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Uma frase à J. J. de um fã de J. J.: “Os treinadores portugueses são os melhores”

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Pedro Bouças tem 35 anos e treina a equipa feminina do Clube Futebol Benfica há duas épocas

DR

Ele não é Jesus, mas também tem moral para puxar dos galões: é campeão nacional de futebol feminino, tem um dos blogues sobre futebol mais lidos em Portugal e vai disputar a Liga dos Campeões esta semana

O nome Pedro Bouças não desperta, nem de perto nem de longe, a mesma atenção do que o nome Jorge Jesus. Mas ambos têm pontos em comum. Porque tanto um como outro são campeões nacionais. Um de futebol feminino, com o Clube Futebol Benfica (mais conhecido por Fofó), e outro de futebol masculino, com o Sport Lisboa e Benfica (não confundir os dois Benficas, que nada têm a ver).

O Expresso falou com o treinador de 35 anos, que também é o autor do Lateral Esquerdo - um dos blogues sobre futebol (daqueles mesmo só de jogo jogado, como diria o mítico Gabriel Alves) mais lidos em Portugal -, sobre a participação do Fofó na qualificação da Liga dos Campeões feminina, que começa terça-feira. A equipa de Pedro Bouças viaja amanhã para a Croácia, onde vai defrontar as anfitriãs do Osijek, as sérvias do ZFK Spartak e as macedónias do CS Norok, numa fase de grupos preliminar em que apenas o 1º classificado fica qualificado.

Quando é que começaste o Lateral Esquerdo?
Já tem oito anos. Na altura estava a treinar uma equipa universitária e havia uns miúdos que tinham blogues e desafiaram-me para ler. E depois numa tarde sem nada para fazer resolvi criar o meu blogue. Na altura o objetivo era só partilhar as minhas ideias com eles, que eram meus jogadores, mas depois acabou por crescer imenso. Foi uma maneira de partilhar as minhas ideias sobre o jogo, nunca pensei que acabasse por ter a projeção que tem agora.

Muita gente ligada ao futebol lê o blogue.
Sim. Mas os textos que partilho são a minha opinião e numa perspetiva totalmente amadora, não ganho nada com aquilo. É a minha visão, não quer dizer que seja certa ou errada.

Ficaste surpreendido com algum treinador ou jogador a dizer-te "olha, eu leio o teu blogue"?
Fiquei, mas alguns sinceramente não sei se posso dizer quem são, porque não quero que fiquem chateados comigo. Sei que o Vítor Pereira conhece, o Paulo Fonseca também, o Paulo Sousa... Depois jogadores são muitos: malta que joga no Gil Vicente, no Belenenses, nem sei por onde começar. O William Carvalho sei que lê, por exemplo.

Achas que as ideias que partilhas no blogue influenciaram de algum modo os treinadores ou os jogadores?
Não sei, mas posso dizer que houve malta de equipas profissionais que, talvez por perceber a projeção que o blogue começou a ter, me começaram a mandar vídeos de jogadas para analisar e promover a equipa e ganhar reconhecimento.

Há algum treinador que consideres que tenha qualidade e que tenha pouco reconhecimento?
O Fernando Valente, por exemplo. Não é que seja um desconhecido, porque esteve na II Liga no ano passado, mas acho que lhe falta reconhecimento, porque tem boas ideias e trabalha muito bem.

Em Portugal sabe-se muito ou pouco de futebol?
Sabe-se muito. Acho que os treinadores portugueses são os melhores da Europa, trabalham muito bem. Mas também há muita gente que acha que sabe e não sabe.

E comentadores e adeptos? Achas que o blogue tem um lado didático para eles?
Tem, de certeza. Porque nós recebemos imensos mails a dizer exatamente isso. Acho que a forma como se fala de futebol hoje em dia é totalmente diferente da forma como se falava há oito anos, quando o blogue começou. Hoje toda a gente já fala de coisas que nós no blogue já falamos há oito anos, como a tomada de decisão, a importância dos posicionamentos táticos, o jogo coletivo... Ou seja, aqui e ali notas em alguns comentadores... Sinto que foram influenciados pelas coisas que escrevemos no blogue. Não posso dizer que é um facto, mas acho que são influenciados por coisas que lêem no blogue. A verdade é que quando começámos com o blogue éramos os únicos maluquinhos a falar em tomada de decisão e equipas a moverem-se em conjunto dentro do campo, mas neste momento qualquer comentador quando fala já tem atenção a essas coisas.

E porquê o nome Lateral Esquerdo?
Isso é uma coisa que vem dos tempos da faculdade. Na altura passa muito tempo com outros três amigos e quando eram as aulas de futebol tínhamos a mania de brincar que o mais tosco era o que ia para lateral esquerdo, porque ninguém o queria (risos).

Um dos treinadores cujas ideias elogias mais no blogue é o Jorge Jesus.
É verdade.

Isso quer dizer que o Sporting esta época pode ser favorito?
Não, porque o Jesus não tem os mesmos jogadores que tinha no Benfica. Mas quer dizer que o Sporting é mais favorito do que aquilo que foi nos últimos dez anos. E tem mais probabilidades de vencer agora do que nos últimos dez anos, com os outros treinadores todos. E o Benfica, pelo contrário, tem menos probabilidades de vencer agora.

E porque é que achas que Jesus se diferencia assim tanto dos outros?
Porque trabalha a parte tática de uma forma excelente, de topo. Olhas para as equipas dele no campo e consegues perceber uma identidade muito forte, ainda por cima é uma identidade que está altamente preparada para o campeonato português, porque os adversários não têm tanta qualidade e consegues defender com poucos. Ou seja, não só as ideias são boas como encaixam perfeitamente na realidade que temos em Portugal. Com pouco tempo vês logo os jogadores a fazer coisas que são caraterísticas das equipas dele. Então isso quer dizer que tem de ter qualidade a operacionalizar o que quer.

Imagino que gostavas que ele lesse o Lateral Esquerdo.
Gostava, claro (risos). Tive oportunidade de falar com uma afilhada dele e perguntei-lhe logo se ele lia, uma vez que tanta gente no futebol lê, e ela disse que não sabia mas duvidava muito que ele andasse a ler coisas na internet (risos).

E tu, como treinador, tens parecenças com Jesus?
É assim, nós tentamos incutir algumas das ideias que ele também tem, sobretudo a defender. De resto, não temos os mesmos jogadores à disposição por isso é difícil fazer o mesmo. Mas o trabalho sem bola, ainda que partindo de um sistema tático diferente no Fofó, é parecido.

Como é que foste parar ao futebol feminino?
Começou tudo com o professor Nuno Cristovão, há quatro anos, quando surgiu a oportunidade de ser adjunto dele no 1º Dezembro, que na altura era campeão nacional. Foi um ano que gostei bastante, não só da realidade do treino mas do facto de estar a treinar adultos, quer dizer, adultas. Depois o professor Nuno saiu da equipa e também saí, mas apresentei um projeto ao Fofó e o Domingos (Estanislau, o presidente) gostou bastante e mudei-me para o Fofó.

Na altura alguém achou estranho treinares mulheres?
Não. Posso dizer que nunca senti esse preconceito de treinar miúdas. Aliás, agora o futebol feminino está a ganhar uma visibilidade tal que não só ninguém goza com isso como aparece montes de malta a perguntar se pode fazer parte da nossa equipa técnica. Claro que o reconhecimento não é ao nível do futebol masculino mas parece-me que já se começa a achar o futebol feminino muito atrativo.

Que expetativas tens para a Liga dos Campeões?
Bem, nós não temos o conhecimento sobre os adversários que gostaríamos de ter. Infelizmente no futebol feminino ainda há alguma dificuldade em chegar tão rápido à informação quanto no masculino. O que sabemos é que serão três equipas mais fortes a lutar pelo 1º lugar. Pelo historial das qualificações anteriores, achamos que haverá as mesmas possibilidades para qualquer um de nós. Trabalhámos bem e vamos com a expetativa de conseguir o apuramento, mas sabendo que não será uma tragédia se isso não acontecer.

Continuarás pelo futebol feminino ou gostavas de experimentar os seniores masculinos?
O que posso dizer é que não sei o que me reserva o futuro. Neste momento estou contente no Fofó, mas não sei o que pode aparecer.

Dá para viveres só do futebol feminino?
Não, nem pensar. Para além disso sou coordenador do futebol jovem do Fofó e sou professor no Estádio Universitário e numa escola. Claro que gostava de ser profissional de futebol mas só se isso significasse realmente um vencimento à altura, porque se não não vale a pena. Já podia ser profissional de futebol, se quissesse, porque já tive convites para isso, só que envolviam ir ganhar menos do que aquilo que ganho atualmente.