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Atletismo. Investigação revela que 146 atletas medalhados são suspeitos de doping

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Michael Steele/Getty Images

Um terço dos atletas medalhados em provas de atletismo é suspeito de ter estado sob efeito de doping, segundo os resultados das análises de sangue feitas a milhares de atletas, que vieram a público este domingo. A Rússia é o país que tem mais atletas na lista

A história caiu que nem uma bomba. Um terço dos medalhados nos Jogos Olímpicos e nos Campeonatos do Mundo nas provas de atletismo de longa duração, entre 2001 e 2012, são suspeitos de recorrerem ao doping. Uma análise divulgada este domingo coloca em causa a eficácia da Agência Mundial de Antidopagem (AMA) e denuncia o uso de sustâncias para melhorar a performance no atletismo.

O jornal britânico “The Sunday Times” e o canal de televisão alemão ARD/WDR tiveram acesso a uma base de dados com os valores das análises sanguíneas dos atletas que competiram, entre 2001 e 2012, nos Jogos Olímpicos e Campeonatos Mundiais de Atletismo. Os dados são da Federação Internacional de Atletismo (IAAF), obtidos pelos jornalistas por uma fonte que se disse incomodada pela “extensão do doping”.

O documento foi depois entregue a dois especialistas e a conclusão foi a mesma: um terço dos medalhados nestas provas tinham registado resultados de testes ao sangue tidos como “suspeitos”.

A base de dados em causa é composta por 12 mil análises sanguíneas, que pertencem a mais de cinco mil atletas e que remontam ao período entre 2001 e 2012. Os resultados mostram que mais de 800 atletas registaram um ou mais resultados “anormais”. Destes 800, 146 são atletas que receberam medalhas, entre as quais estão 55 de ouro.

Relativamente aos países, a Rússia surge no topo, com 415 testes a revelarem-se “anormais”. “Oitenta por cento dos medalhados russos registaram resultados suspeitos em pelo menos um momento da sua carreira”, escreve o “The Sunday Times”. Seguem-se, ainda que a longa distância da Rússia, a Ucrânia, Marrocos, Espanha, Quénia e Turquia.

“Números assustadores”

“Nunca vi valores sanguíneos tão assustadoramente anormais”, diz Robin Parisotto, especialista em doping, citado pelo “The Sunday Times”. Mas o que são os “valores anormais”? São resultados em que existe alguma probabilidade, por mínima que seja, de ter havido influência de determinada substância.

As acusações dizem respeito a técnicas usadas para melhorar a capacidade do sangue transportar oxigénio para as células, o que pode dar vantagem a um atleta, principalmente em provas de grande duração.

Se por um lado foram levantadas suspeitas, por outro a investigação também serviu para dissipar algumas dúvidas. Nomes como os de Mo Farah, Usain Bolt e Jessica Ennis-Hill estão completamente limpos. Não há sinal de uso de doping.

“Tantos atletas que aparentemente recorreram a doping sem serem punidos, e é condenável que a IAAF pareça ter-se sentado de braços cruzados e deixado que isto acontecesse”, lamenta Robin Parisotto.

Alegações “muito perturbadoras”

A Federação Internacional de Atletismo, que era quem detinha estas 12 mil amostras, fez saber através de comunicado, este domingo, que “está ciente das sérias alegações que foram feitas contra a integridade e competência do programa anti doping”. No entanto, sublinha que as "acusações baseiam-se numa análise à base de dados da IAAF que é privada e confidencial, cujo acesso foi obtido sem consentimento".

Já no sábado, após a transmissão de parte do documentário na televisão alemã, o vice presidente da IAAF afirmou que “haverá tolerância zero”. “A IAAF é um líder muito forte no combate ao doping. Não vamos parar de lutar. Se for necessário mudar regras e regulamentos, então é isso que faremos”, disse Sergey Bubka, citado pela agência Reuters.

Com a investigação do “The Sunday Times” e do ARD/WDR, também é colocada em causa a eficácia do trabalho da Agência Mundial de Antidopagem (AMA). Craig Reedie, presidente da AMA, considerou que as acusações são “muito perturbadoras” e que o assunto vai ser tratado o mais rapidamente possível.

A polémica está a atingir proporções gigantes e as agências noticiosas já comparam o caso com o escândalo de doping no ciclismo. Segundos os especialistas que analisaram as 12 mil amostras sanguíneas, estes são números de uma tal dimensão que se assemelham ao estado a que o ciclismo chegou na altura em que foram retiradas as sete vitórias de Lance Armstrong na Volta a França.