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A arte da guerra no futebol, segundo o general Vitória

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Rui Vitória, em discurso direto

FOTO Hugo Correia / Reuters

No "baralho" do novo treinador do Benfica não há só "reis e valetes" nem "ases" — também são obrigatórios os "duques", entre outros. Uma missão de espionagem jornalística ao livro de Rui Vitória inspirado nos ensinamentos de Sun Tzu, autor do clássico sobre estratégia militar

Rui Vitória, que era considerado o preferido de Luís Filipe Vieira, foi esta quinta-feira confirmado como o novo técnico dos encarnados, diferenciando-se bastante num ponto do seu antecessor. Ao contrário de Jorge Jesus, cujo pensamento sobre o futebol só pode ser reconstituído a partir do seus discursos em conferências de imprensa e/ou entrevistas, no caso de Rui Vitória, muito do que o atual técnico do Vitória de Guimarães pensa e faz já está registado em livro. 

"A Arte da Guerra para Treinadores" (edição TopBooks) é o título da obra, lançada em dezembro de 2014. O técnico de futebol aceitou o desafio da editora para adaptar à sua área de atividade os ensinamentos de Sun Tzu, o general e filósofo chinês que viveu há cerca de 2.500 anos.

Rui Vitória escreve no livro "A Arte da Guerra para Treinadores" de várias das suas experiências enquanto técnico

Rui Vitória escreve no livro "A Arte da Guerra para Treinadores" de várias das suas experiências enquanto técnico

DR

Além do treino de futebol, a coleção da Topbooks (num total de 14 títulos) incide ainda em áreas como a negociação, gestão de talentos, criatividade e inovação ou "coaching". "A Arte da Guerra" é considerado o maior tratado de estratégia militar de todos os tempos. 

Em 126 páginas, numa linguagem clara e acessível, Rui Vitória destapa alguns dos segredos que usa para montar as suas equipas. Nuns casos, serão meros truques de qualquer treinador de futebol de alta competição, mas que Vitória, de 45 anos, aceita passar a escrito — como a gestão das conferências de imprensa ou as reclamações com os árbitros. 

Mas noutros casos, e são muitos, o técnico do Guimarães assume as especificidades do seu "baralho". Ou revela que os seus jogadores costumam receber no telemóvel ou no tablet informações sobre o adversário que vão enfrentar ou um vídeo com as suas performances na partida disputada. Rui Vitória não gosta de "jogadores mecânicos", proíbe-os de fazer passes laterais e considera-se o "maquinista da locomotiva".

O "baralho" do treinador

No meu baralho existem sempre: 

- Os reis e valetes são os jogadores que atuam como os pilares de uma equipa. Uma espécie de troika que toma a liderança dentro do terreno e conduz o jogo da sua equipa. A mão do treinador dentro de campo. De corpo e alma.  

- Os setes e os oitos são jogadores menos basilares, mas que compõem a equipa. Sem a sua força e persistência, alcançar a vitória seria praticamente impossível.

- Os duques, os três e os quatros são os jogadores menos experientes, muitas vezes, os miúdos a quem damos uma oportunidade, e que querem brilhar, mostrar o que valem. Pecam pela inexperiência, mas destacam-se pela energia e pela inspiração repentina que podem revelar.   

- Os ases são os trunfos de qualquer equipa. As estrelas, os jogadores mais temidos e incisivos que decidem tudo no momento certo e, muitas vezes, num segundo. São jogadores com uma grande eficácia, uma grande capacidade de concretização. Os atiradores que não falham, pegam no arco e na flecha e acertam no alvo. 

É sempre com esta imagem na cabeça, deste baralho ideal, que procuro compor a minha equipa. (…) Às vezes faltam-nos cartas. 

Os oficiais da equipa técnica

HOMEM DE GOUVEIA/Lusa

Relativamente à escolha dos oficiais, o primeiro ponto é escolher pessoas com competência, mas que se identifiquem comigo. Não me interessa ter os melhores profissionais do mundo ao meu lado, se não sentir um vínculo muito forte, de entendimento e cooperação, com eles. Procuro sempre os melhores, mas sobretudo aqueles que melhor encaixem comigo. A partir daí somos um corpo só!  

No meu caso, trabalho numa equipa com mais cinco oficiais. Alguns dedicam-se em exclusivo a uma área do mapa, outros saltam a fronteira e têm sob a sua alçada mais de um “país”. Mas, o “núcleo duro” da minha equipa técnica é composto por dois colaboradores que me têm acompanhado ao longo dos últimos anos. São os meus dois braços — o direito e o esquerdo — sem eles, não poderia levar a cabo o meu trabalho. 

O treinador adjunto “direito”: a sua função principal é a ligação. O elo entre equipa técnica, jogadores, estruturas. É ele que recebe o primeiro embate, para que as coisas cheguem ao treinador, filtradas. Uma pessoa que faz a ponte entre o treinador e os jogadores, sobretudo de um ponto de vista humano e social.   

O treinador adjunto “esquerdo”: a sua função principal é a análise, tanto da nossa equipa como das equipas adversárias.  É um colaborador em quem deposito toda a minha confiança, que está perfeitamente identificado com o “meu jogar” e que, para além do apoio no processo de treino, se debruça mais sobre a análise do jogo. Este elemento está, sobretudo, focado em recolher e analisar a informação sobre as outras equipas.  

A escolha dos jogadores

Escolhidos os oficiais, formada a equipa técnica, entramos no terreno, fascinante e complexo, da escolha dos jogadores. (….) Uma equipa de jogadores jovens ou de jogadores experientes? A consciência e a análise do contexto em que nos inserimos — neste caso, o próprio clube — é, mais uma vez, um elemento fundamental. Queremos comprar jogadores novos, com grande margem de progressão, que depois possamos colocar no mercado e vender? Precisamos de alguma estabilidade e devemos procurar jogadores mais maduros? 

Quando vamos à procura de um jogador, não vamos somente à procura de um atleta com determinadas características físicas e técnicas. Vamos, de facto, à procura de um atleta completo. De um homem. Com determinadas características físicas e técnicas, (…)mas não podemos esquecer que, acima de tudo, é um indivíduo único, com um determinado perfil psicológico, um determinado enquadramento social, um determinado estilo de vida, uma determinada atitude perante si próprio, perante a sua equipa, perante o seu trabalho. Eu, como treinador, inclino-me cada vez mais para esta visão total do jogador. Às vezes, creio que até me inclino para os aspetos psicológicos e contextuais excessivamente. Mas se o faço, é porque acredito que podem fazer toda a diferença.  

Um bom jogador não deve ser visto simplesmente pelas suas qualidades futebolísticas. 

Deverá ser uma mistura de “corpo, mente, e coração” com talento e trabalho. 

Espionagem dos adversários e "coaching" dos jogadores

Uma observação profunda e detalhada de três jogos de um adversário fica reduzida — isto é condensada, espremida até ao essencial — a um vídeo de cinco ou dez minutos. Esta observação poderá incluir dados estatísticos que, muitas vezes, são preciosos. (…). Toda esta informação é, depois, compilada em modelos de apresentação que já temos preparados, e que podem consistir em vídeos, slides, alguns dados estatísticos selecionados que apresentamos à equipa. No seguimento disto, é possível, ainda, um jogador receber nos seus dispositivos (telefone, tablet, etc.) informações detalhadas sobre um ou vários jogadores adversários, assim como, no fim de cada jogo, cada jogador receber um pequeno vídeo com um resumo das suas intervenções durante a partida, no fundo, um vídeo sobre a sua atuação.  

Coexistência de gerações no balneário

Parece-me importante contratar para a equipa jogadores que estejam numa fase ascendente da sua carreira. Não quero com isto dizer que os treinadores devam procurar equipas jovens, compostas apenas por jogadores obedientes e desejosos de correr. É preciso, no desporto como na vida, encontrar um equilíbrio. Mas eu, pessoalmente, gosto de trabalhar com jogadores que queiram muito crescer. (…)  

Procuro sempre temperar a energia e a “impaciência” dos jogadores mais jovens com a experiência e a maturidade dos jogadores mais “seniores” nas minhas equipas. Costumo dizer que com mais de 30 anos, deverão existir poucos jogadores numa equipa e os que possuirmos deverão ter um grande caráter. Estes são, regra geral, os pilares da equipa.  

Confiança aos jogadores, mas sem intimidades

Quando penso na relação que tenho com os membros da equipa técnica sei que, de facto, tem de funcionar muito bem. Têm de ser os melhores, para mim. Com os jogadores, é outro nível de relação. Há uma formalidade maior. Gosto que sintam que estou lá para eles, que podem confiar em mim, mas sem excessos. Penso que prefiro estar “fora” a estar dentro. Há treinadores que são muito próximos dos jogadores, mas eu sinto-me mais confortável numa posição um bocadinho mais exterior.  

Na minha equipa técnica, tenho dois elementos que se ocupam mais desta relação direta com os jogadores, numa ligação mais estreita. Não estou de todo encerrado num cubículo fechado, longe de tudo. Mas a vantagem desta posição é conseguir ter uma maior capacidade de análise e intervir quando considero que é necessário. É ver a floresta e não as árvores. Posso entrar para o meio das árvores, mas depois volto ao meu lugar, que é de fora.

AFP

A gestão do balneário através da comunicação social 

Não é só a comunicação com a minha equipa que eu tenho de dominar. Também a imagem que projeto, a sensação de confiança, ou não, que pretendo imprimir nos outros. Mal acaba o jogo, enquanto me dirijo para o "flash interview", e mais tarde para a conferência de imprensa, a minha cabeça já está a focar-se também no jogo seguinte. Já estou a prepará-lo, a antecipá-lo, a abordá-lo da maneira que julgo ser a mais correta. A minha intervenção junto dos jornalistas tem já dois focos centrais, a análise do jogo que acaba de terminar e esse próximo jogo, ainda relativamente distante, como pano de fundo.  

É natural, por isso, que quando a minha equipa se prepara para jogar contra um adversário teoricamente mais fraco, eu aumente a pressão, e inversamente, quando o adversário que nos espera é teoricamente mais forte, eu vou tentar aliviar a pressão, transmitindo ao mesmo tempo muita confiança.  

Truques do treinador no banco

Em determinados jogos, o próprio encontro pode “pedir” um treinador mais frio, mais calculista, mais sereno, e isso transmite-se sobretudo através da linguagem “não-verbal”, da própria postura que o treinador adota ao relacionar-se e agir sobre a sua equipa. Noutras ocasiões, o treinador deve apostar numa postura mais “agressiva”, mais proativa, em que deve funcionar como um impulsionador vindo do banco, um catalisador, estimulando a ação, o empenho, a raça dos jogadores.  

Há jogos que precisam de ser “agitados”, há outros em que a postura será muito mais low-profile. (…). Não querendo ser “incendiário”, é evidente que uma intervenção de um treinador com um árbitro, por exemplo, pode ser um catalisador para as bancadas… Este é mais um dos muitos ingredientes que fazem um jogo de futebol. Não os ter em conta seria sinal de uma grande ingenuidade, por isso, é necessário assumi-los, ter consciência de tudo o que se passa à nossa volta, tal como na guerra. 

Quando há um parlamento no balneário

Sabemos que haverá sempre um momento, geralmente no primeiro treino do microciclo, em que vamos analisar e debater o jogo. Nessa altura, faço a minha intervenção, mas dou sempre a oportunidade aos meus jogadores para expressarem a sua opinião e dizerem o que sentem. É em “casa” que se resolvem os problemas, e temos um lugar e uma hora para o fazer.  

Muitas vezes, quando lhes dou a palavra, fica ali um silêncio de uns 30 segundos, em que ninguém diz nada. Se não houver ninguém a querer falar, cabe ao treinador designar quem irá tomar a palavra. E, mais uma vez, esta escolha é feita de maneira refletida. Se eu sentir que é precisa alguma motivação, provavelmente irei pedir a um jogador batalhador para fazer o seu comentário. Se sentir que é necessário imprimir alguma calma e sensatez à equipa, irei provavelmente pedir a um jogador experiente que partilhe a sua sabedoria — por exemplo, dando a palavra a um dos capitães. Outras vezes, pedirei a um jogador mais novo para dar o seu ponto de vista, porque entendo que isso será positivo para a equipa. 

É importante, até a um nível individual, incluir uma análise subjetiva, realizada por um ou mais jogadores. Isto é, há três níveis a ter em conta: aquilo que o treinador acha que o jogador rendeu, aquilo que o próprio jogador acha que rendeu (análise subjetiva), e aquilo que efetivamente rendeu. É fundamental fazer o cruzamento destes três níveis para obter um retrato mais fiel do que se passou. 

Os princípios sagrados de "o meu jogar"

JOSÉ COELHO/LUSA

Antes da “tática” propriamente dita, há um conjunto de regras (posicionamentos e movimentações) que uma equipa tem que ter, que o treinador define e transmite aos seus jogadores como princípios básicos, a partir das quais todo o trabalho será desenvolvido. Tal como um pai que educa um filho baseando-se numa série de regras “universais”, mais ou menos consensuais, comuns a toda a família (como não comer à mesa com chapéu), mas também num conjunto de regras específicas, que são suas, próprias daquela casa (por exemplo, não levar telemóveis para a mesa).  

Um exemplo: nas minhas equipas, eu dou instruções para que não se façam passes laterais. Ou seja, podem fazer-se passes para a frente e para trás, na diagonal, mas nunca passes laterais. Isto significa que, quer se jogue num sistema tático 4-3-3, 4-4-2, ou qualquer outro, este princípio irá estar sempre presente. Estas regras funcionam como um suporte para depois estar em qualquer sistema tático de um modo confortável. 

Com base nesse modelo de jogo, o treinador desenvolve uma série de conceitos que transmite às suas “tropas”. Alguns exemplos de regras (conceitos gerais) que compõem o modelo de jogo: 

- Todos os jogadores têm de ter uma grande reação à perda da bola. 

- Todos os jogadores têm de ser muito combativos nos duelos individuais. 

Cada jogo é um jogo

Hoje em dia, abordamos cada jogo com uma estratégia montada, mas temos de ter a consciência de que cada jogo, como cada bata-lha, tem uma vida muito própria. Essa dinâmica que se gera pode ser imprevisível, pode alterar-se, decorridos apenas cinco minutos de jogo.  

Exijo aos meus jogadores que tenham sempre presente essa leitura do jogo, e que trabalhem a criatividade, a liberdade e a autonomia de jogar.  

Não quero jogadores mecânicos. Quero jogadores que tenham a capacidade de perceber que o jogo tem vida própria, que sejam capazes de se adaptar e retirar o melhor dessa dinâmica. 

Como na arte da guerra, a ideia não é repetir táticas que funcionaram, porque estas seriam demasiado previsíveis e fáceis de contrariar, mas introduzir alguma variabilidade, imprevisibilidade, fluidez no meu sistema tático. Sem perder o rumo, adaptar e mudar o curso do meu jogar às características do jogo e do adversário.  

O treinador no seu universo: adeptos, dirigentes, média

HENRIQUES DA CUNHA/AFP/Getty Images

Antigamente, o treinador era uma espécie de protagonista e estava num patamar demasiado elevado relativamente a todas as questões da liderança. Hoje, o treinador tem de ter a perceção do que o rodeia e da influência que isso pode ter sobre ele próprio e sobre a sua equipa. Mais do que num patamar elevado, hoje o treinador está num centro, em que abaixo tem a sua equipa, acima tem a direção do seu clube, e depois numas zonas adjacentes, intermédias, tem a comunicação social e a massa adepta.  

Os dirigentes são o motor do clube, são eles que definem a meta, o objetivo, mas quem decide o caminho é o treinador. O treinador é o maquinista da locomotiva, embora sejam os dirigentes a decidir qual o destino ao qual queremos chegar. 

Em relação aos jornalistas, há no meio futebolístico uma certa tendência para “demonizar” a comunicação social, como se eles estivessem ali para dificultar o nosso trabalho. Eu não vejo as coisas assim. Quando estou numa conferência de imprensa e vejo a sala cheia, para mim, é um motivo de orgulho. 

A filosofia das duas cadeiras

Relativamente aos dirigentes, o treinador deve ter a capacidade de perceber a filosofia reinante do clube que integra. A partir daí, será mais fácil estar em sintonia com a direção. Nem o treinador fará nada que vá contra essa perspetiva, nem a direção procurará impor nada contra a vontade do treinador.  

Sempre tive uma relação excelente com os dirigentes dos clubes onde trabalhei. Mas é evidente que, por vezes, surgem situações, como em "A Arte da Guerra", em que os governantes e o general não estão de acordo. Nessas alturas, se for realmente uma questão determinante, o treinador tem de marcar a sua posição. O líder do grupo de trabalho é o treinador e, nesse terreno, será sempre sua a última palavra. Na minha experiência, procurei sempre sentar-me nas duas cadeiras, entender as duas perspetivas (faço-o no relacionamento com os meus jogadores, e com a direção também), mas sempre que senti que tinha de marcar posição, marquei-a. No fundo, o treinador está numa posição central em que, para além de uma liderança de cima para baixo, com os seus jogadores, tem de conseguir criar uma liderança de baixo para cima, isto é, fazer com que a direção siga a sua linha de pensamento e as suas ideias de modo natural. Liderar não só a sua equipa de trabalho, mas conseguir, a partir do seu lugar, que os seus dirigentes o sigam.