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O pecado original de Eva

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Mourinho não queria que Eva entrasse dentro do campo; ela virou-lhe as costas

Eddie Keogh / Reuters

Quem é a médica que Mourinho afastou do Chelsea por não “entender o jogo”

Conhecemos Eva Carneiro do tempo em que André Villas-Boas chegou ao Chelsea. Foi ele que a pôs a seu lado, no banco de suplentes, uma médica com pinta do sul da Europa para tratar de homenzarrões nascidos um pouco por todo o lado. André saiu, Eva foi ficando e, no entretanto, entraram e saíram Roberto Di Matteo e Rafa Benítez; e Eva continuou por lá quando José Mourinho regressou a casa.

Resistiu ao tempo e às bocas de alguns adeptos e viu a Premier League e o Chelsea emitirem comunicados em sua defesa. Mas foi atacada por quem menos se esperava: Mourinho.

Este é o contexto:

O Chelsea empatou com o Swansea na primeira jornada (2-2) e Mourinho pôs as culpas no corpo clínico, que entrou no relvado para assistir Eden Hazard. O jogo estava a caminhar para o fim, o Chelsea jogava com dez (Courtois fora expulso) e a saída de Hazard deixou os londrinos com oito futebolistas de campo e Mourinho com um ataque de nervos - e de mau perder.

“Todos [os que trabalham com ele] têm de entender o jogo”, disse Mourinho. “Hazard não precisava de ser assistido, estava apenas cansado”.

Os ingleses apoiaram Eva e esta retribuiu-lhes nas redes sociais; e a retribuição de Mourinho foi um veto: a partir de agora, Eva não pode estar nos treinos nem nos jogos, nem sequer entrar no hotel durante os estágios. (O fisioterapeuta, John Fearn, passou pelos intervalos da chuva da fúria do português.)

Acontece que a razão está do lado de Eva e não do de Mourinho, porque há imagens que mostram o árbitro Michael Oliver a pedir a entrada dos médicos do Chelsea em duas ocasiões. Seguindo as regras da bola, quando o árbitro manda, o mandado obedece, à primeira e à segunda. E, segundo o General Medical Council, a Ordem dos britânicos, o médico “tem de agir rapidamente se julgar que o conforto, a segurança ou a dignidade do paciente está a ser comprometida”.

O raciocínio é simples e binário: Eva é médica, Mourinho não é. Sim e não.

Escreveu o mítico e influente Gary Lineker no Twitter: “Talvez me candidate para médico do Chelsea, visto que o candidato tem de perceber futebol. Não tenho a certeza se exigem conhecimentos médicos”.

Os médicos das equipas da Premier League reagiram em bloco, em comunicado: “Estamos preocupados que [Mourinho] acredite que o resultado é mais importante do que a saúde dos atletas”.

FUTEBOL, SAMBA E SEXISMO

Reuters Staff / Reuters

Eva Carneiro nunca foi de estar parada. Praticou equitação e dançou ballet, dois desportos que a anulavam porque um a deixava tensa para o segundo e o segundo demasiado flexível para o primeiro. E ambos lhe davam dores, que ela aligeirava com repouso, até que se perguntou se não podia fazer mais por ela do que o que andava a fazer.

Eva decidiu então que queria ser médica e de Gibraltar, onde nasceu, filha de pai espanhol e mãe britânica, seguiu para Notthingham, para estudar Medicina; e de Notthingham voou para a Austrália, e especializou-se em medicina desportiva.

O futebol chegou em 1998, quando viajou pelo México e viu o México-Brasil do Mundial de França no meio de brasileiros, numa tasca mexicana. Eva só queria aprender a ginga do samba mas acabou por ter uma epifania - o futuro dela passava pelo desporto-rei, o mundinho dos homens.

Mais tarde, numa outra viagem pelo Brasil, teve uma segunda epifania - no futuro, teria de lutar mais, porque este era um mundo de homens.

Está tudo numa entrevista à revista “Gibraltar”: “Ia num avião quando uma mulher entrou em trabalho de parto. Parecia que estava dentro de um filme, porque as hospedeiras perguntaram se havia algum médico a bordo. O meu português era péssimo e felizmente estava um médico lá. Fizemos os dois o parto.”

Nos jornais, escreveu-se que um médico e uma enfermeira tinham ajudado uma mulher a dar à luz num voo pelo Amazonas. “Detestei aquele estereótipo feminino”.

A partir daí, começou uma luta contra o sexismo e o preconceito e as ideias erradas que os homens têm sobre ela e sobre as suas pares.

Disse Eva numa palestra na Federação de futebol da Suécia no ano passado: “Em todos os programas televisivos com clínicos, a médica é sempre hipersexualizada. Ela desaparece com o Tom Cruise e é um final feliz. Ou então nem aparece. Ou então é lésbica.”

O pecado original de Eva é ser mulher.