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A Liga é uma caderneta de cromos

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O golpe dos golpes: Bruno 
de Carvalho foi à Luz e trouxe Jorge Jesus, debaixo do nariz 
de Luís Filipe Vieira. Com J.J., 
o Sporting espera levar mais gente ao estádio e ganhar dinheiro na Champions

JOSÉ SENA GOULÃO/ EPA

Mercado De repente, Portugal acordou para uma realidade inesperada, onde cabem nomes como Casillas, Pablo Osvaldo e Bryan Ruiz

Um dia olharemos para trás e pensaremos: como é que isto aconteceu? Como é que um campeonato como este, que é pequeno como o país em que se joga, foi buscar um dos melhores guarda-redes de sempre ao maior clube do Mundo? Como é que outro clube, que é o grandão entre os grandes deste pedacinho, perdeu o treinador que lhe deu o bicampeonato para o rival empobrecido do quarteirão ao lado, e deixou que lhe levassem um dos capitães para o inimigo do norte? Como é que aquele clube, que o presidente disse ter salvado do abismo há dois anos, arrebanhou o segundo melhor treinador português e dois internacionais sul-americanos batidos? E já que estamos nisto, como é que um francês aterra neste lugar em crise e por €20 milhões?

É que esta é uma liga periférica longe do centro do universo; e esta é uma terra pouco fértil e o dinheiro não cresce nas árvores. A raiz deste frenesim é um auto de fé: num técnico (Jesus), numa estrutura (Benfica) e de um presidente (Pinto da Costa).

Três Ligas dos Campeões, 
um Mundial, dois Europeus, 
6 milhões de euros brutos 
por ano pagos pelo FCP. 
É a contratação mais mediática da história do futebol português. O espanhol é um chamariz e traz com ele patrocinadores e uma ideia: 
se a Liga portuguesa é boa 
o suficiente para um tipo que já tudo ganhou, também é boa para quase toda a gente

Três Ligas dos Campeões, 
um Mundial, dois Europeus, 
6 milhões de euros brutos 
por ano pagos pelo FCP. 
É a contratação mais mediática da história do futebol português. O espanhol é um chamariz e traz com ele patrocinadores e uma ideia: 
se a Liga portuguesa é boa 
o suficiente para um tipo que já tudo ganhou, também é boa para quase toda a gente

Emilio Naranjo/ EPA

O efeito Casillas

O Benfica estava descansadinho da vida neste verão, pronto para fazer o seu reboot, a sua limpeza espiritual depois de anos de capitalismo: diria um adeus a Jorge Jesus, que partiria para o estrangeiro, e um olá aos jovens da formação, de quem Jesus não tirava partido. Correu mal. Bruno de Carvalho levou o treinador para o Sporting e deu um bigode a Luís Filipe Vieira no golpe de todos os golpes que todos achavam, à partida, impensável e, por fim, irrepetível. Mas a história é feita de repetições que nos deixam a pensar que nada é impossível.

O FC Porto quase igualou o impacto de Jesus quando foi a Marselha e de lá trouxe Imbula por €20 milhões, que se tornou a contratação mais cara do nosso futebol; e, 11 dias depois, rebentou a escala mediática ao apresentar Iker Casillas, que tem 21 títulos, entre os quais três Ligas dos Campeões, um Mundial, dois Europeus e cinco ligas espanholas. Pinto da Costa não quer perder outra vez para os rivais e está disposto a mudar a forma como o clube encara a vida para lá chegar. No caso do francês, escreveu-se que a Doyen terá financiado a operação (foi o próprio pai do jogador a admiti-lo), beneficiando das boas relações que o fundo tem com Alexandre Pinto da Costa, filho de Jorge Nuno.

Imbula. A contratação mais cara de sempre do futebol nacional (20 milhões de euros) terá o dedo do fundo de investimento Doyen, que tem boas relações com Alexandre Pinto da Costa, filho de Jorge Nuno Pinto da Costa

Imbula. A contratação mais cara de sempre do futebol nacional (20 milhões de euros) terá o dedo do fundo de investimento Doyen, que tem boas relações com Alexandre Pinto da Costa, filho de Jorge Nuno Pinto da Costa

ESTELA SILVA/ Lusa

Segundo o Expresso apurou, a Doyen não é o único fundo a trabalhar como uma espécie de banco (os passes dos futebolistas deixaram de poder ser comparticipados) no FC Porto.

No caso do guardião espanhol, o clube montou um cerco a meias, entre Julen Lopetegui, que conhece Casillas porque foi guarda-redes do Barcelona e do Real, e Antero Henrique, o CEO. Os dois falaram-lhe bem da cidade, da calmaria da cidade e da proximidade da cidade com Madrid. E juntaram-lhe a presença na Champions, a titularidade e um punhado de espanhóis no balneário. O ordenado (€10 milhões brutos/ano) é pago por portistas (€6 milhões) e madridistas (€4 milhões) e ele está por inteiro ao serviço de Julen. O FCP comprou jogador de campo que é um player fora dele — espera-se exposição mediática, venda de camisolas (as primeiras já esgotaram) e sponsors.

Em janeiro, já o agente Paco Casal ‘namorava’ o FC Porto, porque percebeu que o Benfica não chegaria aos valores que o uruguaio queria. Maxi era um dos capitães dos encarnados

Em janeiro, já o agente Paco Casal ‘namorava’ o FC Porto, porque percebeu que o Benfica não chegaria aos valores que o uruguaio queria. Maxi era um dos capitães dos encarnados

Rafael Marchante / Reuters

Mas há outros improváveis no Dragão, como Maxi Pereira, que o agente Paco Casal começou a ‘vender’ ao FC Porto em janeiro, quando percebeu que o Benfica não poria na mesa o ordenado que o uruguaio queria para renovar o contrato que se acabava. Casal já fizera coisa parecida com Christian Rodríguez — na bola, a lealdade tem um preço que se paga. E para não ter de pagar tanto a Pablo Osvaldo, uma estrela bad boy que já foi da Juventus e da Roma e estava em regime livre, sucedeu o seguinte: Osvaldo inscreveu parte dos seus direitos económicos num clube proveta (ou ponte) chamado Sud América, no Uruguai, um pequeno paraíso fiscal, e os seus direitos desportivos viajaram para Portugal. Com menos impostos sobre o salário, Osvaldo disse que sim ao Dragão — a isto chama-se triangulação e é um esquema questionável mas legal na América do Sul.

É o capitão da Costa Rica, 
que marcou dois golos 
no Mundial de 2014. Chega 
a Alvalade, vindo do Fulham, 
a troco de um milhão de euros

É o capitão da Costa Rica, 
que marcou dois golos 
no Mundial de 2014. Chega 
a Alvalade, vindo do Fulham, 
a troco de um milhão de euros

Andres Stapff/Reuters

O efeito Jesus

O esquema no Sporting é uma convicção religiosa: Jorge Jesus. O clube paga-lhe €6 milhões brutos por ano se este cumprir todos os objetivos: um ‘xis’ pelo título de campeão, outro pela carreira na Champions e mais variáveis diretamente relacionadas com o desempenho da equipa. E, para isso, deu-lhe carta branca: Jesus quis e o Sporting deu-lhe Bryan Ruiz (€1 milhão pago ao Fulham), capitão da Costa Rica que no Mundial 2014 chegou aos ‘quartos’, e Téo Gutiérrez (€3,4 milhões ao River Plate), internacional colombiano que esteve igualmente no Brasil-2014. Um tem 29 anos, o outro 30. E a estes dois soma-se Alberto Aquilani, um trinco nascido em Roma e na AS Roma e que passou por Liverpool, Juventus e Milan até a Fiorentina o deixar cair de maduro. O italiano chegou a custo zero, calçou umas luvas e recebeu um bom ordenado (€2 milhões/ano, segundo a “Gazzetta dello Sport”), na lógica económica que nos diz que não há almoços grátis em lugar algum. O Sporting não comprou caro, é verdade, mas a sua massa salarial subirá, mesmo quando Capel (€1,2 milhões/ano) e Labyad (€2 milhões/ano) deixarem Alvalade.

Ora, e como se gere isto? O Sporting conta com a entrada na Champions (€12 milhões) e o efeito Jesus: futebol de ataque significa gente no estádio, futebolistas valorizados e vendas chorudas. Basicamente, é replicar o modelo do Benfica e, mesmo se as previsões de encaixe falharem, BdC tem William prontinho para sair em janeiro para equilibrar contas. É um risco, que o Sporting diz ser calculado.

O treinador que Vieira escolheu para substituir Jesus chegou como homem da formação — mas o presidente já lhe prometeu craques

O treinador que Vieira escolheu para substituir Jesus chegou como homem da formação — mas o presidente já lhe prometeu craques

RUI MINDERICO/ Lusa

Nada feito, formação

De calculadora na mão, Luís Filipe Vieira quis que o Benfica do futuro fosse feito no Seixal. Foi buscar Rui Vitória, que foi apresentado como o tipo certo: o homem que ia transformar miúdos em graúdos. A saída de Jesus para o Sporting trocou-lhes as voltas e Vieira teve de prometer a Vitória “os mesmos meios” que dera a Jesus. Por outras palavras, a formação continuará a formar-se na B ou em jogos de Taça da Liga, enquanto a equipa A será feita de rapagões feitos, como Mitroglou, o grego que chegou do Fulham por empréstimo de um ano. Mais virão: Jiménez (Atlético de Madrid), Chicharito (Manchester United), Fábio Coentrão (Real Madrid) ou Markovic (Liverpool) estão a ser namorados por Vieira, com Jorge Mendes a fazer as apresentações.

A ideia é aproveitar o que sobra dos plantéis dos grandes da Europa para encher as medidas a um clube à procura de insuflar a moral após uma pré-época desastrosa que esvaziou expectativas. Se um ou outro nome forem confirmados, o Benfica terá cromos para a troca com os rivais e o campeonato (ver P&R) será uma caderneta de cromos exclusivos.