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A festa no Tour está ferida, mas Froome só teme o público

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STEFANO RELLANDINI / Reuters

Suspeita de doping do atual camisola amarela e acusações não provadas criam ambiente complicado para as últimas etapas da Volta à França, que esta quarta-feira chegou aos Alpes. Equipa Sky denuncia agressões e Froome diz ter sido atacado com urina

Os franceses têm um orgulho imenso e justificado na sua Volta a França em bicicleta, que entrou esta quarta-feira na sua fase final, com o início da travessia da cordilheira dos Alpes. A alta montanha proporciona geralmente imagens de combates sublimes, por vezes heroicos, a um tempo entre os homens do colorido pelotão e entre estes e as escarpadas encostas. Mas os franceses, que adoram ciclismo, estão muito desapontados porque o Tour deste ano está a ser de novo muito ensombrado por suspeitas de doping e também porque os ciclistas nacionais têm alcançado resultados frustrantes.

Este ano, o Tour não consegue sair da polémica em torno do doping. A prova decorre num clima particularmente execrável devido a rumores bem mais pesados e comentados publicamente do que os que atingiram diversas edições do passado, também elas muito afetadas pelo mesmo motivo.

As dúvidas adensaram-se desde que o atual camisola amarela, Chris Froome, britânico nascido no Quénia, da equipa Sky, atordoou toda a caravana na ascensão para La-Pierre-Saint-Martin, no feriado de 14 de julho, dia nacional francês. Nessa etapa, Froome arrancou como uma flecha até à meta, deixando todos os rivais mais diretos colados ao alcatrão da estrada, fazendo lembrar performances extraordinárias do passado, idênticas à dele, da parte do americano Lance Armstrong.

Froome tem estado assim: isolado e confortável na liderança

Froome tem estado assim: isolado e confortável na liderança

STEFANO RELLANDINI / Reuters

Armstron chegou a ser qualificado como um herói por ter vencido sete vezes consecutivas a Volta a França. Mas, posteriormente, caiu do pedestal porque, devido a uma investigação oficial americana, ficou provado que desde o verão de 1998 recorrera vezes sem conta a produtos dopantes. Armstrong perdeu por isso todos os títulos conquistados, desde essa data. E acabaria ele próprio por confessar tudo numa entrevista ao talk show de Oprah Winfrey.

A situação de Chris Froome é diferente da de Armstrong porque as suspeitas contra ele começaram neste corrida. Desde a etapa de há oito dias, os comentadores franceses do Tour na televisão deram um eco fora do comum aos rumores e lançaram o opróbrio sobre Froome e a sua equipa, que têm dominado a prova de “forma escandalosa”, acusam esses analistas.

A partir de então, a festa popular nas estradas foi estragada e Froome, dirigentes da Sky e diversos ciclistas colegas do líder dizem ter sido insultados. Alguns, como Richie Porte, garantem mesmo ter sido agredidos com murros nas costas por espectadores; outros dizem ter sido alvejados frequentemente por cuspidelas; e o camisola amarela vai mais longe e afirma que foi visado com o conteúdo de uma taça de urina!

“Os nossos ciclistas partem para as etapas com medo, as acusações contra nós são uma maldade”, exclama Nicolas Portal, um dos diretores da Sky.

Os colegas de Froome queixam-se de ser agredidos pelos espectadores com murros nas costas e o próprio camisola amarela vai mais longe e afirma que já foi visado com urina

Os colegas de Froome queixam-se de ser agredidos pelos espectadores com murros nas costas e o próprio camisola amarela vai mais longe e afirma que já foi visado com urina

KIM LUDBROOK / EPA

“Doping mecânico”

À falta de provas, até agora nenhumas foram fornecidas pelas entidades oficiais e os testes regulares a Froome e aos seus colegas têm aparentemente sido negativos. Alguns chegam mesmo a insinuar que existirá, este ano, “doping mecânico” - isto é, que algumas bicicletas da Sky terão motores elétricos ultrassofisticados e indetetáveis!

Foi neste ambiente confuso e pesado, que gerou mal-estar também entre as equipas do pelotão, que decorreu esta quarta-feira a primeira etapa nos Alpes, que terminou nos cumes de Pra-Loup com a vitória do alemão Simon Geschke. Chris Froome voltou a controlar os principais rivais e o espanhol Alberto Contador perdeu mais tempo em relação ao britânico.

A Volta a França terminará este domingo nos Campos Elísios, em Paris, mas antes os corredores ainda vão ter de disputar mais três etapas de alta montanha, entre elas a de sábado, que culmina na terrível subida para o famoso Alpe d’Huez.

Depois da primeira etapa alpina, o colombiano Alexander Quintana e o espanhol Alejandro Valverde seguem Froome, por esta ordem na classificação geral, mas estão já ambos com mais de três minutos de atraso.

Perante a provável vitória final de Froome, a Sky receia incidentes mais graves do que os já registados até agora. A equipa acusa os comentadores televisivos de “irresponsabilidade” por darem voz a rumores “infundados” e já se diz que devido a toda esta tensão as últimas etapas poderão ter segurança policial reforçada.

O camisola amarela e os seus companheiros da equipa britânica temem reações mais violentas por parte dos espectadores franceses, que frustrados e desiludidos com os maus resultados dos seus compatriotas, e influenciados pelas suspeições de doping, os têm vaiado nos finais das etapas.