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Os sete espinhos de Jesus

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josé coelho/ lusa

Esta quarta-feira é apresentado em Alvalade o novo treinador do Sporting. Nicolau Santos analisa os desafios que Jorge Jesus vai encontrar, agora que passou para o outro lado da Segunda Circular

Nicolau Santos

Nicolau Santos

Diretor-Adjunto

Jorge Jesus inicia formalmente esta quarta-feira a sua caminhada como responsável máximo do futebol profissional do Sporting Clube de Portugal. O objetivo é vencer a I Liga, feito que o Sporting não consegue desde a distante época 2001/2002. Não será seguramente um caminho de rosas. Eis alguns dos desafios e perigos que esperam o novo treinador verde e branco.

1. Bruno de Carvalho
Vai ser o maior problema com que Jesus terá de lidar. A ânsia de vencer e de protagonismo do presidente do clube, a par do seu feitio abrasivo, vão levá-lo a dizer ou escrever frases nas redes sociais que podem não agradar a Jesus. Além disso, o presidente acha que pode e deve entrar na cabine no intervalo dos jogos, quando as coisas não estão a correr bem, para «estimular» os jogadores, de forma truculenta. E habituou-se a estar sentado no banco de suplentes durante os jogos. Ora como Jesus teve um relacionamento completamente diferente com Luís Filipe Vieira, o potencial explosivo é enorme, se não houver muito sangue-frio, firmeza mas também uma enorme paciência.

andré kosters/ lusa

2. Condições
Ao que se sabe, Jesus terá constatado que as condições que os jogadores dispõem em Alvalade estão muito longe das que usufruem os futebolistas do Porto e Benfica, desde amas que tomem conta das crianças e que deixem os pais dormir à noite (porque senão os jogadores não rendem no dia seguinte) até ao isolamento completo do treino dos seniores, para os colocar ao abrigo de alguma eventual espionagem dos adversários e para manter a concentração em níveis elevados . Para isso, será necessário efetuar obras na Academia. Veremos se elas se realizam rapidamente e se estarão prontas antes do início da Liga.

3. Aquisições
Jorge Jesus tem certamente na cabeça um conjunto de jogadores que considera importantes para reforçar o plantel. Acontece que, pelo que se viu no caso Danilo, o Sporting está a fazer um enorme esforço financeiro para contratar o treinador bicampeão nacional, mas pode não ter capacidade para contratar os reforços que ele pretende, ou porque não tem dinheiro para isso, ou porque os donos dos passes preferem fazer negócios com outros clubes, porque perderam a confiança em Bruno de Carvalho. Jesus arrisca-se assim a ter uma equipa aquém daquilo que esperaria –e vai ser preciso encontrar forma de fazer a mesma omelete mas sem todos os ovos.

4. Expectativa
Com a contratação de Jesus, Bruno de Carvalho muda radicalmente a filosofia que o clube e ele próprio vinham traçando, ou seja, aposta numa recuperação lenta mas sólida do clube e da equipa de futebol, apostando em jovens formados na Academia e na contratação de alguns jogadores estrangeiros, com vista a dentro de algum tempo chegar ao título. Com Jesus, não será assim. O que Bruno de Carvalho lhe está a dizer é que quer o título já. E já é esta época – mesmo que não lhe venha a conseguir dar todos os reforços que o treinador pretende. E também os sócios vão exigir o título já, ignorando se Jesus tem ou não os jogadores que pediu e que considera indispensáveis para ganhar a Liga.

josé coelho/ lusa

5. Pressão
A pressão vai, pois, ser enorme: sobre Jesus e sobre a equipa. E os dois primeiros objetivos da temporada serão cruciais. Uma derrota às mãos do Benfica a 9 de Agosto na Supertaça será um enorme balde de água fria. Mas muito mais importante será a qualificação para a Champions, com a ultrapassagem da pré-eliminatória. Se o Sporting falhar esse objetivo, Jesus passa a ser de imediato um treinador contestado e instala-se seguramente a frustração e mal-estar na direção do Sporting. E só vitórias atrás de vitórias no campeonato poderão colmatar isso – mas não serão recuperados os milhões que se perderão se o clube não entrar na Champions, o que será uma severa machadada nesta jogada arriscadíssima que Bruno de Carvalho está a fazer.

6. Ambição
Um dos problemas que Jesus enfrenta é que nenhum dos jogadores que vai treinar foi alguma vez campeão. O mais que conseguiram foi a Taça de Portugal no ano passado, sob a direção de um treinador de que gostavam, despedido à má fila e com argumentos insustentáveis. Não têm, pois, traquejo de vitórias. Fazer estes jogadores acreditar que podem ser campeões e sobretudo incutir-lhes a ideia de que, para chegar ao topo, há que subir cada degrau como se fosse o último, não será seguramente tarefa fácil. Além disso, é incontornável a vontade que muitos jogadores têm de deixar Alvalade, pelo menos até à chegada de Jesus, uns porque não suportam a forma como o presidente se relaciona com eles, outros porque esperam ganhar bastante mais no estrangeiro. São os casos de William, Slimani, Mané, Rui Patrício, Cédric (já vendido), Adrien, Jefferson e Carrilo, pelo menos. Mudar-lhes a cabeça e focá-los na possibilidade de serem campeões de futebol pelo Sporting é seguramente uma árdua tarefa. 

7. Sorte e árbitros
Não se é campeão sem sorte. E o Sporting não é, normalmente, um clube com sorte – embora se saiba que é mais provável que ela nos caia no colo quando se trabalha bastante para a alcançar. E depois temos a arbitragem. O ano passado foi, nessa matéria, bastante simpático para o Benfica e lesivo para Porto e Sporting. O leão raramente é beneficiado pelas arbitragens – e já perdeu campeonatos por causa de um golo adversário marcado com a mão. Na verdade, a arbitragem não respeita o Sporting, nem o teme. E as declarações de Bruno de Carvalho sobre o setor também não ajudam a captar simpatia entre os homens do apito. É claro que se houver sorteio condicionado dos árbitros para os jogos mais importantes já se evita a mão que decide quem apita o quê. Mas não resolve o erro humano, que continuará a existir. Veremos se com Jesus haverá menos apitadelas injustas contra o Sporting.