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“O feitio estará sempre presente. Mas nunca roubei nem matei ninguém”

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João Lima

Entrevista ao treinador do Belenenses, Ricardo Sá Pinto

Para onde quer que vá — já foi para Espanha e Bélgica, como jogador, e Sérvia e Grécia, como treinador —, será sempre o “Ricardo, coração de leão”. Coração que teve demasiado perto da boca em desentendimentos com Artur Jorge, em 1997, e Liedson, em 2010. Mas, aos 42 anos, essas histórias já lá vão. Porque “o Ricardo treinador é mais ponderado do que o Ricardo jogador”, diz o mister que se vai estrear no Restelo no dia 30, na pré-eliminatória da Liga Europa, contra o vencedor do jogo entre os polacos do Slask Wroclaw e os suecos do Göteborg.

A pré-época está a correr bem?

Graças a Deus, está a correr lindamente. Não é fácil entrar num clube novo e querer transmitir ideias que têm muito a ver comigo e não saber se eles se reconhecem nelas. Procuro não enchê-los de informação, acho que tem de ser uma coisa progressiva, mas o tempo urge. O tempo é muito curto no futebol. Tem de haver aqui algum cuidado nessa gestão do que queremos que comece a aparecer no nosso jogo, apesar disto não ser a PlayStation.

Quando eras jogador já tinhas noção disso?

Não pensava o jogo como penso agora, nem nada que se pareça. Por isso é que sei que tenho de ter cuidado, porque eles também não pensam. Apesar de esta geração já ser diferente da minha — e a minha já foi diferente da anterior. Estas novas gerações nascem já com uma cultura tática e com princípios diferentes.

Perdi a conta às vezes que se falou de ti para o Belenenses.

Também eu [risos].

Este foi o primeiro convite?

Oficialmente, só agora fui convidado. Mas já sentia que um dia iria treinar o Belenenses. Falava muito com o Rui Pedro Soares [presidente da SAD do Belenenses] sobre futebol e antes de ele entrar falámos sobre o Belenenses e disse-lhe que era um bom projeto. Conheço-o há muitos anos, por isso fomos falando e existia uma ligação de amizade. Mas na minha vida não misturo o profissional com as amizades. Portanto, fui fugindo de um convite. Queria fazer o meu percurso e um dia então ser hipótese naturalmente. Quem me conhece sabe que o meu percurso foi sempre isento de qualquer compadrio.

Lembro-me de te ter visto algumas vezes no Restelo, como um adepto.

Sou um apaixonado pelo futebol. Vejo jogos em todos os estádios e como moro em Cascais era fácil para mim, às vezes também via o Estoril. Gosto muito de ir aos estádios, não consigo ver futebol na televisão.

Como avalias a época passada do Belenenses?

Excelente. Acho que superaram as expectativas de toda a gente.

Esta época é possível apontar para um 6º lugar novamente?

Este ano o objetivo é a estabilização na Liga. É o grande e único objetivo. Ou melhor, o primeiro objetivo.

Vi-te no Fórum do Treinador, em abril, com o Lito Vidigal. Já lhe estavas a dizer que ias para o Belenenses?

Não, não [risos]. O Lito é um amigo de há muitos anos e como nos encontrámos ali estivemos a conversar sobre futebol.

A relação Lito-Rui foi complicada na época passada.

Não sei o que se passou. Não equaciono esse tipo de situações. Para mim, há um líder e o líder tem de ser respeitado. Por vezes podemos não concordar, mas há que respeitar. É o que transmito aos meus jogadores: podem não concordar, irei ser injusto nas minhas opções por vezes, mas o respeito tem de existir sempre.

És um treinador disciplinador?

Q.b. Sou acima de tudo um treinador que explica aos jogadores exatamente aquilo que sou e aquilo que quero. Eles percebem desde o primeiro dia aquilo que gosto e aquilo que não gosto. Não sou ditatorial, mas também não sou laissez faire. Desde que sejamos frontais com o jogador, goste ou não goste, ele vai sempre aceitar. Nunca me vou esconder ou enviar alguém ou algum recado por algum jornal.

Achas que te precipitaste quando aceitaste treinar o Sporting, em 2011/12?

Não. De maneira nenhuma. Estava preparado, como estou agora.

Então, o que correu mal?

São as variáveis para um treinador ter sucesso. Estava mais do que preparado, como continuo.

Agora se calhar estás mais.

Isso agora... É fácil dizer, não é? Daqui a 20 anos também. O treinador para ter sucesso, hoje em dia, depende de cada vez mais variáveis. Temos de dominar várias áreas: a comunicação, a metodologia de treino, o conhecimento tático, a gestão de recursos humanos... O jogador é cada vez mais culto e facilmente percebe quem está à frente dele. Não vivo preocupado porque acho-me preparado para o cargo. Mas é muito desgastante ser treinador.

No Belenenses tens o Tonel e o Carlos Martins, ex-colegas teus no Sporting. É mais difícil lidar com eles?

Até acho que é melhor. Foram colegas com quem tinha ótimas relações, mas não é por ter ótimas relações com eles socialmente que os vou escolher profissionalmente. Não faço regras especiais para uns e para outros, as regras são para todos. Eles conhecem o meu carácter há muitos anos.

O Ricardo treinador é mais ponderado do que o Ricardo jogador?

É, naturalmente. Não só pela idade, mas pela responsabilidade.

Mas os adeptos quando olham para ti lembram-se sempre das situações com o Artur Jorge e com o Liedson.

Essa do Liedson ninguém sabe o que se passou, mas falam. Nem sabem se tenho razão ou não, não lhes interessa. Infelizmente tenho de viver com esses episódios. Mas tenho tanta coisa positiva e fico tão triste que uma carreira de 17 anos em que consegui os títulos todos a nível nacional e fiz um percurso de sucesso na seleção, com mais de 50 internacionalizações, enfim... A cultura portuguesa olha normalmente para aquele acontecimento mais pequenino. Num oceano cheio de ilhas fantásticas, como se estivéssemos nas Maldivas ou nas Filipinas, com duas mil ilhas, só olham para aquela ilha, não veem as outras 1999. Falhei? Falhei. Mas não me vou ficar a lamentar, se não querem entender, fecha-se uma janela e abre-se uma porta. Não me escondo e não me vou embora. Também não vou dar um tiro na cabeça. Maioritariamente sinto o carinho e o respeito das pessoas. Tenho de viver com as situações, mas felizmente nunca roubei nem matei ninguém.

Como treinador já controlas a tua impulsividade?

O feitio estará sempre presente até morrer. Temos é de aprender a controlar o nosso feitio. E preparar-nos para as surpresas. Em situações críticas já lidei de forma a ser eu a ceder: “OK, tens razão, esquece lá o assunto”, não entrei por confrontos. Depende das circunstâncias. Tenho uma forma de estar honesta e sincera. Por vezes, como qualquer ser humano, as coisas não são perfeitas e têm de ser melhoradas. Tenho de estar preparado para essas situações, como os outros também têm, não sou eu que tenho de viver com essa cruz sozinho. Sou um alvo fácil e apetecível.

Achas que tens uma personalidade parecida à de Bruno de Carvalho?

[risos] Não sei, não o conheço assim tão bem.

Como sportinguista imagino que tenhas ficado surpreendido com a mudança de Jesus.

Percebo a pergunta, mas neste momento só estou focado no Belenenses e em fazer uma época de sucesso. Sou um profissional de futebol e estou realizado no que faço.

Como profissional, irias treinar o Porto ou o Benfica, então?

Neste momento não equaciono treinar outro clube que não o Belenenses.

O que te levou a ir para a Grécia?

Foi uma experiência muito boa, as duas vezes que estive lá. Da última vez vim mais cedo por situações pessoais, mas gostei muito de lá estar, tanto na ilha de Creta como em Atenas. Tive alguns problemas em termos financeiros no OFI, que acabou por sair da Liga por incumprimentos salariais.

Foste envolvido num processo de corrupção, porque alegadamente o Olympiakos pediu ao Atromitos, que treinavas, para perder um jogo.

Não sei porquê. Prestei declarações e disseram-me: “Sim senhor, pode ir.” Testemunhei sobre uma hipotética situação de pressão e esclareci o assunto com quem tinha de esclarecer. Por livre e espontânea vontade, sem ser notificado. Eu próprio fui lá para acabar com o assunto.

Para acabar: vamos voltar a ver os suspensórios que usavas no Sporting?

[risos] Se calhar. Já fiz alguns particulares e ainda não os pus. Mas uso-os muitas vezes, fora do campo. É acessório do qual gosto muito.