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Sinais de fogo

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O finlandês, Jari-Matti Latvala conduz pela Volkswagen

JOSE COELHO/ EPA

Apesar da perturbação causada por um grande incêndio em Ponte de Lima, o primeiro dia da ronda minhota do Rali de Portugal foi um sucesso

A primeira coisa que me disseram quando cheguei 5ª feira ao fim do dia à Exponor (Leça da Palmeira), quartel-general do Rali de Portugal, era que havia um fogo monumental em Ponte de Lima, que já andava perto de algumas zonas do troço. Junto ao secretariado da prova, ouvia-se uma comunicação via rádio com Orlando Romana, um dos responsáveis pelo percurso. Era perceptível o som do crepitar das chamas e o apelo dos companheiros de trabalho: “Orlando mete-te no carro e sai mas é daí…”

Hoje de manhã bastava ir à janela para perceber que não tinha sido possível extinguir o incêndio. Iria haver prova? Depois da chuva em 2001 iria ser o fogo a dar cabo da reputação internacional da prova? Rapidamente, enquanto rolava a caminho de Viana do Castelo, a Antena 1 tranquilizava-me: a partir do carro 38 fôra preciso neutralizar o troço, atribuindo o tempo do último classificado aos concorrentes que não tinham podido disputar esta classificativa mas, fora isso, a prova continuava.

Nada que abalasse a fé da imensa multidão que desde manhã cedo ladeava os itinerários competitivos, muito menos a alma dos pilotos: três troços, três vencedores diferentes de manhã e todos separados por escassos segundos. “Isto sim”, dizia um veterano destas andanças com quem estava a apreciar a luta pelo primeiro lugar, que, até ao fim do dia não escaparia ao finlandês Latvalla, da VW: “isto é que é uma corrida de carros!”

Numa altura em que as relações entre espectadores de eventos desportivos e polícia não têm propriamente vivido o seu melhor momento, devo sublinhar que nunca vi militares da GNR tão afáveis e bem-dispostos como neste rali, coisa que, como é óbvio, não os impede de fazer o seu trabalho como deve ser. Até ajuda…

E foi graças às indicações de um destes militares que descobri um atalho maravilhoso e quase sem gente para o começo do troço matinal de Viana do Castelo, ainda a tempo de ver passar os últimos classificados, numa direita a subir bastante espectacular. Quando passou a única equipa feminina presente, alguns pândegos não resistiram e começaram com

piadolas: “Vi logo que só podiam ser gajas. Alguma vez se aponta a frente do carro daquela maneira?” Logo uma senhora, vinda da vizinha aldeia de Freixieiro de Soutelo, lhe respondeu: “Olha lá, ó tu. São mulheres e toda a mulher tem coisas que um homem não tem…” Comecei-me a rir e fiquei à espera de uma escalada da discussão com recurso ao colorido vernáculo minhoto mas as coisas ficaram por ali.

Nos velhos tempos eu andava feito doido, de classificativa em classificativa, a seguir os dez primeiros. Hoje, sexta-feira à tarde, resolvi fazer o oposto: instalei-me principescamente na zona VIP do troço de Caminha, com duas bancadas e tudo, e por lá fiquei, desde a abertura ao fecho do troço.

Era um gancho à direita, a subir, muito escavado, onde até os primeiros tinham dificuldade em pôr os cavalos todos no chão. Era quase uma curva do prólogo do Raid de Portalegre mas não deixa de ser impressionante ver como carros relativamente pequenos como os do WRC, além de andarem depressa, quando é preciso se comportam como verdadeiros jipes.

Único senão, o pó. Para se defender deste, o público deitou mão ao que pôde e a bancada tornou-se algo a meio caminho entre uma tribo de tuaregues envolvidos em lenços e um grupo de trolhas de máscara de pintar paredes…

Amanhã, entre Amarante, Baião e Vila Real, o rali volta à estrada, esperemos que sem mais incêndios.