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O que sabe Figo sobre Blatter que não conta?

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José Ventura

Luís Figo não sabia que haveria detenções de dirigente da FIFA em processos de corrupção quando retirou a sua candidatura, mas as suas declarações pareciam premonições. 

"Assisti a episódios que devem envergonhar quem deseja um futebol livre." Nem uma semana passou desde que Luís Figo justificou, com frases como esta, a desistência da sua candidatura à presidência da FIFA. Para trás ficaram quatro meses de campanha por diversas federações – e muitas histórias.

Quando no final de janeiro anunciou a sua candidatura à presidência da FIFA, Figo já saberia que as probabilidades estavam contra si. Basta ler as notícias dessa altura, que apontam para um cenário provável de releeição de Joseph Blatter. Não porque tenha melhor programa, mas por dominar relações com federações que decidem a eleição.

Esta quarta feira de manhã, o Ministério da Justiça e a polícia da Suíça confirmaram a detenção, por acusações de corrupção, de sete altos dirigentes da FIFA, em Zurique, quando se encontravam num hotel na cidade. A lista de suspeitos é superior e não inclui Blatter. Inclui o vice-presidente e dirigente máximo da Confederação para a América Central e do Norte e Caraíbas, Jeffrey Webb, o também vice-presidente Eugenio Figueiredo, o brasileiro José Maria Marin, membro do comité da FIFA e o costa-riquenho Eduardo Li. Jack Warner, Julio Rocha, Costas Takkas, Rafael Esquivel e Nicolas Leoz são os outros nomes apanhados neste alegado esquema de corrupção, em que se suspeita de 150 milhões de dólares pagos em subornos e luvas em troca de acordos de direitos de transmissão e patrocínios de grandes competições. Extorsão, fraude e lavagem de dinheiro estão na  lista de crimes de que são suspeitos.

Em janeiro, Luís Figo avançou para a FIFA precisamente com um discurso anticorrupção: "foi uma decisão ponderada, assente na vontade de mudança" e que parte para uma espécie de limpeza moral da "reputação da FIFA". A missão, disse então o antigo jogador ao Expresso, é "dar mais transparência a uma instituição que vai perdendo credibilidade." "O futebol merece melhor", resumiu.

Quatro meses depois, Figo deitava a toalha ao chão. "Vi eu presidentes de federação que num dia comparavam os líderes da FIFA ao Diabo e no outro subiam ao palco a comparar as mesmas pessoas a Jesus Cristo. Ninguém me contou. Fui eu que presenciei", declarou na quinta-feira passada. "Os candidatos foram impedidos de se dirigir às federações em congressos enquanto um dos candidatos discursava sempre sozinho do alto de uma tribuna", exemplificou. E explicou que desistiu das eleições porque o processo “é um plebiscito de entrega do poder absoluto a um só homem [Blatter] - algo que me recuso a caucionar".

O comunicado então enviado (e que pode reler aqui) recebeu desprezo de Blatter, que afirmou que "Figo pode dizer o que quer".

E Figo disse mais: "Ao longo do tempo, a FIFA fez coisas positivas, mas hoje é uma organização que não é transparente, não é democrática. Não há lugar para as opiniões divergentes e os críticos são silenciados. Nesta campanha tive oportunidade de constatar isso", afirmou em entrevista à revista Veja, publicada na semana passada, que foi feita pela jornalista portuguesa Mafalda de Avelar. "Não necessito da FIFA para viver, não necessito da FIFA para respirar e por isso não tenho que ter receio de nada", completou.

Figo não se pronunciou desde que se soube das detenções de dirigentes da FIFA. Uma fonte próxima disse apenas que o antigo jogador português não ficou surpreendido. Não se sabe se Figo vai apresentar indícios ou informar instituições judiciais sobre aquilo que diz ter descoberto. As eleições na FIFA mantêm-se para esta sexta feira. O príncipe jordano Ali Bin al-Hussein é o único dos três que quiseram derrotar Blatter que ainda não desistiu da candidatura. A FIFA vai a eleições envolta em suspeitas e corrupção.