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“Já não há Paneiras. 
Só os meus filhos”

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Rui Duarte Silva

Vítor Paneira,  ex-jogador 
do Vitória e do Benfica

Há jogadores de futebol e depois há Vítor Paneira. Parecia um tipo igual a tantos outros, mas quando entrava em campo metia cara de mau, fazia sempre a mesma finta, arrancava por ali fora e deixava os adeptos em delírio. Os do Benfica, onde foi “o” 7, entre 1988 e 1995, e os do Vitória de Guimarães, onde foi capitão, entre 1995 e 1999. Agora é treinador, mas sem clube desde a semana passada, quando foi despedido do Varzim. Uma dispensa imprevista, como aquela, em 1995, em que Artur Jorge o despachou da Luz.

Sair do Varzim foi uma surpresa?
Foi estranho. Dependíamos só de nós para subir à II Liga, mas há estas situações no futebol, não é muito normal, mas acontece. A rotura com o presidente [Pedro Faria] existia há mais de três meses. Desde o início da 2ª fase do campeonato que não havia diálogo entre treinador e presidente, portanto foi o acumular de algumas situações com as quais eu não estava de acordo, e tenho esse defeito: quando não estou de acordo, digo. O clube acabou por despedir-me.

Isso é um bocado como Marco Silva e Bruno de Carvalho...
[risos] Não, o Bruno de Carvalho foi mais inteligente.

Explica-me como é que um tipo do Norte calha ser do Benfica.
Já nasci benfiquista. Não sou por coincidência, por ter jogado lá. Para chegar ao Benfica fui observado pelo falecido Peres Bandeira, e acabou por surgir a oportunidade. Ainda fiquei um ano no Vizela e depois é que fui para baixo, em 88. Na altura, o Benfica tinha 60 ou 70 jogadores, eram logo dispensados metade. Pensei que também ia ser um deles, mas o Toni não deixou. Passados dois meses já estava a titular e passados três meses estava na seleção. E depois tive o trajeto que tive, por aí fora.

Não estava a perguntar-te pela tua contratação, era mesmo como é que um puto de Famalicão é do Benfica...
[risos] Acho que toda a gente é do Benfica. Até aqueles que não são, inconscientemente, são. Ou melhor, são contra o Benfica porque o que queriam mesmo era ser do Benfica, percebes? [risos] O meu pai era benfiquista, a minha família também. Famalicão tem a maior Casa do Benfica, por isso há muitos benfiquistas, mesmo estando a poucos quilómetros do Porto.

Será fácil ganhar em Guimarães?
Nada. E o Benfica sabe disso. Quase todos os clubes têm dificuldade em jogar em Guimarães. É um clube muito forte, com uma massa associativa extraordinária, e a equipa, estando bem e jogando bem, tem uma cumplicidade extraordinária. O Vitória tem o 12º jogador, que pode fazer a diferença.

E a tua relação com os adeptos?
Tenho muito boas recordações. Lembro-me de termos conseguido o 3º lugar. Com o Pimenta Machado, estivemos muito próximos de chegar à Liga dos Campeões, numa altura em que o Jaime Pacheco era treinador, mas depois ele acabou por sair de repente, um bocado como eu vivi agora esta situação no Varzim [risos]. Como jogador, realizei-me imenso. Fizemos grandes campanhas na Europa, eliminámos a Lazio, o Parma, o Anderlecht... E tínhamos uma ala direita terrível, terrível, terrível. Toda a gente, quando fala do Vitória, lembra-se daquela ala do Paneira, do Capucho e do Zé Carlos. E digo-te isto com convicção do que estou a dizer: era mesmo muito difícil jogar contra aquela ala direita [risos]. Recordo-me de que as equipas reforçavam aquela zona, mas nós éramos terríveis.

Falaste do Capucho e do José Carlos. Era com eles que te davas melhor?
Tinha uma boa relação com todos, mas há um que será sempre eterno como amigo, que é o Neno, desde que passámos sete anos no Benfica e depois quando fomos para o Vitória mais quatro anos.

E chamavas-lhe frangueiro?
Chamava de tudo ao Neno. Frangueiro, cantor... Ele tinha uma coisa curiosa. Nos pontapés de canto, eu ia para o poste, e quando via que ele não se ria na baliza ficava preocupado. Então, dizia-lhe: “Ó Neno, ri-te!” E usava uma outra palavra um bocadinho feia [risos]. Pronto! E ele olhava para mim e começava a rir-se: “Já estou bem.” E aquilo parecia que lhe dava confiança, porque voltava ao normal dele como homem, que é sempre a rir.

Mas tu não eras muito sorridente.
Não, era muito sério [risos]. Era mais palhaço cá fora.

O Benfica vai ser campeão?
Não sei se irá ganhar no domingo, mas vai ser campeão. Não estou a ver, muito sinceramente, uma equipa que está desde a 5ª jornada em 1º lugar perder pontos em dois jogos seguidos, que nunca aconteceu esta época. Mas o bonito no futebol é não termos certeza de nada. Recordo-me de o Eriksson uma vez contar uma história da altura em que era treinador da Roma. Chegaram à última jornada com possibilidade de serem campeões e jogavam em casa contra o último classificado. O presidente da Roma falou com ele e ofereceu-lhe um Ferrari se eles fossem campeões. Só dependiam deles. Perderam 1-0 e o campeonato.

És dos que vão ao Marquês?
Não, é muito longe [risos]. Não sou muito de festejar essas coisas. Janto, vejo o futebol e depois fico a acompanhar na televisão tudo aquilo que rodeia a festa. Não sou muito de ir para a rua festejar.

Esta equipa do Benfica, comparando com o teu tempo, é melhor ou pior?
O Benfica teve nestes seis anos seis grandes equipas. Possivelmente, esta, pela conjuntura e pela perda de alguns jogadores que estiveram lesionados, terá sido a que teve menos opções. No meu tempo tínhamos equipas fantásticas. Ainda há dias ouvi o João Malheiro dizer que o Benfica devia ter o melhor meio-campo do mundo na altura do Paulo Sousa, Futre, Vítor Paneira, Rui Costa, João Pinto, enfim... Era uma superequipa, com sete ou oito jogadores na seleção e mais três ou quatro na seleção do Brasil e dois ou três na da Suécia. Esta é uma boa equipa, mas não sei se será melhor.

Já não há é Paneiras...
[risos] Então não há?... Há os meus filhos Paneira. Dois rapazes e uma rapariga [risos].

São todos do Benfica?
Claro, têm de ser. Na minha casa, até os cães são do Benfica [risos]. Já não há Paneiras, em termos futebolísticos. O amor clubístico não é o mesmo. Só o sonho de jogar no Benfica, antes, movia montanhas. Agora já não é tanto assim. Ou melhor, isso já não existe sequer. Os jogadores, hoje, vivem mais para o negócio.

Lembras-te do que sentiste quando defrontaste o Benfica, pelo Vitória?
Lembro. E tenho uma história curiosa nesse jogo, se calhar um pouco malandra. A primeira vez que joguei contra o Benfica foi à 3ª jornada, na Luz. Nós éramos líderes do campeonato, tínhamos duas vitórias, e empatámos. Ou seja, despedi o Artur Jorge. 

Foi um gostinho especial...
Sim, porque foi ele que me dispensou do Benfica. Quando entrei no estádio, com o Vitória, fui assobiado e no final saí a ser aplaudido e a gritarem pelo meu nome.

O Benfica renasceu com Jesus?
O Jesus revelou-se um treinador extraordinário, que trouxe de volta a imagem de um Benfica à Benfica.

Se ele não renovar contrato, quem pode ser o sucessor?
Não sei, isso já é difícil.

Podias ter dito: “o Paneira”.
[risos] Era bom, era.