenha sofrido horrores, mas os adeptos do Chelsea já tinham cânticos para ela, portanto as pessoas passam de bestial a besta e vice-versa rapidamente. Quando entras num hospital, não importa se vais ser tratada por um homem ou uma mulher. É um médico, ponto final. No atletismo, nunca houve problema nenhum. Porque é que no futebol há de ser diferente?

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de agosto de 2015