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E Pelé foi jogar para os Estados Unidos. Faz quarenta anos

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Getty

O anúncio de que o maior futebolista do mundo ia para o New York Cosmos foi uma enorme surpresa. Mas a operação teve o efeito pretendido

Luís M. Faria

Jornalista

Há quarenta anos, o futebol profissional, comparado com desportos como o basebol e o chamado futebol americano, mal existia nos Estados Unidos. As principais equipas do país jogavam para uns poucos milhares de pessoas nos seus estádios. No país de Abraham Lincoln e Babe Ruth, o desporto que já na altura era o mais popular em todo o mundo tinha uma imagem elitista - algo que os meninos ricos jogavam nos colégios de modelo pseudo-inglês – e era ao mesmo tempo associado aos camponeses europeus que tinham emigrado para os EUA.

O futebol, ainda por cima, parecia exactamente o contrário do espírito americano: um jogo onde normalmente se marca pouco, ou até nada, onde há um 'build up' que pouco tem a ver as gratificações imediatas (em golos e outras estatísticas) a que os americanos estão habituados. A própria simplicidade desse desporto, jogável com uma bola de trapos e na rua, se for preciso - o que ajuda muito a explicar a sua popularidade universal - funcionava contra ele, pois era o contrário da elaborada parafernália típica das modalidades americanas, tão atraente em si mesma. Em suma, o estatuto secundário do futebol nos EUA estava destinado a continuar por bastante tempo. Foi então que alguém decidiu atacar o mal pela raiz.

A raiz, por assim dizer, era a incapacidade de os norte-americanos sentirem empatia com o jogo. E um dos motivos dela era a ausência de estrelas com quem se identificassem. A bem dizer, se se perguntasse a um americano o nome de um jogador de futebol, era altamente provável ele não ser capaz de referir nenhum compatriota seu. Ou não diria ninguém, ou diria o nome que nessa altura simbolizava o futebol no mundo inteiro: Pelé.

Objectivo: ressuscitar a liga

O jogador brasileiro, cujo nome verdadeiro é Edson Arantes do Nascimento, estava nessa altura com trinta e cinco anos. Tinha jogado na liga brasileira desde os quinze, e batera todos os recordes, em golos (541, só no campeonato oficial; somando tudo seria 1281), campeonatos (três Campeonatos do Mundo, em 1958, 1962 e 1970) e também em dinheiro, pois era suposto ser o atleta mais bem pago do mundo. Com uma habilidade fenomenal para marcar golos, chegara a ser declarado tesouro nacional pelo presidente do seu país, a fim de prevenir que o levassem para fora do país, como se faz aos quadros de grandes mestres. Isso fora no princípio dos anos 60.

Passada mais de uma década, ele encontrava-se em fim de carreira, e tinha décadas à sua frente para gozar a vida, passeando pelo mundo e rentabilizando a sua fama como lhe apetecesse. Porém, faltava uma última aventura. E quem lha proporcionou foi um homem chamado Clive Toye. Nascido em Inglaterra, era na altura o manager do New York Cosmos, um clube fundado em 1970 e que já tinha mudado várias vezes de estádio. Conforme explicou recentemente numa entrevista ao The Guardian, ele e o comissário da liga americana, a NASL, tinham constatado que esta última estava "praticamente morta. Tentávamos mantê-la viva e fazê-la crescer. Decidimos que havia duas coisas que eram necessárias neste país para mudar a situação toda. Uma era o Campeonato do Mundo e a outra era Pelé. Ele era o único jogador de alguém neste país já tinha ouvido falar".

O resto é história. Digamos apenas, para resumir a pré-história dessa história, que a corte ao Pérola Negra durou quatro anos. Inicialmente abordado junto a uma piscina, Pelé disse claramente não. Numa série de encontros que houve depois, a maioria deles no Brasil, continuou a dizer não, argumentando que não ia fazer nada para os Estados Unidos. Toye manteve a pressão, indo ao ponto de anunciar publicamente o número da camisola (o 10) que esperava vê-lo usar um dia. Pelé mantinha a sua recusa. Até que a insistência do americano, e os seus próprios problemas financeiros, começaram gradualmente a dar outro aspeto à ideia.

Um contrato milionário. Uma aposta ganha

Num dos almoços dos dois, que foi pago por Pelé, este explicou que o restaurante jamais iria descontar o cheque - preferiam ficar com o seu autógrafo. Algum tempo depois, num motel próximo do aeroporto de Bruxelas (Bélgica), onde se encontrava para uma partida de homenagem a outro jogador, Pelé aceitou finalmente a proposta. Fê-lo do modo mais informal possível, escrevendo numa folha de jornal que Toye lhe estendeu. O contrato formal seria depois assinado nas Bermudas. Três anos de compromisso, a 1,4 milhões de dólares por ano, soma que hoje consideraríamos trivial, ou mesmo irrisória, mas na altura era absolutamente extraordinária.

Para contrariar a imagem “emigrante e camponesa” do futebol nos EUA, o anúncio formal do contrato foi feito a 10 de junho no 21 Club, um dos lugares mais exclusivos de Manhattan. O Cosmos tornou-se famoso em todo o mundo. Pelé estreou-se na sua nova camisola cinco dias depois, e Toye teria a satisfação de ver o seu plano dar resultar em cheio, pelo menos em termos comerciais. O público do estádio passou de uns escassos milhares a largas centenas de milhares. O Cosmos tornou-se uma marca rentável, e o futebol começou a disparar nos EUA.

À frente do Cosmos numa visita histórica a Cuba

Após a partida de Pelé em 1977, ano em que o Cosmos ganhou o campeonato, essas conquistas ainda sobreviveram alguns anos. Em termos desportivos, para o clube, haveria mais vitórias nos campeonatos de 1978, 1980 e 1982, seguidas de um declínio. A popularidade do desporto-rei também cairia nos EUA. Em 1994, quando o país recebeu o Campeonato do Mundo, essa desvantagem em relação a outros desportos ainda era bem visível.

Pelé continuou a ser considerado o maior jogador de todos os tempos – e a fazer manchete. O ano passado, umas declarações suas a propósito do campeonato do mundo no Brasil (e dos protestos que houve na altura) foram mal recebidas. Idem o seu apoio recente a Sepp Blatter, aliás substituídos ontem por um apelo a uma “limpeza” na FIFA. Ajuizadas ou não, as suas declarações em nada afetam o seu legado desportivo, ou o enorme efeito que a sua presença teve nos EUA. Agora, quarenta anos passados sobre a estreia dele pelo Cosmos, o clube faz uma histórica visita a Cuba para um jogo com a seleção nacional deste país, e Pelé, apesar dos problemas médicos que o têm afligido nos últimos tempos, vai à frente da comitiva. Quem mais podia ser?