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“Esgoto puro”: a análise às águas da baía onde os velejadores vão disputar as medalhas olímpicas

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A qualidade (ou falta dela) das águas onde se vão realizar as provas de vela dos jogos olímpicos tem sido assunto de debate

ALEX FERRO/REUTERS

As águas da baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, onde vão decorrer as provas olímpicas de vela, estão contaminadas de tal forma por fezes humanas que colocam em risco a saúde dos atletas, conclui uma análise independente

A qualidade da água da baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, onde vão decorrer as provas de vela constantes do programa dos Jogos Olímpicos de 2016, deixa muito a desejar. Uma análise independente encomendada pela agência noticiosa Associated Press (AP) revela a existência de níveis altíssimos e perigosos de vírus e bactérias. Resultados que são ainda mais preocupantes tendo em conta que vários atletas, que já treinaram nestas águas, apresentaram posteriormente febre, vómitos e diarreia.

Este foi o primeiro teste independente à qualidade das águas dos Jogos Olímpicos, depois de as autoridades brasileiras terem assegurado que estas seriam seguras para os atletas.

Níveis de poluição alarmantes

É quase garantido que a menos que sejam tomadas medidas para diminuir a poluição, os atletas olímpicos entrarão em contacto com vírus causadores de doenças, adianta a AP. Em alguns dos testes feitos, os resultados revelaram níveis até 1,7 milhões de vezes superior ao limite a partir do qual a poluição é considerada alarmante.

A extrema poluição das águas é um problema recorrente no Brasil, onde a maior parte dos esgotos não são tratados e uma grande quantidade de resíduos descem por valas abertas e desaguam em rios e riachos. E o Rio de Janeiro não é exceção neste panorama.

Promessas que não passam disso

Há décadas que as autoridades brasileiras asseguram que as águas vão ser limpas, mas a situação mantém-se. Qualquer passageiro que desembarque no aeroporto internacional António Carlos Jobim, na capital carioca, sente o cheiro vindo de dessas águas.

Devido à poluição extrema, muitas das praias paradisíacas estão desertas, porque a companhia de peixes em decomposição que frequentemente dão à costa não entusiasma quem gosta de ir a banhos, nota a AP.

O biólogo marinho John Griffith, do instituto independente Southern California Coastal Water Reserach Project, considera as águas do Brasil (concretamente as da baía de Guanabara) como “esgoto puro”. Griffith explica que esta situação seria impensável nos EUA, e afirma que o que se vê em águas brasileiras é uma mistura de “águas de lavagem e lixo das retretes”.

A situação não deixa satisfeitos os técnicos de muitos atletas olímpicos de vela, como é o caso de Ivan Bulaja. Este croata afirma que “esta é de longe a água com pior qualidade que já vi em toda a minha carreira”.

Apesar destes níveis de poluição e da insatisfação geral, o gestor de qualidade da água do Instituto Estadual do Ambiente, Leonardo Dasemon, diz que estão a ser seguidos todos os procedimentos e regras de qualidade de água para uso recreativo.

Dos mais de 10 mil atletas que vão competir nos Jogos Olímpicos brasileiros, 1400 irão participar nas provas de vela em águas próximas da Marina da Glória, na baía de Guanabara.