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A história desconhecida da ida de Jesus para Alvalade

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Nunca um treinador fez o que J.J fez: Trocar o Benfica pelo Sporting (ou vice-versa) em épocas consecutivas

Jantares com Jorge Mendes, conversas com Bruno de Carvalho até às 4h30 da manhã, SMS e viagens a Paris nunca feitas: do primeiro “contacto de malucos” ao “estes gajos não me querem lá”, a história desconhecida da “bicada do século” do Sporting ao Benfica

Anatomia do ‘golpe’, passo a passo

Jorge Jesus atendeu o telefone, e do outro lado da linha estava o senhor X, que ele conhecia de outras andanças, de outros negócios. “Está tudo bem contigo e com a tua família?”, perguntou o senhor X, mas o que lhe interessava saber era como estavam as coisas entre ele e o Benfica. O senhor X abriu o jogo, disse-lhe que estava a telefonar mandatado pelo Sporting e por Bruno de Carvalho (BdC), que o queria a ele e não queria Marco Silva. “É tudo muito bonito”, respondeu-lhe Jesus, mas o senhor X e BdC só podiam estar malucos — onde é que já se tinha visto aquilo, o Sporting com dinheiro para pagar o que pagava o Benfica, se o que se contava era que não tinha um euro para mandar cantar um cego?... O senhor X descansou-o.

“O dinheiro é com o Sporting”, disse ele, pedindo-lhe que avançasse um número, não aquele que achava poder receber em Alvalade, mas o que realmente queria. “Cinco milhões.” O senhor X anotou e prometeu ligar-lhe dentro de dias com novidades. Despediram-se. Uma semana depois, o senhor X voltou a ligar, e Jesus ouviu o que queria. “Cinco milhões de euros. Se quiseres, são teus.” Jesus não quis, ficou de pensar no assunto, ainda tinha tempo. Aqueles eram os primeiros dias de maio, e nem ele nem Luís Filipe Vieira tinham falado da renovação; e havia um campeonato e uma Taça da Liga para ganhar. Além disso, sobretudo por isso, Jorge Mendes ficara de arranjar-lhe um clube grande dos grandes campeonatos.

Do lado do treinador, o assunto ficou em banho-maria, mas em Alvalade começou a cozinhar-se um futuro com Jesus, e as informações não demoraram muito a transpirar do edifício da SAD. No dia 18 de maio, uma segunda-feira, num almoço informal de Bruno de Carvalho com três jornalistas, o tema Jesus caiu no prato. “Isso é impossível”, desmentiu BdC. Tudo treta, conversa do Jesus para o Benfica subir a parada. Na quarta-feira, 20 de maio, “A Bola” fez manchete: “Sporting quer Jesus” — e BdC voltou a desmentir. “Se ele vier”, ironizou na Euronext Lisbon, “o Cristiano Ronaldo e o Messi também são bem-vindos, de caretas.”

BdC tinha de manter cara de póquer enquanto esperava que Jesus resolvesse a sua vida; e a vida de Jesus estava nas mãos do deus dos agentes. No dia 26 de maio, terça-feira, o treinador e Jorge Mendes jantaram no Hotel Tivoli, e o segundo mostrou ao primeiro a carteira de clientes. Pediu-lhe compreensão. “É o que há”, confessou Mendes. O que havia era poucochinho: o Real Madrid preferia um espanhol a um estrangeiro; a reunião com Laporta não dera em nada; e Bartomeu continuaria presidente do Barcelona e Luis Enrique treinador do Barcelona. E, continuou Mendes, já que nem os oito milhões dos chineses nem a Lazio lhe serviam, o Qatar era uma alternativa simpática, uma espécie de aninho sabático e bem pago (seis milhões de euros), enquanto Laurent Blanc não caísse da cadeira no PSG. Jesus disse a Mendes que não queria nada daquilo, e Mendes disse a Vieira que Jesus não iria a lado nenhum. O presidente do Benfica iria tentar convencer Jesus uma última vez.

“Estes gajos não me querem lá”

A 29 de maio, sexta-feira, o Benfica venceu a Taça da Liga (2-1 ao Marítimo), e Jorge Jesus marcou um treino para o fim de semana, porque a época só acabava no domingo. Depois do jogo, no autocarro, Luisão disse a Jesus que nem pensar, que era tempo de férias e que havia malta com bilhetes na mão para o Brasil. O treinador cedeu. Mas Jesus ainda não estava de férias. Na segunda-feira, 1 de junho, encontrou-se com Vieira na Luz e falaram sobre o que queriam fazer do Benfica. Avisado por Mendes e com as capas dos jornais na cabeça, Vieira garantiu a Jesus o mesmo ordenado, sob algumas condições — a tal fórmula 20 + 5, um plantel com 20 jogadores à escolha do treinador e cinco miúdos da formação. Em 30 minutos, Jesus ficou a saber ao que ia; nos restantes 90, ficou a perceber ao que Vieira ia. “Vê lá a tua vida, tens família, casa, não estás para novo, o Mendes consegue arranjar-te um clube onde ganhes bem.” E falou-lhe do avião que estaria pronto, assim que Mendes viajasse nele do Porto para Lisboa, e que os levaria para Paris.

Jesus sentiu-se a mais e ligou a um amigo: “Estes gajos não me querem lá.” No dia seguinte, ele, o advogado e o amigo encontraram-se às 8h30 na sua segunda casa na Aroeira, construída com 800 mil euros avançados pelo Benfica. Jesus não tinha pregado olho, dizia que não sabia o que faria da vida e pôs-se a divagar sobre o Benfica, com quem tinha contrato, sobre o FC Porto, que o abordara há meses, e sobre o Sporting, que lhe prometera cinco milhões de euros.

O pensamento foi interrompido por um telefonema. “Já tens as malas prontas?” Às 8h50, Vieira pressionou-o para ambos irem com Mendes a Paris, mas Jesus negou-lhe o capricho, porque não iria para uma mostra pela mão de ninguém. Discutiram durante cinco minutos, e a chamada terminou com um “volto a ligar-te” do lado de lá.

Foi então que Jesus pôs em marcha o plano: telefonou ao senhor X, que ligou a Bruno de Carvalho, e este pediu ao senhor X que dissesse a Jesus para estar na casa do administrador Rui Caeiro, na morada tal, às nove da noite. Jesus jantou com BdC e com Rui Caeiro e, em 10 minutos, acordaram os valores; o resto foi conversa de bola até às quatro e meia da manhã. O dia seguinte, 3 de junho, quarta-feira, seria longo e começou pelas 8h30, quando Jesus deu a palavra a BdC de que seria o seu novo treinador. Seguiram-se duas reuniões: uma, às 15h30, em Alvalade, entre BdC, dois administradores leoninos, o senhor X e o advogado de J.J.; e outra, às 18h, num escritório de advocacia, com J.J. num dos pisos, os administradores do Sporting noutro, BdC em Alvalade e os advogados a fazerem ‘piscinas’ entre andares. Às tantas, o Sporting fez uma exigência: a cláusula de rescisão. Jesus não gostou: só por uma vez tivera cláusula, com o Benfica, e se o Sporting não retirasse a alínea ele lavaria as mãozinhas da coisa e ficaria na Luz, de onde lhe telefonavam há horas sem que ele atendesse. Vieira, Paulo Gonçalves (responsável jurídico das águias) e Rui Costa; e um deles deixou a mensagem: “Cinco, seis milhões de euros.” Era tarde. BdC cedeu a Jesus e fez-se um memorando de entendimento. Às 21h, a notícia rebentou: J.J. no Sporting. [Fontes próximas do Benfica negam a oferta de última hora e garantem que as únicas mensagens trocadas entre Jesus e Vieira aconteceram às duas da manhã: J.J. disse ao presidente que tudo o que vinha nos jornais era verdade; Vieira disse a J.J. que a lealdade não se compra por tuta e meia.]

A assinatura do contrato foi adiada de quinta-feira, dia em que Jesus foi barrado no Seixal, para sexta, porque o Sporting queria resolver-se com Marco Silva; e J.J. atrasou as suas férias dois dias (partiu num cruzeiro no sábado, 6 de junho). Ainda houve um contratempo: uma das vias do contrato estava mal reconhecida, e o problema só ficou resolvido às 22h, com uma esferográfica a pôr o preto no branco no meio da rua. Estava feito. J.J. lá foi para as Américas, por entre flashes e perguntas sem resposta no aeroporto de Lisboa; a 9 de junho, terça-feira, BdC referiu-se a este ‘golpe’ como “a bicada do século”, num encontro com jornalistas. A guerra entre Benfica e Jesus começava aqui — os da Luz não lhe pagariam o salário de junho e lançariam uma intenção de processo por quebra unilateral do contrato. Para o Benfica, J.J. trabalhou em Alvalade quando ainda era seu assalariado.

“Fui escorraçado do Seixal”

Há dois indícios públicos de que Jesus tenha pulado a cerca antes de tempo: primeiro, Danilo, que o Sporting quis mas acabou no Dragão, disse que andava a falar com Jesus por telefone, a 13 de junho, um sábado; depois, o próprio Jesus foi apanhado pelos jornalistas na quarta-feira, 17, em Alcochete, naquela que apelidou de visita de reconhecimento. [Entre Danilo e Alcochete, Rui Vitória foi apresentado no Benfica a 15 de junho.]

Foi um erro tático de J.J., e um amigo disse-lhe que tinha dado muito nas vistas e que não devia admirar-se se o Benfica não lhe pagasse o salário de junho. “Mas então porquê?”, perguntou J.J. “Espera e verás.” Não foi preciso esperar muito. Domingos Soares de Oliveira, CEO do Benfica, enviou uma carta a 23 de junho a pedir a comparência de Jesus na Luz no dia 26, por questões de “extrema gravidade”, mas a missiva só chegou ao treinador a 29 porque fora enviada para a antiga morada — a primeira casa na Aroeira. Foi Ivone, a mulher de J.J., que deu com ela. [“Não é a morada errada, mas a que consta nos Recursos Humanos. Quem tinha de mudar o endereço era o visado”, refuta alguém próximo da Luz.] Jesus responde a 29, escrevendo que fora “escorraçado do Seixal” e que por isso não tinha nada que comparecer no estádio. O Benfica recebe o texto de J.J. a 30, o último dia do contrato que ligava as partes.

“É um descanso”

A 5 de julho, o dinheiro não caiu na conta de Jesus, que esperou um pouco mais, porque era domingo e podia ter havido um atraso no sistema. A 8 de julho, quarta-feira, J.J. telefonou a Vieira, que lhe disse que o Benfica não era com ele, que não tinha nada a ver com aquilo, que era coisa de Soares de Oliveira. O impasse prolongou-se até meados do mês, até que Vieira deu autorização para que as partes começassem a falar. Os dois advogados, do Benfica e do treinador, puseram-se em contacto e alinhavaram uma data para uma reunião: 3 de agosto, segunda-feira, um dia depois do casamento de Jorge Mendes, onde Jesus e Vieira conversaram sobre o tema. Mas o encontro é adiado para 10 de agosto, logo após a Supertaça, que o Sporting ganhou por 1-0; a 13 de agosto, o “CM” fez manchete com as mensagens de Jesus aos jogadores do Benfica enviadas antes da Supertaça; e a 14 de agosto, às 17h11, a entourage de Jesus recebeu a informação de que o Benfica iria acionar judicialmente o treinador por quebra de contrato. Ninguém avisou J.J. das intenções dos encarnados, porque o Tondela-Sporting se jogava nessa noite, mas convenceram-no a falar das SMS com Talisca após o encontro... se o ganhasse. “Assim, vais de peito cheio.” O Sporting venceu em Aveiro, por 2-1, e Jesus desafiou o Benfica a mostrar as SMS na conferência de imprensa. J.J. tem a certeza de que nenhuma mensagem trocada com os futebolistas encarnados o compromete — teve uma “conversa de chacha” com Talisca quando Bruno Paulista lhe perguntou pelo antigo colega do Bahia; falou com Salvio porque quis saber como é que ele andava de saúde; e recebeu algumas SMS que lhe massajaram o ego, como esta: “Desde que se foi embora, isto é um descanso, mister.”


A história ganhou vida: no domingo, 16 de agosto, o comentador Rui Santos revelou na SIC Notícias que Jesus não recebeu o ordenado de junho; e, na segunda-feira, o Expresso escreveu que o Benfica queria processar Jesus em 7,5 milhões de euros, o valor da cláusula de rescisão. Agora, não há volta a dar, chegou-se a um divórcio litigioso e só há duas vias a seguir: tribunal de trabalho ou arbitral. A primeira hipótese, mais demorada, será a mais real. Porque o Benfica e Jesus vão marcar-se um ao outro esta época. Como um gato e o rato, que lhe fugiu.