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Como Rui Vitória tirou a Taça ao Benfica em 2013. Relato na primeira pessoa

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Ciom a conquista da Taça de Portugal no Jamor, o Vitória de Guimarães piorou o "annus horrobilis" do Benfica em 2013

AFP / Getty Images

Rui Vitória fala do "tocar no céu" conseguido pelo Vitória de Guimarães, a 23 de maio de 2013, quando o clube deu a volta ao resultado e ganhou ao Benfica na final da Taça de Portugal

A 26 de maio de 2013, Rui Vitória conquistou a Taça de Portugal, o momento mais alto da sua carreia, quando venceu o único troféu. Estava na segunda época no Vitória de Guimarães e nessa tarde teve pela frente o Benfica de Jorge Jesus. 

O então técnico dos encarnados e o seu clube selaram então o "annus horribilis" de 2013, quando perderam três títulos em duas semanas (antes fora o campeonato para o FC Porto, no golo milagroso de Kelvin, e a Liga Europa, para o Chelsea). 

No livro "A Arte da Guerra para Treinadores", da editora TopBooks, Rui Vitória desvenda segredos dessa conquista. Um deles, dá novo sentido à expressão "estacionar o autocarro", que José Mourinho lançou no léxico do futebol (para ilustrar as situações em que uma equipa adota uma tática muito defensiva, colocando quase todos os jogadores em frente à sua baliza). Eis o relato dessa jornada vitoriosa do clube vitoriano, em discurso direto, por Rui Vitória. 

 

Uma oportunidade de ouro 

“No caso do Vitória, era a primeira vez, em 90 anos e seis finais, que chegava à final da Taça de Portugal com possibilidade de a ganhar. Tínhamos uma oportunidade única de fazer história, até porque não sabíamos quando voltaríamos a ter uma ocasião semelhante. Não sabíamos se iríamos conseguir chegar a outra final. Portanto, era uma oportunidade de ouro, um momento único que devíamos desfrutar a cada segundo, e que era nossa obrigação agarrar com unhas e dentes. Foi assim que olhámos para o jogo. “ 

Rui Vitória durante os festejos no relvado, depois da vitória sobre o Benfica na final da Taça de Portugal

Rui Vitória durante os festejos no relvado, depois da vitória sobre o Benfica na final da Taça de Portugal

HENRIQUES DA CUNHA/AFP/Getty Images

Saber estacionar o autocarro 

“Em qualquer jogo, mas sobretudo numa final, é importante preparar com toda a atenção e detalhe todos os pormenores que envolvem o jogo. Por exemplo: as deslocações, o contacto com a imprensa, os adeptos.  

Pode ser algo tão simples quanto a chegada dos jogadores ao estádio. (…) Eu sabia que a claque do Benfica tinha ficado, por sorteio, junto à entrada dos balneários. Por isso, tivemos a preocupação de chegar ao estádio depois do Benfica. 

Tínhamos tudo controlado (inclusive, o autocarro do Vitória parou, a caminho do estádio, numa estação de serviço, não para “abastecer”, como algumas pessoas acharam, mas apenas para queimar tempo) para chegar ao estádio depois do nosso adversário, esperando que o fogo da receção se extinguisse. Se tivéssemos chegado antes do Benfica, teríamos encontrado os adeptos encarnados, à espera da sua equipa, provavelmente ao rubro e enfurecidos, o que teria tido um efeito muito negativo nos nossos jogadores. Assim, deixámos o Benfica ir à frente, a sua claque recebeu-os e dispersou. E, quando finalmente chegámos ao estádio, o ambiente estava mais calmo, e assim evitámos que os nossos jogadores sentissem o excesso da pressão dos adeptos adversários. À nossa espera, estavam vários adeptos do Vitória, numa moldura humana bastante mais agradável para nós.” 

 

Um vídeo-surpresa para os jogadores

“Preparámos um vídeo surpresa para os nossos jogadores com mensagens de ânimo enviadas pelos seus familiares. Montámos um ecrã na cabine, passámos o vídeo, sem eles estarem à espera, minutos antes de entrarem em campo. Os jogadores viram desfilar, uma a seguir à outra, mensagens de apoio e motivação, enviadas com carinho pelos seus filhos, as suas mulheres, os seus pais, os seus amigos. Claro que a emoção que ali se gerou foi poderosíssima. Alguns jogadores ficaram com lágrimas nos olhos, outros apenas excecionalmente motivados, orgulhosos de terem todos aqueles seres queridos a torcer por si, mas todos, absolutamente todos, tinham sido tocados por aquela onda fantástica de energia. Na verdade, a energia era tanta que se tivéssemos "soltado" os jogadores para o campo naquele momento provavelmente teriam destroçado o adversário, como touros enraivecidos, de forma pouco racional.”   

Rui Vitória durante os festejos com Marco Matias e o diretor desportivo Flávio Meireles

Rui Vitória durante os festejos com Marco Matias e o diretor desportivo Flávio Meireles

AFP

Os seis cenários do jogo 

“Feito o enquadramento estratégico, demos início à preparação da final. E, sinceramente, penso que foi aí, antevendo os cenários que poderiam apresentar-se, que se começou a ganhar a final. (…) Iniciámos com a apresentação dos diferentes cenários que se poderiam verificar no jogo e respetivas soluções da nossa parte: contexto de vitória, possibilidade de estar a perder, eventualidade de estar a jogar com menos um jogador. 

Foram seis soluções muito claras para aquilo que o jogo viesse a dar. Optámos por abrir totalmente o jogo, e preparar a equipa para esses possíveis cenários. Acho que foi um dos aspetos mais importantes desta vitória. 

Nem de propósito. De facto, assim aconteceu. Sofremos um golo muito esquisito na primeira parte e partimos para a segunda parte em desvantagem. Mas para os jogadores, o facto de terem sofrido um golo não foi um drama. Porque as várias hipóteses estavam traçadas, trabalhadas. 

Uma equipa poderá seguir mais tranquilamente em frente, mesmo em desvantagem, se tiver presente que essa era uma das hipóteses plausíveis e que, ainda assim, fazendo o seu jogo, mantendo o seu rumo, é possível dar a volta ao resultado e ganhar.”

 


Conquista da Taça de Portugal foi como "tocar no céu", reconheceu Rui Vitória

Conquista da Taça de Portugal foi como "tocar no céu", reconheceu Rui Vitória

HENRIQUES DA CUNHA/AFP/Getty Images

A mensagem ao intervalo 

“Foi exatamente isso que transmiti no intervalo desse jogo aos jogadores. Senti que eles não sabiam bem a que nível tinham estado. ‘Se tínhamos feito aquilo que estava combinado como estamos a perder?’ Foi isto que passou pela cabeça de muitos deles. Pensei em várias coisas naquele curto momento. Deveria ser mais impulsivo apelando à garra, à luta, à persistência? 

Tive que decidir rápido e optei por outra solução. Comecei por dar feedback no sentido de os situar em termos de rendimento. Tinham feito o que lhes tinha pedido, por isso, se estivessem tranquilos não haveria muito a apontar. Em seguida, sempre num tom de voz muito seguro e sereno, disse-lhes que para aquela segunda parte só exigiria que continuassem a fazer o mesmo porque o que tinham feito, tinham-no feito bem. Não era nada que não tivéssemos abordado, logo, havia que continuar porque ia tudo dar certo. Além disso eles sabiam que ainda havia 'cartadas para jogar'. Na segunda parte aconteceu isso tudo. 

Continuámos, sem perturbações, a fazer o nosso jogo, mas sem conseguir dar a volta ao resultado. O tempo passava e nada. Começámos a fazer a primeira alteração prevista e, passado pouco tempo, a segunda. Em três minutos conseguimos fazer dois golos e virar o resultado. Ainda acabámos por conseguir aplicar uma das seis soluções (estar a ganhar) já muito perto do final. Acabámos por ganhar. Foi tocar no céu. Indescritível.”

Rui Vitória fala no livro "A Arte da Guerra para Treinadores" de várias das suas experiências enquanto técnico

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DR