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Da Luz ao Marquês são 700 km de distância

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O empate em Guimarães foi suficiente para o Benfica de Jorge Jesus voltar a ser bicampeão nacional 31 anos depois

HUGO DELGADO/Lusa

A ida do Benfica a Guimarães relatada por um adepto que é, também, jornalista do Expresso e que conta a sua versão desta aventura

Do Estádio da Luz ao Marquês de Pombal são menos de 10 km. Via Guimarães são, pelo menos, 700 km mas também lá vai dar. Demora é mais tempo embora tenha bastante mais graça…

Esta crónica é como as corridas de TT. É antecedida por um prólogo. Sábado almocei em Alcochete com os meus queridos colegas de curso do Instituto Superior Técnico. À saída, um dos empregados do restaurante que ouvira dizer que eu ia a Guimarães ver o jogo dizia-me, em tom melífluo: “Eu não percebo nada de bola, mas já viu que o Benfica pode empatar com o Vitória?” Ao que eu lhe respondi: “Até pode ser. Mas o meu amigo tem visto as notícias? É que se assim for, a Carris está a pensar criar uma carreira de verão. Chama-se Belém-Ajuda-Benfica…”

Não totalmente satisfeito, o meu interlocutor voltou à carga, levando a conversa para domínios mais esotéricos. “Mas olhe que o Bruxo de Fafe diz que recebeu dinheiro para fazer um feitiço e não deixar o Benfica ser campeão”. Respondi com a primeira coisa que me veio à cabeça: “Se eles têm o Bruxo de Fafe, nós temos a Bruxa Cavalona…”

E assim acabou o prólogo desta crónica. A grelha de partida colocava-nos domingo de manhã na Rua dos Soeiros, à porta da Luz, para encher o carro e seguir para a Cidade Berço. Alguns leitores saberão que tenho um ódio visceral às portagens, sobretudo às eletrónicas com pórticos e que lhes movo a minha pequena campanha pessoal de desobediência cívica, dando-lhes o mínimo de dinheiro possível a ganhar.

Consegue-se ir de Lisboa ao Porto sem perder muito tempo, usando a N1 entre Aveiras e Leiria e novamente entre Soure e Mealhada. Perde-se meia-hora ou 45 minutos mas poupam-se à volta de dez euros. Já dá para uma bifana e um jarro de tinto no “Bigodes” da Benedita…

De Santo Tirso para norte, pela A7, às três da tarde já era impressionante a quantidade de gente nos viadutos com adereços benfiquistas, discretamente vigiados pela GNR. Como Guimarães é uma das minhas cidades do coração, desde o tempo dos Guias do Expresso, estacionei no melhor e mais discreto local: atrás do centro comercial e do hospital. O cenário terrífico, ajudado a colorir pelos media não se confirmou: havia imensa gente na rua, polícia incluída, mas as anunciadas emboscadas de ferozes vimaranenses armados de pedras e varapaus, nem vê-las.

Manda a prudência, nestes jogos, entrar cedo e assim fizemos, acompanhados por alguns vizinhos de bancada na Luz, como o meu amigo Hugo Madeira também vindo até aqui desde Lisboa. Belo ambiente de estádio cheio, muito coração do lado vimaranense mas sinceramente nunca percebi por que razão, em vez de gritarem pela equipa deles se entretêm a fazer comentários soezes sobre o porte das nossas progenitoras e a fidelidade das nossas namoradas…

A boa disposição imperava: como as cadeiras estavam imundas de pó, logo alguém dizia: “Pudera, tirando hoje, nunca aqui ninguém senta o rabo…” O sentido de humor manteve-se quando, sucessivamente, Jonas e Lima falharam golos que até eu com os meus cabelos brancos teria metido. O mais surrealista momento ocorreu a poucos minutos do fim: com uma jogada perfeitamente inócua a decorrer no meio campo a bancada norte explodiu: não era preciso ser bruxo para adivinhar que o Belenenses tinha marcado ao Porto. “Foi o Carlos Martins?”, perguntava um vizinho de bancada. “Isso é que era lindo…” 

Logo a seguir, um momento de terror: as bancadas vimaranenses entraram em delírio. Teria o Porto voltado a marcar? Alguns telefonemas para aqueles senhores inteligentíssimos que tudo sabem, género Google ou Bola.pt, varreram a angústia: só estavam a festejar a derrota do Braga em Alvalade…

E foi assim que sem ter marcado um golo que se visse, o Benfica voltou, 31 anos depois, a ser bicampeão. E também foi assim que ficámos uma hora fechados na bancada até a PSP autorizar a abertura das portas, o que permitiu ver à frente da nossa porta (16/17), o episódio lamentável de três agentes da PSP usando de força despropositada contra um avô, um pai e duas crianças, cujas imagens passaram em todas as televisões.

O regresso, agora sempre por autoestrada (que se lixem as portagens, uma vez na vida, pensei eu) foi festivo. Cachos de gente nos viadutos da A7 e mesmo da A3, iluminados pelos faróis dos carros, enquanto lá em cima brilhavam as câmaras dos telemóveis. O bom senso mandava evitar as primeiras áreas de serviço, cheias de polícias e foliões e assim foi.

A chegada ao Marquês foi à uma da manhã, ainda a tempo do fogo de artifício. Os incidentes já não os presenciei mas era óbvio para quem tenha experiência de rua que as pessoas normais se estavam a ir embora em massa (afinal, o dia seguinte era de trabalho), o que fazia com que o peso dos arruaceiros na multidão se fosse tornando cada vez maior.

E assim terminou esta viagem da Luz para o Marquês pelo caminho mais longo. Mesmo depois disto, haverá sempre quem se recuse a admitir que o Benfica é o maior do mundo. Mas que Bruxa Cavalona pode mais que o Bruxo de Fafe, ninguém duvide…