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Só vou ao Jamor quando o Sporting ganha

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É ja este domingo: Sporting e Braga vão mostrar quem é o mais forte. Enquanto não há jogo, o diretor-adjunto do Expresso lembra uma ida ao Jamor onde Manuel Serrão defendeu Manuela Ferreira Leite e explica como um tal de Tiuí deixou portistas e sportinguistas incrédulos.

Ser-se do Sporting Clube de Braga em Lisboa, em 2015, é relativamente original mas já não é inédito ou sequer muito raro. Por exemplo, um antigo quadro da Reitoria da minha Universidade era e é fanático do Braga e adorava comentar a matéria quando secretariava júris académicos nos anos 90.

Ser-se Braguista é mais especial. Porque eu distingo os Bracarenses, que são do Braga mas têm outro clube querido - tradicionalmente o Benfica, mas com excepções, como o Presidente, que desconfio que também puxa ao Porto - , e os Braguistas, que não acumulam simpatias com outro clube.

Viver em Lisboa e ter raízes em Celorico de Basto - onde o Porto tem muitos adeptos - e ter estado na final do Jamor, a gloriosa de 1966, e ter tentado invadir o campo após o golo inesquecível de Perrichon é muito mais especial.

Ter-se estado, nessa campanha gloriosa, nos estádios da Luz e de Alvalade para assistir à eliminação dos dois grandes, isso já é antológico.

Mas, ser-se do Braga em 1957-58, em Lisboa, causando a perplexidade dos colegas de primária, divididos entre Sporting, então dominante, Benfica, a preparar a epopeia de 60, e Belenenses, é feito memorável. Mostrando o jornal do clube - que, na altura, se publicava - , mais o cartão de sócio e o emblema. E passando por associado de clube de Oslo ou Estocolmo, tal era a distância psicológica que separava os meus amigos desse ente estranho que não conheciam, nos tempos em que não havia televisão nem auto-estradas nem idas ao Minho, salvo para os minhotos, que não existiam na minha escola.

E apenas o meu maior amigo, o Eduardo Barroso, me ouvia, com paciência e compreensão, falar dessa realidade longínqua, com curiosidade e difusa simpatia. As voltas que o mundo dá... À hora a que os leitores do Expresso online lerem estas linhas estaremos, ele e eu, a caminhar para o Jamor.

Ele, sportinguista frenético, a desejar uns 4-0 para os verdes, que atestem a boa saúde do seu plantel, como dizem os especialistas mais clássicos.

Eu, braguista que já testemunhou uma vitória e três derrotas na final da Taça, a desejar um inebriante 2-1 para os vermelhos e brancos, que relembre 1966, e desminta o peso do cálculo das probabilidades.

Se Deus cuidasse dessas minudências que são ,no mundo de hoje, as finais da Taça de Portugal, daria a vitória às minhas cores. Por uma questão de Justiça. Porque é muito mais fácil ao Sporting ir a uma final destas nos próximos 15 anos do que ao Braga lá chegar.

E 15 anos são 81 para cada um de nós dois. Ou seja, uma idade quase limite para podermos ir, pelo nosso pé e com capacidade cardíaca mínima, até ao Jamor.

Apesar de providencialista, não tenho, porém, ilusões: não havendo intervenção divina possível, resta a Sérgio Conceição e seus guerreiros fazerem reviver as horas de glória da minha infância. Permitindo-me regressar a 1957 e à honra solitária de ser Braga em Lisboa.

O Eduardo Barroso que espere um pouco... Apesar de tanta auto-estrada democrática,ainda é mais perto ir de Alvalade XXI ao Jamor do que do monumento de Souto Moura ao Estádio Nacional...