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Quando Mourinho e Casillas andavam às turras

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Casillas e José Mourinho durante uma conferência de imprensa. O treinador negou sempre ter qualquer problema com o guarda-redes quando o pôs e deu o lugar a Diego Lopez

YASSER AL-ZAYYAT / AFP / Getty Images

Agora que o ex-guarda-redes do Real Madrid vai atravessar diariamente um corredor onde é bem visível uma fotografia do “Special One”, não vem a despropósito lembrar o que foi a relação entre os dois

Luís M. Faria

Jornalista

Digamos eufemisticamente: Mourinho nem sempre é uma pessoa fácil. Ficaram célebres as palavras que terá gritado ao jornalista espanhol Antón Meana, encurralado numa sala do estádio Santiago Barnabéu: “No mundo do futebol eu a minha gente somos top, e tu no mundo do jornalismo és uma merda”.

O lado bom da frase é o elogio aos seus próprios jogadores, aliás repetido numa outra conferência de imprensa em que o treinador falou do “pequeno Leiria” – clube que treinou a seguir ao Benfica, entre 2001 e 2002 – e contou como era na altura: “Riam-se quando dizia que o meu guarda-redes era o melhor do mundo. Foi sempre assim, agora não vou mudar. Os meus guarda-redes são os melhores".

Todos os seus jogadores “são os melhores do mundo”, resumiu. Mas o jogador sobre o qual lhe perguntavam nessa conferência de imprensa, dada em princípios de 2013, era mesmo considerado o melhor guarda-redes do mundo. Iker Casillas, guarda-redes e capitão do Real Madrid e da seleção nacional, tinha estatuto de virtual intocável no seu clube. Infelizmente para ele, andava desentendido com Mourinho. A causa terá sido um gesto pacificador que tomara após uns confrontos feios entre gente do Madrid e do Barcelona, em pleno campo. Mourinho não gostou da iniciativa, e fê-lo sentir.

Acima de tudo, o treinador não gostava de ser questionado pelos jogadores. Um deles chegou a afirmar: “Seguimos as táticas do treinador. Às vezes resulta, outras não”. Mourinho achava que eles eram mimados e não aceitavam críticas: “Pois, como vocês foram campeões do mundo e os media vos protegem… e como o guarda-redes…”. Ao ouvir esta frase, Casillas, que estava a metros de distância, instou-o a dizer as coisas na cara.

Qualquer que seja o grau de precisão destes relatos, não há dúvida de que o ambiente se deteriorou no balneário do Real Madrid. Em particular, entre o treinador e Casillas. A tal ponto que este acabou por passar boa parte da época 2012-2013 no banco. Mourinho foi muito criticado pela opção, mas defendeu sempre a sua prerrogativa: “Não acho que Casillas seja um monumento. Para mim, o monumento é o Real Madrid, e o treinador da equipa deve sempre fazer o melhor para o clube, é muito simples. Não vejo necessidade de arranjar confusões, nem monumentos, nem nada. Prefiro gente que independentemente do que fez no passado, pensa no que quer fazer amanhã”.

O diagnóstico não podia ser mais claro. “Da mesma maneira que a confiança é um aspeto importante, penso que a competitividade não o é menos”, disse Mourinho. “Entre ambas, os jogadores conseguem os seus melhores níveis de jogo e forma (…). Estar numa zona de conforto permanente não me parece que seja o melhor para nenhum jogador. Vamos tentar encontrar este ponto de competitividade”.

Casillas admite que a situação tensa com Mourinho foi desgastante psicologicamente: "Tivemos uma relação de amor e ódio. Andei triste. Cheguei a chorar. Hoje cumprimentaria Mourinho e penso que ele também me estenderia a mão"

Casillas admite que a situação tensa com Mourinho foi desgastante psicologicamente: "Tivemos uma relação de amor e ódio. Andei triste. Cheguei a chorar. Hoje cumprimentaria Mourinho e penso que ele também me estenderia a mão"

Kevork Djansezian / Getty Images

Casillas acabaria por ser substituído na guarda da baliza por Diego Lopez, e o treinador admitiu preferir o segundo. Negava ter qualquer problema com Casillas; apenas gostava mais de Lopez. E era seu direito, como Casillas teria o direito de preferir outros treinadores. Mais tarde, o guarda-redes admitiu que a situação representou um desgaste psicológico: "Tivemos uma relação de amor e ódio. De encontros e desencontros. Andei triste. Cheguei a chorar. Hoje cumprimentaria Mourinho e penso que ele também me estenderia a mão".

A recusa de manter ressentimentos não o impediu de afirmar depois que considerava Carlo Ancelotti, o treinador seguinte do Real Madrid, melhor do que Mourinho. Mas este defendeu-o após a derrota da Espanha por 5-1 frente à Holanda, no Mundial de 2014: “Não poria Casillas no banco com o Chile (...). O Iker tem uma boa trajetória na seleção, tem a confiança do seu treinador e um mau jogo, para mim, não é suficiente para mudar de guarda-redes (…). A posição de guarda-redes é muito específica, e não gosto de mudar um jogador devido a um jogo mau. Só mudaria como consequência de um determinado momento de forma, desde que me confirme não estar em condições, não ter confiança ou estabilidade, que me dê a sensação de que é melhor mudar».

Quem não perdoou a Casillas foi Diego Maradona: “Quero recordar umas palavras do meu amigo Mourinho quando disse que Casillas já não era o grande guarda-redes e saiu-lhe bem caro. Teve de se ir embora de Madrid. E hoje dou razão ao meu amigo Mourinho”.

Mais uma acha para a fogueira de um desentendimento que continua a dividir as opiniões, e já deu pelo menos dois livros: “Las Cuatro Torres”, um romance de Leandro Pérez, e “Uma Passagem pelo Real”, uma memória do guarda-redes Jerzy Dudek. Para que conste, Dudek considera Mourinho “uma pessoa arrogante, com conhecimentos profundos”, mas que “se encontra alguém que fale a sua linguagem muda de discurso e o seu modo de comportar-se, tornando-se mais próximo, amável e simpático”.

Entre outras histórias, Dudek conta a cena em que Mourinho, furioso por a imprensa ter descoberto a equipa que ele ia usar num jogo com o Barcelona, entrou no balneário e começou a perguntar quem era o rato.

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