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Na festa do Marquês perdeu o Benfica

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A Avenida Fontes Pereira de Melo acabou por ser a artéria mais violenta e os confrontos entre a PSP e adeptos do Benfica estenderam-se à zona do Saldanha e em direção ao Campo Pequeno

Nuno Botelho

Menos de uma hora depois do início, a festa do 34.º título nacional, à volta de uma estátua colocada a 34 metros de altura, acabou sem glória. 

O jogo em Guimarães foi tudo menos fácil. Mas mesmo sem ganhar o Benfica ganhou. À noite, no Marquês de Pombal, em Lisboa, tudo acabou por ser mais difícil. E, mesmo sem jogar, o Benfica acabou por perder. Confrontos entre adeptos e a polícia terminaram com feridos e detenções.

Estava o hino a tocar quando se abriu uma clareira. Desde as oito e meia da noite que não se via alcatrão na Rotunda do Marquês de Pombal. Quinze minutos depois da uma da manhã, dois grupos de adeptos envolveram-se em confrontos, arremessando pedras e garrafas de um lado para o outro. Quem foi apanhado no meio, escapou como pôde e, por isso, ficou um enorme quadrado vazio no meio da multidão. No instante seguinte, voaram garrafas na direção dos agentes da PSP que se encontravam junto à estátua, atrás das barreiras de segurança. O fim começou nesse instante. 

Os polícias deixaram as posições e começaram a correr atrás dos agressores, que se esconderam entre a multidão. Como uma onda, a enorme massa de gente começou a correr em todas as direções. A clareira junto ao Parque Eduardo VII cresceu mais ainda. O hino do Benfica continuava a tocar.

Do outro lado da estátua, diante dos olhos do Marquês de Pombal, a festa prosseguia. Muitos tinham esperado várias horas por aquele momento. Tal como previsto, a equipa chegou ao túnel pelas 0h30. Os mais avisados nem precisaram de ouvir o anúncio do speaker a anunciar que o avião tinha aterrado em Lisboa. Foram várias as pessoas que acompanharam a direto a viagem desde o Porto através de aplicações no telemóvel. "Está a passar nas Caldas da Rainha. Mais meia hora e estão aí", comentava um homem, meia hora antes de eles estarem ali.

E quando a espera acabou, começou o espetáculo. Os jogadores foram chamados um a um, pela ordem dos números na camisola. o guarda-redes Artur foi o primeiro, Gaitán foi um dos mais aplaudidos, tal como Jonas, e Luisão quase fez cair o Marquês com a festa dos adeptos. Jesus, que segurou a campeonato graças a um empate na cidade-berço e a outro em Belém, veio depois.

Chegado o treinador, seguiram-se os discursos. Falou Luisão, o capitão, e falou Luis Filipe Vieira, o presidente. Ambos para dizer que o título era de todos os benfiquistas. E eram muitos a ouvir. Depois, quando a equipa se mudou para o lado sul da estátua, de olhos voltados para o Tejo, o speaker pediu silêncio para se ouvir o hino.  As garrafas já voavam do outro lado e, como ondas num lago, a massa humana começou a mexer-se para todos os lados. Até chegar à vista dos jogadores. "Benfica não é briga. Não é isso não", disse Luisão perante milhares de pessoas que já não podiam ou conseguiam ouvi-lo. A PSP tinha entretanto reforçado o efectivo no local com elementos da Unidade Especial de Polícia e depressa ficou claro que a ordem era no sentido de evacuar toda a rotunda. 

A Avenida Fontes Pereira de Melo acabou por ser a artéria mais violenta e os confrontos estenderam-se à zona do Saldanha e em direção ao Campo Pequeno. A polícia confirmou a existência de vários feridos e detidos entre os adeptos do Benfica, mas sem avançar números oficiais. Menos de uma hora depois do início, a festa do 34.º titulo nacional, à volta de uma estátua colocada a 34 metros de altura, acabou sem glória. 

Os jogadores desapareceram pelo túnel por onde tinham chegado. A rotunda ficou vazia de gente e cheia de lixo. Às três da manhã, atrás dos polícias, dezenas de funcionários da Câmara Municipal de Lisboa empilhavam vidro e papel para ser recolhido. Aos poucos, a estrada e as zonas de relva voltavam a estar limpas. Como se nada tivesse acontecido. Nem a espera, nem a festa, nem o que veio depois.