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Da rebeldia do Casal Ventoso ao amor ao Porto. A entrevista de Quaresma ao Expresso

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Ricardo Quaresma fotografado no restaurante do qual é dono, o Blend, no Bairro Alto, em Lisboa

Tiago Miranda

Do puto do Casal Ventoso que “tinha a mania de pegar a bola e fintar toda a gente” ao veterano de 31 anos que hoje é símbolo de um clube que “ama”: Ricardo Quaresma em entrevista ao Expresso, onde diz que Jesus é melhor que Mourinho (“podem dizer que sou louco, mas é a minha opinião”) e fala sobre a relação com Lopetegui. Mas há muito mais - a não perder

Não é fácil jantar com Quaresma. Não é que a companhia seja pouco interessante (que bom que é quando os futebolistas saem da redoma em que os enfiam) ou o restaurante tenha sido mal escolhido (quando se janta com o dono, nunca se é mal servido), mas mesmo em pleno Bairro Alto, a 300 quilómetros do Porto, não o largam. Antes do jantar: uma, duas, três fotos. Durante o jantar: duas fotos. E um conselho: “Estás aqui a fazer o quê? Não vás para o Benfica. Nós não deixamos, carago.” Não vai. Porque detesta o Benfica e ama o Porto. E o Sporting? Tem “o melhor treinador português”. Mas “sem ovos ele não faz omeletes”.

Sabes cozinhar?
Não, é coisa que nunca tive vontade de aprender. Sempre tive uma grande cozinheira em casa, que era a minha mãe. A minha irmã também cozinha, mas eu e o meu irmão nunca entrávamos na cozinha. Aliás nunca tocávamos em nada em casa.

Hoje em dia também não?
Não, agora tenho a minha mulher e temos uma pessoa a trabalhar lá em casa, por isso não há necessidade.

Comes tudo o que apetece?
Tudo não. Quando estou de férias sou mais de comer peixe, especialmente à noite. Durante o dia uma salada, arroz com atum, para depois ir para o ginásio e gastar as proteínas todas. Tenho muito cuidado com o corpo.

Aquela capa da Cristina não era photoshop então.
Acho que puseram muito [risos]. Não, estou a brincar, é tudo natural.

Quem teve aquela ideia, foste tu?
Não, por acaso foi a Cristina. Apanhou-me um bocado de surpresa. Ao início pensei que ela estivesse na brincadeira [risos]. Não estava à espera mas gostei da experiência, foi algo diferente na minha vida. E houve muita gente a gostar.

Teve um impacto brutal nas redes sociais.
Sim, vi que teve e isso foi bom para mim e para a Cristina. Mas se me perguntares se estou pronto para repetir uma coisa dessas... não sei. Depende do momento.

Podias ter sido modelo, se não fosses jogador?
Modelo, modelo não sei porque não sou muito alto, mas modelo fotográfico se calhar dava. É uma coisa que gostava de fazer, gosto muito de moda. Se chegarem propostas, estamos cá para vê-las [risos].

És um tipo vaidoso?
Muito. Com o corpo, com a roupa, com o cheiro... tudo.

Tens uma forma pouco comum de te vestires. Os teus colegas gozam contigo?
Olha, normalmente quando gozam contigo é porque têm vontade de também serem assim. Já vi muita gente a criticar-me e depois vêm perguntar-me onde é que eu compro os ténis, as calças, as tshirts... Sempre disse e cada vez tenho mais certeza que tu na roupa vês a personalidade das pessoas. E eu sei que nem toda a gente tem personalidade para andar vestido como eu ando. Sei que há coisas que são um bocado mais à frente, mas é assim que eu me sinto bem. Nunca me preocupei com o que os outros pensam.

Como em campo: pegas na bola, assume e não te preocupas com mais nada?
[risos] Sim, sempre fui assim, desde miúdo. Desde o tempo em que jogava na rua, no bairro. Quando via que a minha equipa estava um bocado à rasca tinha a mania de pegar na bola e querer fintar toda a gente e resolver o jogo. Acho que foi isso que me fez chegar onde cheguei.

Onde é que jogavas?
Comecei no Domingos Sávio.

Mas antes disso.
Ah, jogava em todo o lado. No Casal Ventoso, na rua, em qualquer sítio. Em todo o lado onde via uma bola e miúdos, eu pedia para jogar com eles. Às vezes não me deixavam porque eu era pequeno os outros já eram grandes, mas depois quando me começavam a ver a jogar já me chamavam para a equipa deles. E eu ia todo contente.

Lembras-te das primeiras chuteiras que tiveste?
Lembro-me bem, estava no Domingos Sávio. Eram umas chuteiras chamadas Gol. Lembro-me porque me deram umas da Nike e umas Gol, que ninguém conhece, nem eu sei de onde vieram aquelas botas. E eu disse: "quero as Gol porque vou fazer muitos golos com elas". E na altura fui o melhor marcador, fazia muitos golos. Marcava muito mais nas camadas jovens do que agora, agora não sou muito de fazer golos, são mais assistências.

Como é passar a infância no Casal Ventoso?
Foi bom. Claro que é um bairro muito complicado, de drogas e de polémicas, mas é bom cresceres no meio do bairro, porque vês logo o lado bom e o lado mau das coisas. E depois vais pela tua cabeça. Se fores uma pessoa fraca, deixas-te levar pelos maus caminhos e acabas mal.

Alguma vez te desviaste do caminho?
Não, porque sempre tive um irmão mais velho que não me dava abébias para isso. E depois tinha uma mãe que, apesar de trabalhar muito, não me deixava. Se me metesse por maus caminhos ela dizia que se matava, porque não queria ver um filho a vender droga ou a drogar-se. Então sempre tive isso na cabeça e nunca me deu para para fumar, nem beber, nem nada. Sempre fui muito bem tratado no bairro, nunca tive problemas. Aliás, agradeço ter nascido naquele bairro.

FOTO VALENTIN FLAURAUD/REUTERS

Fizeste alguma asneira no bairro?
Fazíamos muita coisa... sabes que no bairro tens de ser um miúdo atrevido, se não abusam de ti. Normalmente fazíamos uns minitorneios para ver quem é que sabia andar à porrada, quem levava mais.

Levavas?
Nunca fui para casa a chorar. Apanhei muito dos mais velhos, mas era "levo hoje, amanhã dou". Como disse, não era miúdo de ir para casa a chorar. Podem fazer-me mal e eu levava porque era um miúdo reguila, atrevido, e às vezes os mais velhos batiam-me. Mas depois havia pedras, havia paus, havia muita coisa... e eu desenrascava-me sempre.

O teu irmão ajudava-te?
Muito. E às vezes não levava mais porque eles sabiam que eu era irmão de quem era. Por isso é que eu às vezes também abusava, porque sabia que tinha o meu irmão por trás. Tu quando és miúdo e tens um irmão que as pessoas respeitam, sentes-te um campeão. Mas no bairro não há campeões. Aliás, na vida não há campeões. Há sempre alguém mais maluco do que tu. Tens de aprender a respeitar as pessoas.

O teu irmão ainda deu profissional. Jogava alguma coisa?
Era mais jogador do que eu. Tinha um pé esquerdo... era fantástico. Ainda hoje, quando o vejo a tocar na bola, na brincadeira, tenho pena de ele não ter conseguido mais.

Porque é que ele não deu e tu deste?
É sorte. O futebol é sorte. A sério. Tive a sorte de ter um treinador chamado Boloni, que veio de for a e teve a coragem de apostar nos jovens. Eu olho para trás e não vejo treinadores portugueses a apostarem em jovens. Tirando no Sporting, mas claro que o Sporting em termos financeiros não é um clube como o Benfica e como o Porto, que podem ir buscar mais jogadores, por isso tem de apostar nas camadas jovens. E eu acho isso bem, porque os jogadores portugueses têm muita qualidade, não é preciso ires lá for a buscar jogadores que dizem que são uns craques e quando a gente os vê não são nada de mais.

Viste o Euro sub-21?
Vejo sempre os sub-21 e sinceramente aí está uma grande prova. Temos uma seleção fantástica de jovens que podem dar muito dinheiro aos clubes portugueses. Mas é preciso apostar neles. Se não apostares, de que é que adianta dizermos que são uns craques? Sinceramente acho que os clubes portugueses deviam apostar mais nos jovens, porque há muito jovem português que fica de pernas partidas por jogadores que vêm de for a que são normalíssimos.

Como é que chegaste ao Sporting?
Através do meu irmão. O meu irmão também jogava no DDS [Domingos Sávio] e foram lá buscá-lo. No dia em que foram lá, também estava a haver um jogo meu. A equipa do meu irmão tinha acabado de jogar e a minha era a seguir. Nessa meia hora em que ele estava a tomar banho e a preparar-se, as pessoas do Sporting ficaram a ver o meu jogo. E eu na altura fazia a diferença, marcava muitos golos. Então quando o meu irmão foi ter com eles, perguntaram-lhe se ele sabia quem eu era. E ele disse "claro, é o meu irmão". Depois fui lá fazer dois treinos e fui com o Sporting para um torneio e fui o melhor marcador. E fiquei.

Quando é que começaste a ganhar dinheiro com o futebol?
Com 16 anos. Ganhava mil e poucos euros, foi o meu primeiro contrato. Mas esse dinheiro era todo para eu dar à minha mãe, não dava para grande coisa. Ela tinha três filhos para sustentar e tinha três trabalhos, trabalhava na Praça da Ribeira, saía de lá e ía para uma casa limpar e depois saía dessa e ainda ia para outra. Foi uma infância complicada, por isso claro que o primeiro dinheiro que eu e o meu irmão ganhávamos era tudo para casa, para ajudar a minha mãe, para não nos faltar nada.

Depois nunca mais faltou nada.
Quando fui para a equipa principal fiz um bom contrato e aí tirei a minha mãe do trabalho e graças a Deus hoje não nos falta nada.

Gastas mais dinheiro em quê?
Olha, hoje em dia não tenho aquela pancada como tinha há uns anos. Era roupa, era relógios, era carros... Hoje em tenho mulher, tenho filhos, e tu já começas a pensar mais nos teus filhos do que em ti. Sou um pai de família já. Preocupo-me muito com a minha família.

No teu primeiro ano de Sporting o balneário estava cheio de veteranos, Barbosa, Rui Jorge...
[interrompe] João Pinto, Jardel..

Um puto como tu entra no balneário e senta-se onde?
Quando entrei, vinha com o cesto com o meu equipamento, e a primeira coisa que fiz mal entrei na cabine foi encostar-me ali, em pé, à espera que todos se sentassem para ver onde é que eu me podia sentar. Depois foi o Barbosa que me veio buscar e que me disse "vais sentar-te aqui", que era ao lado dele e do Rui Jorge e do Paulo Bento. E assim foi, fiquei ali sentado nas duas épocas. Nesse dia estava muito feliz, porque estás habituado a ver tanto craque na televisão e de repente estás no balneário com eles. Mas sou uma pessoa que depois de entrar em campo esqueço os nomes e as caras, para mim são todos iguais lá dentro. Obviamente que tinha muito respeito por todos e fui muito ajudado por todos, mas dentro de campo não olho a caras.

O Barbosa era o capitão. Dava-te muito nas orelhas?
Dava, quando tinha de dar, sempre para o meu bem. Foi uma pessoa que me ajudou muito. Perdia tempo comigo, às vezes depois dos treinos ficava comigo a fazer cruzamentos e remates. São coisas que tu não esqueces, porque vais evoluindo. Ainda para mais com o Barbosa, que para mim era um super craque. Já joguei com muitos craques, mas o Barbosa tinha um talento impressionante. Acho que se ele não chegou mais longe foi porque não quis, porque ele tinha um talento que poucos jogadores em Portugal têm.

Apesar de na altura se dizer que ele não corria. Às vezes colam-se imagens aos jogadores... Tu também tens imagem de mau feitio.
No mundo do futebol quando te põem uma fama é complicado saíres dela. Noto isso porque antes tinha a fama de não defender, de taticamente não ser um jogador perfeito e hoje em dia por muito que eu defenda e por muito que seja bom no tático tenho sempre aquela fama. Mas isso a mim sinceramente sempre me passou ao lado. As críticas a mim nunca me preocuparam, nunca fui de ligar aos jornais, nem ao que diziam de mim na televisão. Cada um tem a sua opnião, desde que não me faltem ao respeito.

Quando é começaste a ficar com essa imagem?
Não sei, a mim nunca me disseram nada, mas sabia que a fama que passava cá para for a era essa. Mas dizerem isso na minha cara nunca me disseram. Sei que tenho o meu feitio, tenho a minha personalidade, mas prefiro pessoas como eu, que dizem as coisas na cara e que dizem aquilo que sentem logo na hora doque pessoas que est\ao a sorrir comigo agora e por trás estão-me a espetar uma faca. Não sou de espetar facas a ninguém, digo tudo na cara, seja a quem for. Se tiver de falar, falo.

Quando foste para o Barcelona deste uma entrevista a criticar o Rijkard. Essa frontalidade se calhar tramou-te.
Mas aí eu era miúdo. Estava habituado a ser o menino bonito em Alvalade e quando chegas a um Barcelona e tens Ronaldinho, Luis Enrique, Patrick, Edgar Davids... tens jogadores que já ganharam tudo, que já têm a vida feita porque já ganharam muito dinheiro e têm fama por todo o mundo. Só tens de comer o teu queijo e ficar quieto. E eu era um miúdo rebelde, que não me achava menos do que ninguém - e não me acho menos do que ninguém. Então meti na cabeça que tinha de jogar sempre. Se me foram buscar foi para jogar. E não admitia muito ficar no banco. É uma coisa que ainda me custa muito a engolir. Ainda hoje me custa a engolir ficar no banco. Não me acho nem mais nem menos do que ninguém. Se os grandes jogadores sabem resolver jogos, eu também sei, por isso custa-me a engolir. Mas claro que há coisas que hoje em dia já encaro de maneira diferente.

Na altura que apareceste no Sporting dizia-se que eras tecnicamente melhor do que o Ronaldo. E que o Ronaldinho, nas fintas?
(risos) Não, cada um tem o seu talento e as pessoas têm a sua opinião. Nunca fui pessoa de dizer "eu sou melhor do que este ou que aquele". Dá-me igual. Sou uma pessoa que disfruta muito do futebol. Eu amo entrar em campo, ver o estádio cheio, sentir aquela pressão.... É o que eu estou farto de dizer, acho que o futebol sem pressão não é futebol. Entrares num estádio e erres ou não batem-te palmas... (faz má cara). Não é a mesma emoção. Gosto de ir ao Estádio da Luz, porque é o estádio todo a assobiar-me. Gosto de ir a Alvalade, porque fui feliz lá, mas entro lá e é tudo a assobiar e a chamar-me nomes. Gosto de sentir essa pressão, é isso que me faz vibrar e mostrar aquilo que sou.

Sofreste a raiva dos sportinguistas quando foste para o Porto?
Senti e continuo a sentir. Sempre que vou a Alvalade continuam a assobiar e a chamar nomes. É normal, são coisas do futebol. Mas é no Porto que sou feliz.

És portista?
Sou. É um clube que eu amo.

Mas porquê?
Por muita coisa. Identifico-me muito com o clube. É um clube que nunca está bem com aquilo que tem, que te põe pressão a todaa hora, em que és obrigado a ganhar, e os adeptos são fantásticos. Por muito que te admirem, por muito que te respeitem, se estiveres a jogar, eles vão assobiar-te. Porque estão sempre à espera que tu dês mais. E é isso que eu gosto. Os adeptos sabem lidar comigo e eu com eles. Havia jogos que não me estavam a correr como eu queria e começava a ouvir assobios e críticas e era isso que me fazia pensar "não posso desiludir estes adeptos" e por vezes resolvia os jogos assim. É como eu já disse, amo o Porto e morrerei portista.

Nicolas Bouvy/EPA

Já te fizeram alguma espera no final de um jogo?
Já tivemos muitas. Mas eu, graças a Deus, nunca levei nenhum aperto ou [aconteceu] baterem no meu carro. Sempre fui muito acarinhado pelos adeptos, porque eles também vêem o amor que tenho ao clube e a honra que tenho em vestir aquela camisola. Porque ser jogador do Porto não é só vestir a camisola, temos de sentir o clube e a cidade e mostrar aos adeptos que estás ali para ganhar, não é para passear.

Tens uma imagem brutal esta época, quando o Benfica marca o primeiro golo no Dragão...
(interrompe) E eu dou um pontapé no banco. Eu e o Benfica não... Respeito, obviamente, mas é clube que a mim não me cai bem. Tenho uma rivalidade muito grande com o Benfica e perder com o Benfica, já disse isto várias vezes, é uma dor de cabeça para mim. Sou capaz de chegar a casa e não falar a ninguém. E de estar dois ou três dias no meu mundo. Custa muito perder com o Benfica.

Então esta época foi complicada.
(suspira) Se me custa perder, imagina ter de vê-los a festejar. (sopra) É algo muito complicado, nem sei explicar o que sinto. Mas espero este ano dar a volta ao menos bom que fizemos e voltar aos títulos porque aquela cidade merece.

Também protagonizaste outra imagem curiosa que foi o abraço ao Jesus.
As pessoas tentaram fazer disso uma guerra, porque ele tinha-se pegado com o Lopetegui na altura, mas eu não vi. Tentaram fazer um filme à volta de um abraço. Mas há um ano jogámos para a Taça no Dragão, ganhámos 1-0 e no final do jogo eu dei-lhe o mesmo abraço. Só que agora tentaram fazer uma guerra, por causa da confusão entre os treinadores, mas eu não tenho nada a ver com isso. Ele é uma pessoa que eu admiro, respeito e para mim é um grande treinador. Esteja onde estiver, vou-lhe dar sempre um abraço. Não tenho um porquê de não lhe dar um abraço. Sempre me tratou bem, sempre me falou bem, sempre me respeitou.

São amigos?
Não, amigo não posso dizer que é. Mas falamos e é uma pessoa que respeito e admiro muito como treinador. Para mim é o melhor treinador português.

E Mourinho?
É a minha opinião.

Não gostaste do tempo do que passaste com Mourinho no Inter.
Teve coisas boas e coisas más. O Mourinho é fantástico, é um grande treinador...

Mas?
Não é preciso falar muito dele, onde passa ganha. Desejo-lhe o melhor.

Mas achas que lhe falta alguma coisa.
O Mourinho é um grande treinador, mas para mim o melhor é o Jesus. É a minha opinião. Podem dizer que sou louco, mas é a minha opinião.

Ficaste surpreendido com a mudança para o Sporting?
Claro que fiquei, como toda a gente ficou, ninguém estava à espera. Sinceramente estava à espera que ele saísse do Benfica, porque merecia, por ser o grande treinador que é, mas pensei que pudesse ir para Inglaterra, para Espanha, para os melhores campeonatos, para Itália, que ele gosta do tático. Quando soube que foi para o Sporting, ao início não estava a acreditar. Mas o futebol é isto, há que respeitar as decisões de cada um.

O Sporting fica mais forte esta época por causa disso?
Vejo um Sporting como sempre o vi: um clube a lutar por objetivos. Mas tudo vai depender do treinador e especialmente dos jogadores. Não é por ter um grande treinador que tens de ter uma grande equipa, porque sem ovos não faz omeletes. Agora, que eles têm tudo para fazer um bom campeonato, têm, mas isso não me preocupa, nem tem de me preocupar, porque a mim a única coisa que me preocupa é o Porto, é voltar aos títulos e dar alegrias aos adeptos. O Sporting e o Benfica passam-me ao lado.

Foste para o Inter porque o Mourinho te convenceu?
Sim. Na altura estávamos no Europeu e o Mourinho ligou-me algumas vezes a pedir-me para ir para o Inter. Na altura eu tinha o Chelsea e tinha o Inter. E... não é arrepender, porque não me arrependo do que faço, arrependo-me mais do que não faço. Mas acho que errei sempre nas minhas decisões.

Nas mudanças de clube?
Errei. Ir jogar para a Itália acho que não é o meu futebol. Ir para Barcelona com aquela idade... podia ir, mas tinha de ter mais calma, fui sozinho. Mas é o momento. Bem ou mal, fui eu que decidi. Não me arrependo.

E porque decidiste ir para o Chelsea?
Não decidi ir para o Chelsea. Chegámos a Dezembro e o Mourinho disse que não contava comigo.

E o que se passou para ele dizer isso?
Passou-se muita coisa, não quero falar mais nada sobre isso. Mas quando ele disse que não contava comigo, eu tinha uma solução que era ir para o Tottenham, porque pelos vistos o Inter e o Mourinho já tinham falado com o treinador do Tottenham e tinham prometido que eu ia para lá. Só que na altura o Tottenham estava a lutar para não descer e eu disse que não ia. Ou ficava no Inter, continuava a treinar até ter uma oportunidade, ou saía para o Chelsea, porque o Scolari na altura ligou ao Jorge Mendes e disse que contava comigo. E assim foi. Fui para o Chelsea pelo Scolari, treinei, joguei uma vez e depois do jogo o Scolari é despedido. Foi aquele ano em que nada me correu bem. Depois veio o novo treinador, com outras ideias.

O Scolari foi quem não te levou ao Mundial. Não ficaste magoado?
Fiquei, porque na altura tinha acabado de ser o melhor jogador da Liga portuguesa e fui convocado para o Europeu de sub-21. Obviamente fiquei desiludido e triste. Mas são opções. Temos de saber viver com isso.

E a tua opção de ir para o Dubai, o que é que te deu na cabeça?
Sinceramente ainda estou para perceber o que é que me deu. Não foi pelo dinheiro.

Não foi?
Não, porque fui ganhar o que ganhava na Turquia. Não foi por isso. Não sei, sinceramente. Sempre que as pessoas me perguntam isso nem eu sei explicar o que me deu naquela altura. Se calhar a promessa de me dizerem que só ficava ali seis meses. É algo que não te sei explicar.

O que é que fazias lá?
Nada. No Dubai ou passeias ou vais às compras. No futebol as pessoas eram fantásticas, não tenho nada de que me queixar, grandes condições, mas era um futebol que não tinha nada a ver comigo. Estádios vazios, não havia pressão de ganhar e isso não faz o meu género. Mas são coisas que a gente passa e cresce com os erros que cometemos na vida.

O contrário dessa descrição é a Turquia. Foi o melhor sítio para ti?
Foi. Amei jogar ali. A seguir ao Porto vem o Besiktas, sem dúvida. Por causa dos adeptos, por causa da euforia que eles têm pelo futebol. A maneira que eles olham para mim, ainda hoje sinto que sou muito amado por aquelas pessoas.

Conseguias sair à rua lá?
Era difícil. Mas era um sítio onde foi muito feliz e onde me senti muito feliz.

Tiveste lá um desentendimento com o Carvalhal. É verdade que lhe atiraste com uma garrafa?
Não, isso é outra palhaçada que inventaram. Sobre mim já inventaram muitas palhaçadas, que eu causo problemas na cabine, com treinadores... As pessoas não me conhecem, mas se calhar dentro da cabine sou das pessoas que mais anima aquilo. Sou uma pessoa brincalhona, gosto muito de palhaçada. Obviamente brinco mais com uns do que com outros mas isso é como tudo na vida. Há pessoas que se vendem por pouca coisa e em vez de falarem aquilo que pensam falam o que lhes mandam dizer.

Quem?
Muita gente. Hoje em dias as pessoas vendem-se por pouca coisa. Às vezes oiço comentários... que começo a rir-me sozinho. Vêem-me na rua, dizem que sou fantástico e não sei o quê e depois... Cada vez há mais interesses no futebol. Eu sou um brincalhão na cabine. Dentro de campo é que não gosto de mostrar os dentes, porque é o meu trabalho e não vou estar ali a brincar, porque não gosto de perder, gosto de levar tudo a sério. Mas for a de campo sou uma pessoa muito tranquila e muito brincalhona. Quem me conhece sabe que é verdade. Não sou o arogante nem o mauzão que pintam no mundo do futebol. Fazem de mim um bad boy, mas não sou bad boy nenhum.

Com quem brincas mais no balneário?
Com todos. Não tenho... Antes tinha o Jorge Costa, o Baía, jogadores que ainda hoje tenho um carinho muito especial por eles, porque me ajudaram muito e aprendi muito com eles. Atualmente dou-me bem com todos.

Já te vês como um desses veteranos que mandam no balneário?
Não, eu não mando em nada.

Mas transmites a mística do Porto.
Sim, mas eu sou dos poucos que pode transmitir isso, porque tu olhas para o plantel do Porto e não tens ninguém que saiba o que é o Porto. Tens-me a mim, tens o Helton e pouco mais. Tinhas o Jackson, tinhas o Danilo... O Maicon, o Alex Sandro também já está há algum tempo... mas pouco mais. O resto é tudo jovens, jogadores que vieram agora e não têm noção. Já começam a perceber que o Porto é um clube diferente dos outros e espero que percebam isso rápido porque o Porto é muito diferente dos outros.

Achas que isso fez a diferença esta época?
Em certos momentos, sim. Acho que têm de perceber mais o que é o Porto.

No jogo com o Benfica, por exemplo?
No jogo com o Benfica, no jogo com o Nacional, quando depois de sabermos que o Benfica perdeu não podemos entrar da maneira que entrámos, temos de entrar com tudo. Sou do tempo de entrarmos em campo e até a relva comíamos. Esse é o espírito do Porto: entrarmos e comê-los. Só assim podemos ganhar.

Como está a tua relação com o Lopetegui? Ele no final da época disse que tinhas sido o jogador que mais tinha evoluído, o que é que ele queria dizer?
Não sei. É sempre bom ouvir elogios do treinador mas só ele sabe o porquê de dizer isso.

Sentes-te um jogador diferente?
Sim, sinto-me muito diferente, trabalho mais, preocupo-me mais com a equipa. Não é que antes não me preocupasse, mas se calhar não devia tanto como defendo agora, não me preocupava tanto com o tático como me preocupo agora. Porque o futebol foi mudando e de ano para ano está diferente. Sinceramente, na minha opinião acho que disfrutavas mais do futebol antes do que agora. Agora é muito tático, com muito medo uns dos outros. Mas em relação às palavras do Lopetegui fico feliz porque é sinal que ele percebeu que pode contar comigo e que eu estou lá para ajudar, não é para criticar.

Uma das críticas que te fazem é que não tomas as melhores decisões. Por exemplo numa situação de 2x1, quem conduz a bola em princípio sabemos que vai tentar fixar o defesa e passar ao colega se conseguir. Contigo a decisão pode não ser essa.

Mas tu no futebol tens de tomar as tuas decisões. Porque isso de ires contra o defesa e passares para o lado já toda a gente sabe. Se não houver erros no futebol tu não vais marcar golos nem fazer boas jogadas. Por isso é que os grandes jogadores fazem coisas que os outros não fazem.

Quem eram os grandes jogadores para ti?
Na altura tinha o Figo como ídolo. Tem uma grande história no mundo do futebol, foi um grande jogador.

E tinhas clube?
Sempre gostei muito do Barcelona, por isso é que quando tive oportunidade de ir para o Barcelona fui a correr. Era a única equipa que me fazia parar em casa para vê-los jogar, na altura do Stoichkov, Romário... era uma grande equipa.

Dizias que gostavas mais do futebol antes, mais imprevisível. Não gostas do futebol do Bayern então, por ser menos espectacular?
É menos espectacular? Então diz-me qual é a equipa que joga melhor do que o Bayern...

Para mim não há.
Sim, eles fazem um trabalho coletivo, mas têm sempre dois ou três jogadores que fazem a diferença. O Guardiola no Barcelona também já tinha o Messi, que pegava e fazia as jogadas deles. Olhas para o Bayern e tens Robben, tens Ribéry e de repente pegam na bola e vão no um contra um, um contra dois ou contra três, porque são jogadores fantásticos. São jogadores que caem um pouco for a da linha de Guardiola mas que ao mesmo tempo caem bem em qualquer equipa porque tens de ter sempre alguém que faça a diferença. Para teres todos os iguais não vais longe. Tens de ter sempre um louco na tua equipa, um que não quer saber de ninguém e arrisca, que é o caso do Ribéry e do Robben, que para mim são jogadores fantásticos, são da minha posição e gosto muito deles. São jogadores que, a qualquer momento, acabam com um jogo, sozinhos. Por isso é que te digo, as equipas do Guardiola jogam muito futebol.

Sentiste isso lá dentro?
Senti. Acho que eles são quase perfeitos. Taticamente são muitos bons. Também podes dizer-me que eles têm jogadores que poucos têm, ok, é verdade, têm um plantel fantástico, mas também tem de ter mão do treinador e o Guardiola é um grande treinador. Onde passa ganha e mete as equipas a jogar muito mas muito futebol. E é uma pessoa que não conheço mas aprecio, pela maneira com que está no mundo do futebol. Sabe o que diz e não é de entrar em polémicas. Mas como te digo, agora as equipas preocupam-se muito com o tático, se calhar antes vias as equipas a jogar mais aberto e não se preocupavam tanto, tinhas dois, três, quatro jogadores que eram os craques e que mexiam e hoje em dia olhas para uma equipa e tem um craque e os outros são todos para combater, não é?

Vês futebol na televisão?
Vejo muito futebol. Tenho a minha sala e passo lá muito tempo a ver jogos de todos o lado, Rússia, Alemanha, Inglaterra, Espanha, Turquia...

Gostavas de ser treinador?
Não sei se tenho feitio para ser treinador. É complicado lidar com jogadores. É verdade. Cada um tem a sua personalidade, a sua maneira de ser, de estar, uns lidam melhor e otros pior. Eu sinceramente não sei se tinha paciência para lidar com os jogadores.

Com os fãs tens paciência?
Muita, muita. É aquilo que viste, sou uma pessoa muito tranquila fora de campo. Falo com toda a gente, tiro fotos com toda a gente, seja de que clube for, desde que me respeites, vou-te respeitar, tento ser educado para toda a gente porque foi assim que me ensinaram.

Tens três filhos. Consegues passear com eles?
Sim, ando sempre com eles. Às vezes quando me pedem para tirar fotos até os meus filhos já tiram comigo.

Eles já sabem quem é o pai?
Já começam a perceber. A minha filha não liga muito a futebol, é mais desenhos e barbies. O meu filho já diz que o clube dele é o Porto, que o Benfica e o Sporting não prestam. O Ricardinho já liga muito ao futebol. Às vezes senta-se comigo na minha sala a ver os jogos. Já o levei ao estádio, foi ver jogos e vibra.

Já é portista, já não há nada a fazer, vibra muito. A minha mãe é que não pode ir ao estádio, é muito ansiosa. Se eu levo uma porrada e fico no chão um bocadinho mais de tempo já começa a ficar nervosa.

E depois às vezes tratam-te mal nos estádios.
Já ouvi muita coisa. Mas a pior coisa que me podem fazer é chamar nomes à minha mãe. Mas já ouvi muita coisa. Já me disseram que devia morrer. Eu começo-me a rir e fico com ainda mais vontade de fazer golos e resolver o jogo e calá-los.

Chamam-te cigano?
Chamarem-me cigano para mim não é insulto, porque eu sou. Acho que ninguém pode levar a mal, porque sou. Sou cigano e não vou mudar. Tenho orgulho no que sou, no sangue que tenho cá dentro. Não fiz vida de cigano mas o sangue está cá dentro. Há coisas que fazes em casa e cumpres algumas coisas.

Como?
Muita coisa. Por exemplo, não ando nu ao pé da minha filha, não me visto ao pé dela, quando ela vai à casa e banho não sou eu que a levo, vai a minha mulher ou a minha mãe. Ao pé do meu filho já é diferente, porque ele é homem. Mas com a minha filha não. Isso é uma coisas que os ciganos jamais fariam. Há coisas que eu sigo porque fui criado assim. A única coisa que quero é que os meus filhos tenham uma relação aberta comigo, que falem comigo, porque têm um pai para aceitar o que eles quiserem fazer. Sou um pai aberto.

Texto originalmente publicado a 5 de julho de 2015