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O PIB já cresceu, Vieira?

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Tiago Miranda

Luís Filipe Vieira é um empresário que quis ser gestor e um chefe que quis ser líder. Está na crista da onda no Benfica, mas só tem problemas pela frente. Pedro Santos Guerreiro traça o perfil do presidente do Benfica.  

António Mexia deve ter-se arrependido um milhão de vezes de ter dito uma vez que seria bom para Portugal que o Benfica saísse do Dragão campeão, pois isso teria efeito positivo no Produto Interno Bruto. Primeiro recebeu a ira dos portistas. Depois viu o seu Benfica perdeu ao minuto 92 com o famoso golo de Kelvin que ajoelhou Jorge Jesus. Mas não ajoelhou Luís Filipe Vieira. Na altura, o presidente do Benfica foi o único que não quis correr com o treinador. Valeu a pena a teimosia. 

Este é um caso perfeito para explicar algumas características de Vieira: ficou sozinho, decidiu sozinho e mandou sozinho. O final de época havia sido torturante para os benfiquistas, que passaram de ganhar tudo para ganhar nada, e Jorge Jesus estava no pelourinho. Dois anos depois, está no altar. O Benfica é bicampeão, o que não acontecia desde os anos 80. Ontem limpou mais uma Taça da Liga. Só falta a Europa. Mas se pensarmos no estado calamitoso em que o Benfica estava quando Luís Filipe Vieira entrou pela porta da presidência, é fácil perceber porque está montado num andor.

A relação pessoal não se compara, mas em termos de crescimento de projeto futebolístico Vieira está para Jesus como nos anos 80 Pinto da Costa esteve para José Maria Pedroto. A dupla Jesus/Vieira pode até ser agora desfeita mas foi ela que montou não só uma equipa vitoriosa mas também um1 modelo de geração de receitas, que foi aliás o Porto que antes criou, de contratação de jogadores que são valorizados na equipa e vendidos com grandes margens de lucro.

Já vamos aos números, antes sublinhemos a dupla. Jorge Jesus e Luís Filipe Vieira são dois galos na mesma capoeira, aprenderam a suportar o ego um do outro, mas não aturam muitos mais. Jesus só tem um chefe, Vieira, mas não passa cartão a nenhum dos vice-presidentes e nem sequer respeita alguns deles. Curiosamente, com Vieira não é muito diferente.

Quem manda no Benfica é Vieira e, tirando o caso de Domingos Soares de Oliveira, o vice das finanças, na prática os outros estão lá a fazer pouco mais do que número. Vieira decide sem eles. Inclusive sem José Eduardo Moniz, que não tem vocação para espantalho mas aceitou um convite para ser vice-presidente que apenas pretenderia o que conseguiu: neutralizar aquele que poderia ser o maior desafiador na presidência do Benfica. Vieira conhece bem a máxima de Sun Tzu: mantém os seus amigos perto e os seus inimigos ainda mais perto. 

Voltemos aos negócios: Vieira vende sempre e vende tudo. Há jogadores talismã, como Mantorras foi, e houve apostas pessoais na mística, como a recuperação de Eusébio enquanto figura benfiquista protegida do seu próprio declínio público. Mas no que toca a jogadores Vieira não tem tabus: se a proposta for boa, vende sem pestanejar. O Benfica investiu muito na formação de jovens e deseja pouco secretamente que o centro do Seixal seja berço com mais descendentes que o centro de Alcochete, do Sporting. Por isso, Vieira quer mais miúdos na equipa principal. Mas até esses vende se o preço for bom. Para ele, não há jogadores insubstituíveis. Quando Garay foi vendido no ano passado, quebrando a dupla de centrais com Luisão que deixara os adeptos à beira do delírio, Vieira encolheu os ombros e disse que Jardel era tão bom como o outro. Surpreendentemente, Jardel foi um dos melhores jogadores da época que agora acaba.

Acontece que tantas receitas e tantas vendas não tranquilizam as contas do Benfica - ou melhor, a pressão dos seus credores. O passivo do clube é elevado, os custos financeiros pesados e a ordem para o próximo ano é para cortar. Vender jogadores caros não gera apenas receita com o encaixe, baixa os custos salariais. E tanto assim é necessário que Vieira quer cortar o próprio salário de Jesus, de quatro milhões de euros brutos por ano.

E a Benfica TV (agora BTV?). O Benfica insiste que a televisão lhe dá lucro, o que é verdade, mas esse lucro é inferior ao que teria se tivesse vendido os direitos de transmissão dos jogos da Luz à SportTV na última proposta que esteve em cima da mesa. Vieira queria 40 milhões, a proposta não chegou a 30, e ele insistiu no projeto, que acabou por ter um número de aderentes que parecia inimaginável, mas está por demonstrar o racional do negócio, coisa que ele próprio desmente. O que não precisa de demonstração é o poder que Vieira ganhou com o projeto: tornou-se independente, ele e o Benfica, do todo-o-poderoso Joaquim Oliveira.

Hoje, falta a Vieira um parceiro antigo: o Banco Espírito Santo. Foi não só um grande financiador do Benfica como do próprio Vieira nos seus negócios pessoais. O "seu" homem no BES esteve para suceder a Ricardo Salgado há um ano, mas acabou também ele caído em desgraça: Amílcar Morais Pires. Foi com ele que Vieira montou muitos negócios e chegou a ser um dos maiores devedores ao BES. No final, as suas empresas safaram parte dos empréstimos. Também a PT de Zeinal Bava era apoiante do clube, mas aí Vieira conseguiu atrair a Emirates, patrocinadora de clubes como o Real ou o PSG.

Ricardo Salgado não cometeria a imprudência de Mexia. Os gestores mediáticos, quando são calculistas, são sempre da Académica ou do Beleneneses – Salgado, um sportinguista de gema, respondia sempre que era do Botafogo. E quanto a PIB, a questão não é se uma população mais confiante gera mais consumo, investimento e inovação, mas sim se ganhar um campeonato de futebol gera confiança permanente ou apenas euforia passageira. 

Vieira não quer saber de economia mas tem como vaidade íntima afirmar-se como gestor e projetar o Benfica como uma organização com um nível de gestão como o de uma multinacional. A projeção é exagerada mas define uma ambição que não é apenas desportiva, é também empresarial. A empresa Benfica, o gestor Vieira. Já o PIB português é o que é: ou perde por muitos ou ganha por poucos. Qualquer que seja o campeão.