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Revolução FIFA: Blatter demite-se

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RUBEN SPRICH / Reuters

Quatro dias depois de ter sido reeleito, Blatter abdica da presidência da FIFA e garante que não se vai recandidatar - mas não sai já. Órgão que tutela o futebol mundial tem sido abalado por um escândalo: sete altos dirigentes foram detidos na semana passada por suspeitas de corrupção

Aconteceu: Blatter abdicou, resignou, retirou-se, demitiu-se. “O meu mandato não parece ser apoiado por todos. Assim, vou convocar um congresso extraordinário”, anunciou Blatter esta terça-feira em Zurique, sede da FIFA que foi sua durante 17 anos.  

“Vou organizar um congresso extraordinário para eleger um presidente para me substituir. Eu não vou ficar. Agora estou livre das limitações de uma eleição. Vou colocar-me numa posição para me concentrar em reformas profundas. Por muitos anos temos tentado fazer reformas, mas não foi suficiente.”

Questão fundamental: e durante quanto tempo é que a FIFA fica no limbo, à espera de nova eleição e de novo presidente? O próximo congresso ordinário, no qual poderá ser escolhido o sucessor do suíço, está previsto para 13 de maio na Cidade do México. Blatter diz que pretende que haja um congresso extraordinário antes dessa data, para acelerar o processo.

De acordo com as normas, são necessários quatro meses para organizar uma eleição para a presidência da FIFA. Pode acontecer a qualquer momento, entre dezembro deste ano e março do ano que vem, explicou o presidente da comissão eleitoral da FIFA, Domenico Scala.

As autoridades suíças, citadas pelo "The Guardian", garantem que Joseph Blatter não está sob investigação. Por sua vez, a Reuters avança que os investigadores norte- americanos acreditam que o presidente demissionário fez transacções bancárias no valor de 10 milhões de dólares

Platini, que tinha pedido a demissão de Blatter ainda antes das eleições de sexta-feira que acabaram por reeleger o suíço, já se pronunciou. “Foi uma decisão muito difícil. Uma decisão corajosa. A decisão certa", disse Platini, citado pelo “The Guardian”. O presidente da federação de futebol alemã, citado pelo espanhol “AS”, considera a decisão de Blatter “absolutamente correcta”, mas peca por ser “tardia”.

Luís Duque, presidente da Liga de Clubes de Futebol Profissional, afirmou ao Expresso não estar nada surpreendido com a demissão de Blatter, tendo em conta o acumular de suspeitas e detenções de dirigentes da FIFA nos últimos dias. "Fiquei contente que vá deixar a FIFA, um organismo que tem vindo a perder credibilidade nos últimos anos face à sucessão de casos e suspeitas", refere. O líder da Liga está convencido que os resultados da investigação à FIFA ainda não serão todos do conhecimento público e que outros dados virão a lume nos tempos mais próximos.  

Opostos que não se atraem

Se esta terça foi de resignação para Blatter, a sexta que passou foi o oposto: o suíço venceu as eleições, reconheceu problemas, mas rejeitou sair. "Não sou perfeito. Ninguém é perfeito. Mas tenho a certeza de que em conjunto faremos um bom trabalho", dizia na sexta-feira, quando venceu o príncipe Ali Bin Al-Hussein - o jordano afastou-se à segunda volta. 

“A idade não vai ser um problema. Posso garanti-lo”, prosseguia Blatter, de 79 anos. Quatro dias depois, algum problema houve, porque Blatter sai de cena - e na sexta-feira o espírito era este: “Porque deveria eu recuar? Isso seria reconhecer que fiz algo de errado”, afirmou em declarações à Swiss TV.

Facto relevante: a conferência de imprensa desta terça-feira foi marcada de emergência e foi atrasada por duas vezes. Começou com mais de 45 minutos de atraso.

“Não posso controlar todos”

Um dia antes da eleição de sexta-feira, o agora líder demissionário da FIFA explicou-se ao mundo, mas só parcialmente, a propósito dos escândalos de corrupção que abalaram o organismo que tutela o futebol mundial. Na cerimónia de abertura do congresso da FIFA que acabou por o eleger, em Zurique, condenou a “minoria que se deixou corromper” e disse que não ia permitir “que os atos de alguns destruam o trabalho de todos os membros da FIFA”.

“Sei que muitos acham que sou responsável por tudo isto, mas não posso estar sempre a controlar todos. Se as pessoas fazem coisas erradas, fazem de tudo para as esconder. Não vamos permitir que as ações erradas de alguns destruam o trabalho de muitos, de uma maioria que trabalhou tão intensamente pelo futebol”.

Sete altos dirigentes foram detidos na passada quarta-feira por suspeitas de corrupção e, a esse propósito, Blatter dizia que ainda iria ser pior. “Mais más notícias vão surgir”, avançava na altura, nessa quinta-feira antes das eleições. E lamentava as “humilhações” decorrentes do que tinha vindo a público.

Nesse mesmo dia, não disse nada sobre os pedidos de demissão que lhe foram feitos - Platini, Maradona e até Cameron solicitaram-no - e desenvolvia observações sobre as doenças que afetam o futebol. “Não pode haver lugar para a corrupção e o futebol não é excepção.”

Blatter prosseguia nessa quinta-feira: o principal objectivo é “retomar a confiança”, pois os adeptos e o futebol “merecem transparência”. “Perdemos a confiança e é preciso restabelecê-la.” E ainda: “O mais importante é que não se perca o espírito do futebol”.

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    Aos 79 anos, Joseph Blatter foi candidato pela quinta vez à liderança do órgão máximo do futebol mundial, venceu e demitiu-se quatro dias depois. O que levou este suíço a querer permanecer na FIFA, ele que é alvo de observações sarcásticas um pouco por todo o globo mas que se manteve inabalável no poder?