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O benfiquista Pedro Adão e Silva escreve sobre o rival FCP. "A vitória anunciada que afinal não o foi"

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RAFAEL MARCHANTE / Reuters

Agosto de 2014, pelas bandas do Estádio da Luz assiste-se a uma debandada. A equipa que conquistou o triplete com nota artística está a sofrer uma sangria com poucos paralelos. Depois de perdidos Rodrigo, André Gomes e Garay, em poucos dias partem Siqueira, Oblak, Markovic, Cardozo e, percebe-se, Enzo acabará por sair. Entre saídas, a equipa faz uma pré-temporada medíocre, na qual maus resultados se combinam com a apresentação de uma meia-dúzia de jogadores sofríveis. O campeonato inicia-se sem uma solução para a baliza, sem um avançado para compensar a saída de Rodrigo e Cardozo, sem opções para o lugar 6 (posição chave no esquema de Jorge Jesus) e com uma defesa que parece uma manta de retalhos. Como se não bastasse, Rúben Amorim lesiona-se gravemente na 2ª jornada e junta-se a Fejsa. Repetir 2013-14 era uma miragem distante e o campeonato parecia entregue à partida. Desta feita, tudo dependia mesmo da capacidade de Jesus formar uma equipa e jogar com muitos “manéis”.

No Dragão a história era toda outra. Depois de uma época para esquecer, a equipa mantinha os jogadores de maior qualidade (Jackson, Danilo e Alex Sandro) e contrata meia-dúzia de talentos indiscutíveis. Dinheiro parece não faltar: para empréstimos luxuosos (Casemiro e Óliver) e para contratações proibitivas para o nosso campeonato (Adrián Lopez). Um treinador desconhecido não se limita a ter um voto de confiança incomum naquelas paragens (um contrato de 3 anos), como tem um plantel bem distante dos Licás, Carlos Eduardos e Josués que Paulo Fonseca havia tido ao seu dispor.

Em teoria, o campeonato iniciava-se com o terreno inclinado a favor do Porto, que não podia perder, enquanto o Benfica tinha tudo para entregar o ‘caneco’ nas jornadas iniciais. Como sabemos hoje, não foi assim que as coisas se passaram. O Benfica assumiu a liderança à 5ª jornada para, contra todas as probabilidades, nunca mais largar o comando. Já o Porto, habituado a gerir a sua posição hegemónica com todo o tipo de ajudas fora de campo, não compreende o que se está a passar, começa a ficar desorientado, e saca do discurso do “colinho”.

Na política costuma dizer-se que as eleições não se ganham, perdem-se. Talvez, na realidade, não seja bem assim e os resultados sejam sempre uma combinação particular de derrota com vitória. No futebol é um pouco o mesmo que acontece. O Benfica ganhou porque foi mais forte coletivamente e porque revelou estatura de campeão, resistindo psicologicamente. Mas o Porto também foi responsável pelo 34º campeonato do Benfica, na medida em que perdeu, quando tinha tudo para ganhar. Essa é, aliás, a grande novidade deste campeonato, quando comparado com os das últimas duas décadas.