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Casillas. O guardião que ajudou a destruir a teoria Di Stéfano

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Casillas na conferência de imprensa de adeus ao Real: compareceu só, chorou, foi aplaudido por alguns dos jornalistas presentes

ANDREA COMAS / Reuters

Chegou depressa à glória, triunfou como poucos. Subiu e caiu no clube do coração, desentendeu-se com os pais devido a negócios e protagonizou cenas de filme romântico com a namorada. Aos 34 anos, é o jogador mais titulado de sempre a chegar ao futebol português. A história de Casillas

Luís M. Faria

Jornalista

Casillas, que agora chega ao FC Porto, teve um único clube antes: o Real Madrid. Esteve lá desde os nove anos, ou seja, durante duas décadas e meia. A sua lealdade e os seus contributos no campo valeram-lhe a estima dos fãs, a um nível que o fez ganhar a alcunha de San Iker. Se dependesse apenas dele, provavelmente nunca teria saído de Madrid. É o que dizem os comentadores.

Iker Casillas nasceu a 20 de maio de 1981 em Móstoles, na comunidade de Madrid. O pai era funcionário do Ministério da Educação, a mãe cabeleireira. Vinham de Ávila e mais tarde ainda viveriam algum tempo no País Basco, mas parece que Casillas sempre se considerou apenas e só madrileno. A mãe conserva a primeira camisola de futebol que lhe comprou, aos três anos. A partir dos nove, quando entrou para os infantis do Real Madrid, nunca mais foi preciso comprar-lhe outra.

O talento notou-se cedo e Casillas seguiu o trajeto dos jovens destinados ao futebol profissional. Estreou-se pela equipa principal aos 18 anos e um ano depois ganhou a primeira Liga dos Campeões. Foi o primeiro de muitos triunfos. Ao longo de 16 anos na primeira equipa, ganhou quase duas dezenas de troféus, incluindo cinco campeonatos, três Champions, dois Campeonatos da Europa e um Mundial de seleções. Em maio deste ano, tornou-se o jogador com mais vitórias na Liga espanhola: 334.

Sobre ele disse J. Ernesto Ayala-Dip, no "El País": "Casillas foi durante muito tempo o sonho de muitos clubes. A julgar pelo modo como sai hoje de Madrid, mesmo esse sonho foi mais duradouro que o do clube de toda a sua vida. E também o sonho impossível de muitos fãs, incluindo fãs de Barça, embora o expressassem 'sotto voce'. Iker Casillas foi e continua a ser um grande. Destruiu várias teorias sobre o papel de um guarda-redes. Destruiu a teoria Alfredo Di Stéfano, segundo a qual é uma calamidade se um guarda-redes mete na sua própria baliza uma bola que ia fora. Casillas inverteu essa engenhosa teoria. A bola que ia dentro ficava sempre fora e o Real Madrid vencia uma liga ou uma Champions".

Ficou para a posteridade a cena em que Casillas surpreende a namorada Sara Carbonerro e a beija, e logo vira as costas, quando a repórter televisiva se preparava para o entrevistar depois da conquista pela Espanha do Mundial de 2012

Ficou para a posteridade a cena em que Casillas surpreende a namorada Sara Carbonerro e a beija, e logo vira as costas, quando a repórter televisiva se preparava para o entrevistar depois da conquista pela Espanha do Mundial de 2012

GABRIEL BOUYS / AFP / Getty Images

Quando a Espanha ganhou o Campeonato do Mundo em 2012, o futebol espanhol foi considerado o melhor do mundo, e Casillas era o seu símbolo. Além das imagens dele a levantar a taça, ficou famosa uma cena com a sua namorada, a jornalista Sara Carbonero. Quando ela o entrevistava depois da vitória na final, Casillas de repente beijou-a. E foi-se embora, deixando-a algo embaraçada frente às câmaras.

Porém, o declínio começou logo a seguir. Em 2012, Mourinho foi treinar o Real Madrid e desentendeu-se com vários jogadores, com Casillas à frente. Passou a ficar no banco, o que lhe terá afetado seriamente a confiança. Uma lesão que entretanto teve numa das mãos também não ajudou.

Aos 32 anos, segundo alguns comentadores, o guarda-redes já não tinha as capacidades físicas dos 20. As defesas milagrosas que antes fazia tornaram-se raras e passou a sofrer golos que se julgaria impensáveis. Tornou-se frequente ser assobiado nos jogos pelos adeptos da sua equipa de sempre, o que lhe doía.

Outra fonte de tensão eram aspetos da sua vida pessoal, nomeadamente o desentendimento com os pais, por motivo de negócios – Casillas decidiu passar a gerir ele próprio a empresa que lhe comercializa a imagem, retirando-lhes a incumbência. Em resultado, segundo consta, pais e filho deixaram de se falar.

No Real, tendo Mourinho saído para regressar a Londres e treinar o Chelsea, chegou Ancelotti, o que mudou a situação de Casillas, mas não muito. Embora tivesse ajudado a equipa a vencer a Taça do Rei e a Champions em 2014 (ao todo, o Real ganhou quatro troféus nesse ano), as exibições nem sempre foram brilhantes e os seus dias estariam contados. Dado o seu estatuto no clube, o presidente Florentino Perez não podia despedi-lo, mas ter-lhe-á dado a entender que era melhor ir-se embora, se ainda queria ter uma carreira no futebol. Assim o dizem relatos publicados sobre o assunto.

Por esse motivo, Casillas terá recusado uma homenagem oficial que lhe propuseram. Mas no domingo, durante a conferência de imprensa em que anunciou a saída, estava emocionado. "Ao fim de 25 anos, chega o dia em que tenho que dizer adeus a este clube que me deu tudo”, disse. E chorou.

A despedida do Real

A despedida do Real

Emilio Naranjo / EPA

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