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Loretta, a procuradora sem medo da FIFA. “Ninguém é grande de mais para a cadeia”

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PIONEIRA. Loretta Lynch é a primeira mulher negra a ocupar o cargo de Procuradora-geral dos Estados Unidos

Justin Lane/Epa

A mulher que esvaziou a bola da FIFA - e que lidera a investigação que resultou na detenção de sete altos dirigentes - levou para Washington a força dos negros na apanha do algodão. A sua promessa ao tomar posse no mais alto cargo da justiça americana? Ser apenas Loretta Lynch. Não precisava de prometer mais nada 

Uma criança que aprendeu a não vergar, uma mulher forjada a negro. Uma jurista de olhos focados no prémio. Esperou meses para ser confirmada no mais alto cargo da Justiça norte-americana. Não se irritou, não perdeu a compostura. E, esta semana, quando fez tremer o mundo do futebol, ao abrir o maior escândalo no mundo do desporto, estava igual a ela mesma. Serena.

“Ninguém é grande de mais para a cadeia. Ninguém está acima da lei”, afirmou Loretta Lynch quando tomou posse como Procuradora-geral dos Estados Unidos, no mês passado. Exatamente um mês depois, a primeira mulher negra a ocupar o cargo indiciou alguns dos mais destacados dirigentes do mundo do futebol.

Filha e neta de pastores batistas, Loretta nasceu nos anos de chumbo da segregação racial. Viu cair as leis mas não lhe foi permitido esquecer que o racismo permanecia. Original da Carolina do Norte, aprendeu com o pai, Lorenzo Lynch, que a lei devia ser utilizada como uma força de mudança. Acreditou. Era com o pai que a pequena Loretta ia aos tribunais locais ouvir histórias de vida. Depois, quando foi a sua vez de ocupar a barra, disseram dela que uma das suas maiores qualidades era saber ouvir.

Uma vez após a outra
E foi ouvindo — e agindo — que Loretta avançou. Na escola primária foi obrigada a repetir um teste, porque tinha alcançado uma nota estranhamente alta. As professoras pensaram que havia algo de errado, porque a afro-americana tinha alcançado um resultado superior aos dos colegas brancos. Loretta repetiu o teste - e a sua nova pontuação foi ainda mais alta.

Loretta é uma mulher de provas ultrapassadas, de sonhos concretizados. Uma corredora de fundo. Sonhou estudar em Harvard. Estudou. Primeiro Literatura Inglesa, depois Direito. Na faculdade, estava sempre aprumada, nada de gangas desbotadas ou ténis rasgados, como ditavam os anos 70. Uma amiga, Karen Freeman-Wilson, chegou a confessar à BBC que Loretta “não tinha roupa de brincar”. Se calhar porque Loretta não estivesse ali para brincadeiras.

Na década de 80, passou pelos escritórios de advocacia, num tempo em que os gabinetes eram excessivamente masculinos e brancos e as mulheres negras ainda eram uma exceção. No escritório Cahill Gordon and Reindel, ela e mais duas colegas ficaram conhecidas como “as trigémeas”. Eram três mulheres em 250 associados.

Ao longo da carreira, tem lidado com terroristas, mafiosos, políticos acusados de corrupção. Todos os tipos de abusadores da lei. A sua capacidade de manter a calma foi o que a segurou quando precisou de meses (duas vezes mais tempo do que o tempo somado de nomeação dos sete últimos secretários de Estado) para chegar a Procuradora-geral dos Estados Unidos. O seu antecessor, Eric Holder, precisou de apenas oito dias.

Questionada sobre o tratamento que lhe estava a ser dado, Loretta Lynch respondeu apenas: “Tudo bem, vamos manter nossa cabeça e os olhos no prémio”. Na altura da sua nomeação, o Presidente disse que Loretta não ia para o cargo para fazer manchetes de jornais, mas “para fazer a diferença”. Barack Obama parece ter acertado.

JUSTIN LANE/EPA

O avô construiu uma igreja batista e foi pastor. Tinha oito filhos e não tinha dinheiro, era arrendatário dos latifundiários brancos. A mãe, Lorine, foi bibliotecária, mas chegou a andar na apanha do algodão. O irmão, membro das forças de elite do Exército, morreu de diabetes. Sem filhos, Loretta casou-se com Stephen Hargrove, que trabalha no setor das telecomunicações e trazia dois filhos de uma relação anterior. Quando, há oito anos, Stephen a pediu em casamento ao pai dela, este respondeu que não podia aceder, nem que quisesse: a filha era “independente de mais para isso”.

Polémica, apoia os métodos de vigilância da NSA, que classifica de constitucionais, diz que a pena de morte é a penalização eficaz, tendo chegado a pedir esta sentença enquanto Procuradora. Mas é a mesma Loretta que apoia Obama nos seus objetivos de legalizar milhões de imigrantes e defende que os suspeitos de terrorismo devem ser preferencialmente julgados em tribunais civis e não em Guantanamo.

Esta semana, afirmou que o processo contra os dirigentes da FIFA sugere que “a corrupção é desenfreada, sistémica e tem raízes profundas no exterior e nos Estados Unidos”. Aos 56 anos, Loretta Lynch continua a fazer história. “Todos os acusados utilizaram o sistema financeiro americano” afirmou, dando mostras da noção da coisa pública. E, por isso, disse, o Departamento de Justiça dos EUA tem a intenção de os responsabilizar. “Eles deveriam defender regras para manter a honestidade do futebol e proteger a integridade do jogo. Em vez disso, corromperam o negócio para servir os seus interesses e enriquecer”. E basta.

O pai, o velho Lorenzo, de 83 anos, disse à BBC que quando criança, Loretta era muito inquiridora, “fazia perguntas sobre todos e sobre tudo”. E, quando o nome da filha começou a ser apontado para ocupar o cargo de 83ª secretária da Justiça, não acreditou, achou que o país não estava preparado. Mas foi a fazer perguntas, a controlar quem faz perguntas que Loretta chegou onde chegou. “O panteão do mundo do futebol tem um novo herói”, disse Tunk Varadarajan, editor da revista “Politico”. Figo, Maradona, Romário, Lineker e, agora, Loretta, uma equipa de luxo.