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A FIFA e a teoria do queijo suíço

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FOTO ABIR SULTAN/GETTY

Blatter está sentado no topo de um edifício esburacado pela corrupção. 

A teoria do queijo suíço diz-nos que os problemas acontecem quando os buraquinhos, que representam falhas, se alinham uns com outros, abrindo uma janela de oportunidade para as asneiras.

A FIFA, que tem sede na Suíça (Zurique) e é presidida por um suíço (Joseph Blatter), é o exemplo perfeito: são casos e casos de histórias mal contadas que se vão encaixando num edifício que apodrece por dentro com a corrupção que começa a ser vista de fora. A rocambolesca novela da investigação às candidaturas para os Mundiais de 2018 e 2022 é um passo em frente rumo ao descrédito total. Pergunta para queijinho: alguém será acusado? Quando um tipo é juiz e tem como missão assegurar que há decência na FIFA - é para isso que serve o cargo de chefe da Comissão de Ética -, espera-se que seja sério e, sobretudo, que leve a coisa a sério. Portanto, ninguém pôs em causa Hans-Joachim Eckert quando este apresentou, a 13 de novembro, um sumário de 42 páginas de um relatório da FIFA que ilibava tanto a Rússia como o Qatar das acusações de corrupção na atribuição dos Mundiais de 2018 e 2022. Não havia dinheiros por debaixo da mesa, subornos e prendas suspeitas.

Aparentemente, todos os intervenientes estavam limpos. Mas houve "comportamentos problemáticos por parte de alguns indivíduos à luz das regulamentos da FIFA [Qatar]" e os russos não apresentaram toda a documentação necessária porque a tinham apagado dos seus e-mails.

O resumo mal feito
Horas depois, o responsável pela investigação veio dizer que, afinal, o juiz se tinha enganado.

O resumo de 42 páginas de um documento que tinha 430 páginas estava cheio de meias verdades e não refletia as conclusões a que Michael Garcia chegara. Garcia, lembramos aqui, foi procurador-geral de Nova Iorque e quer que a FIFA abra o jogo. Segundo ele, as 430 páginas deviam ser públicas; segundo Eckert, "os assuntos internos" deviam "ser discutidos internamente".

Guerrinha civil. Garcia e Hans-Joachim Eckert quiseram falar do assunto em privado e combinaram reunir-se na sede da FIFA. Decidiram passar a batata quente para um terceiro elemento (Domenico Scala, o homem das finanças da FIFA).

Passaram-se apenas três dias até o "Daily Mail" trazer para a mesa duas das testemunhas do relatório de Michael Garcia.

Os nomes são complicados - a australiana Bonita Mersiades e a qatari Phaedra Almajid -, mas o que dizem é simples: houve corrupção. Ambas trabalharam nas candidaturas da Austrália e do Qatar e asseguraram que foi oferecido dinheiro ao Comité Executivo da FIFA para "projetos pessoais" dos seus elementos.

Agora, Bonita e Phaedra têm um alvo nas costas. "Prepara--te para sofrer. Prepara-te para nunca mais te sentires segura. E prepara-te para seres traída por aqueles que prometeram proteger-te", disse Phaedra. O FBI (sim, o FBI) decidiu abrir uma investigação a expensas próprias.

Agarrem-na ou vai-se embora
Os alemães foram os primeiros a ameaçar: ou a história da corrupção era bem explicada, tintim por tintim, ou então batiam com a porta. Em seguida, os ingleses juntaram-se-lhes, porque se sentiam humilhados - tinham colaborado na investigação e haviam sido criticados publicamente por Eckert por terem pago um jantar de €30 mil quando faziam lóbi pela candidatura ao Mundial.

Finalmente, a UEFA assumiu uma posição radical nos termos em que foi tomada mas que na prática não mudará nada, a não ser que vá avante com ela. Disse o organismo que dirige o futebol europeu que os países UEFA não compareceriam no Mundial de 2018 em protesto. David Bernstein, antigo presidente da Federação Inglesa de futebol (FA), disparou numa entrevista à BBC: "A FIFA é um regime totalitário a fazer lembrar o velho império soviético"; "A FIFA age de uma forma que vai muito além do ridículo"; "A única forma de tirar Blatter da FIFA é indo-lhe ao bolso"... Por outras palavras, um boicote.

Eu te acuso
A FIFA decidiu, enfim, agir. Num comunicado, revelou que enviou para a Procuradoria-Geral da Suíça uma lista de indivíduos com ligações ao país dos Cantões que podem ter participado em "trocas suspeitas de bens" durante o processo de candidaturas para os Mundiais de 2018 e 2022. E fê-lo porquê? Porque o tal juiz, Hans-Joachim Eckert, a aconselhou a fazer.

Curioso, sim, mas mais curiosa foi a expressão desprendida com que Joseph Blatter se referiu ao relatório de Garcia. "Ainda não o li, mas a investigação ao processo de candidaturas aos Mundiais de 2018 e 2022 está concluída." Pôncio Pilatos não diria melhor.


Texto publicado na edição impressa de 22 de novembro de 2014