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“Imagina que estás em 1984 e alguém te diz que no futuro haverá jogadores de €90 milhões. Acreditarias? ”

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BOLA. O Paul Tomkins é adepto do Liverpool e já escreveu onze livros sobre futebol que estiveram nos tops no Reino Unido

d.r.

É a inflação, estúpido. O escritor britânico Paul Tomkins escreveu um livro, “Pay as you play: The True Price of Sucess in the Premier League Era”, que explica a enorme disparidade de valores entre o mercado atual do futebol inglês, em comparação com épocas anteriores. A diferença está na inflação, muito maior do que a que afeta o preço dos alimentos

Quando vemos os números das transferências atuais dizemos que o mercado está maluco, mas o teu livro explica que não é o caso, porque é tudo uma questão de inflação. Podes explicar porquê?
Tens de comparar os preços anteriores aos de agora, usando a inflação (por isso desenvolvi um sistema chamado Transfer Price Index). Por exemplo, o jovem português Tiago Ilori, do Liverpool, custou uns razoáveis €10 milhões em 2013 - não foi barato, mas também não foi muito caro. E Diego Maradona custou ao Nápoles, em 1984, €9,5 milhões, e era o melhor do mundo naquela altura. Contudo, não se pode dizer que o preço de Ilori é uma loucura porque custou mais do que Maradona, porque Ilori está neste mercado e não no velho mercado. Desde 1992, o Índice de Preços do Consumidor no Reino Unido, que mede os preços de produtos como o leite e o pão, mostra que os preços duplicaram, em 23 anos. Só que, no futebol, o preço médio de um jogador é agora onze vezes maior do que naquela altura - ou seja, muito maior do que a inflação normal dos produtos. Isto quer dizer que um jogador de €7 milhões em 1992 valeria €74 milhões em 2015. A inflação em Inglaterra está a subir rapidamente, devido aos acordos televisivos, porque até os clubes que descem de divisão recebem €80 milhões. Em Espanha é ligeiramente diferente, porque os clubes negoceiam os seus próprios acordos sozinhos. Só calculei a inflação no mercado britânico, mas é natural que haja uma tendência semelhante nos restantes países. Por exemplo, creio que a transferência de Figo valeria hoje mais de €140 milhões. Até a recente mudança de Ronaldo, em 2009, hoje valeria mais de €180 milhões.

Isso corrompe as oportunidades de mercado para os outros países?
Creio que sim, em parte, até porque os clubes ingleses gastam muito dinheiro no seu próprio mercado. Mas os outros clubes europeus já devem saber que devem pedir mais se o comprador for inglês, porque é uma ajuda para qualquer vendedor saber que o comprador é rico. Claro que se um clube inglês e outro europeu estiverem a competir pelo mesmo jogador é natural que o orçamento do europeu não estique tanto. De qualquer modo, os clubes portugueses, por exemplo, têm vendido muito bem os seus melhores jogadores no mercado e têm comprado substitutos mais baratos com potencial semelhante.

Iremos ter em breve jogadores a custar mais de €250 milhões, por exemplo?
É importante relembrar que em alguns anos há deflação, não apenas inflação. Em média, os preços caem uma vez em cada cinco épocas, devido a descidas nos valores dos acordos televisivos ou devido à recessão mundial. Contudo, quando há uma recuperação, os preços começam outra vez a subir. Espera-se que haja um dia em que a bolha rebente, mas até agora parece não acontecer. Se o preço médio de um jogador continuar a subir como tem subido até agora, é provável que haja jogadores de €250 milhões dentro de 10 ou 20 anos. Tenta imaginar que estás em 1984 e alguém te diz que no futuro haverá jogadores de €90 milhões, quando o melhor do mundo de então [Maradona], custou €9,5 milhões. Acreditarias?