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Golinho, colinho, limpinho e outros diminutivos para o campeão

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JOSÉ COELHO / Lusa

Encontrámos 10 razões para explicar o título do Benfica. São quase todas boas e mesmo as que não são parecem que são.

1) Há coisas que mudando, não mudam 

Não foi assim há tanto tempo e nem aconteceu numa galáxia tão, tão distante. Por isso, convém não esquecer:  em 12 meses, entre janeiro de 2014 e janeiro de 2015, o Benfica perdeu Matíc, André Gomes, Rodrigo, Oblak, Garay, Cardozo, Markovic, Siqueira e Enzo Pérez. Oito jogadores de campo e um de baliza, o que dá nove. E o nove está apenas dois números do onze - e onze é uma equipa. Temeu-se o pior porque, ai-Jesus, lá se ia a estabilidade e a superequipa que tinha dado o título. E a Taça de Portugal. E a Taça da Liga. E a pré-época não foi má mas sim ruim (quatro golos marcados e doze sofridos em sete jogos)  e o caminho que estava à frente parecia o da Via Sacra. Só que... Só que às tantas Luisão deixou de estar lesionado e o Benfica reentrou nos eixos: ganhou a Supertaça ao Rio Ave e venceu o Paços de Ferreira por 2-0.  Acontece que o Benfica mudou, sim, mas manteve os discípulos de Jesus: Luisão, Maxi Pereira, Gaitán, Salvio e Lima, malta com muitos anos de casa e, sobretudo, alguns anos de J.J. que, por sua vez, já vai na sexta época na Luz. E isso faz a diferença, principalmente quando a concorrência muda de tijolo (Otamendi, Mangala e Fernando saíram) e de empreiteiro (Lopetegui entrou). 

2) O chico-fininho da Bahia 

Um bocadinho de Lapalisse nunca fez mal a ninguém: para ganhar é preciso que alguém marque golos. Não importa quem, como ou onde; desde que os faça a companhia agradece. E se o Benfica é campeão tem de agradecer a Talisca, um chico-fininho com uma cristazinha que de mansinho foi fazendo uns golinhos e (último diminutivo, prometo) que valeram pontinhos: até novembro, foram nove em jogos apertados como o Estoril-Benfica (bis no 3-2) e o Benfica-Rio Ave (1-0). Os fisiologistas dizem que Talisca entrou com a corda toda porque vinha lançado do Brasil onde o campeonato já andava; por isso, com a rodagem feita, o brasileiro da Bahia entrou em velocidade de cruzeiro quando outros estavam ainda em ponto-morto. Depois, foi o que se viu: perdeu gás, travou e estacionou. Entrou Jonas.  

3) Não é o 'Alan John'. É o Jonas 

O que é um bom negócio? Pagar pouco por muito, frase que se escreve com 18 letras, 13 a mais para aquilo que se explica em apenas cinco: J-o-n-a-s. O avançado chegou do Valencia onde estava encostado para ser vendido às arábias ou para ser incluído no negócio Rodrigo. Vieira disse que não aos valencianos e que sim ao brasileiro. E quando o mercado fechou, Jonas deixou de fingir-se morto e apareceu na Luz. Fora de forma. E fora do contexto. Demorou a entrar nas rotinas e fez o primeiro jogo em outubro, contra o Arouca e... marcou. No jogo seguinte, fez um hat-trick ao Covilhã. E foi assim que Jesus encontrou o par perfeito para Lima: um tipo fino e com "perfume" (diz J.J.) que foge do choque como se fosse feito de vidro e parte a louça quando está em frente à baliza.

STEVEN GOVERNO/LUSA

4) A invenção de Julen 

Isto não dá para todos e para que uns gozem o prato, outros ficam à míngua. Jesus tinha um plantel mais curto do que Lopetegui, é verdade, mas o espanhol não precisava de exagerar na rotação dos jogadores. Ou, pelo menos, devia tê-la adiado para outra altura. Não o fez e, à conta disso o Porto patinou, por exemplo, com o Guimarães (1-1, com Quintero e Ruben Neves em campo) e com o Boavista (0-0, com Evandro). Está nos livros de história que Roma e Pavia não se fizeram num dia; e é do senso-comum que um clube que contrata 13 futebolistas não pode andar a rodá-los enquanto estes não criam raízes. Foi aqui que o Benfica deu um esticão na classificação - em janeiro, tinha 6 pontos de vantagem sobre o Porto que recuperou alguns na segunda volta quando Lopetegui fixou o onze. Já era tarde.

5) Não me empates - estou a jogar 

E, agora, o Sporting. Em 2013/14, a equipa que era treinada por Leonardo Jardim andou resvés-Campo-de-Ourique com o Benfica e acabou a época em segundo. Para 2014/15, Bruno de Carvalho queria mais e disse que o Sporting estava ali para as curvas, porque arranjara novo treinador (Marco Silva), novos jogadores - e tinha Nani emprestado. Não chegou. Nos treze primeiros jogos, o Sporting empatou seis (quatro deles em casa) e perdeu um (em Guimarães, que deixou BdC piúrço, como se viu no Facebook). Metros depois do tiro de partida, o Sporting já só via os rivais à distância de um título perdido.

6) Em último? Eu? Nem pensar 

Não é preciso ser-se um génio para perceber que Jesus não queria jogar nas competições europeias - basta ouvi-lo no YouTube a fazer (mal) as contas à vida. "Em último do grupo? Nós não estamos em último." Mas estavam. E isso queria dizer que nem Liga dos Campeões nem Liga Europa - apenas a liga dos últimos. A campanha na UEFA foi desastrada - os portistas não se cansam de lembrar aos benfiquistas de que marcaram mais golos ao Bayern (4) do que o Benfica em todos jogos (2) todos da Champions - e deixou Vieira com cara de poucos amigos. A lógica de Jesus era a mesma de Bella Gutman: não há rabo para duas cadeiras. J.J. quis sentar-se em cima da Liga e deixou apeados a história e o prestígio e a reputação e os milhões. Mas deixou o cabedal dos seus jogadores folgado.  

JOSÉ MANUEL RIBEIRO/LUSA

7) O mestre e a tática 

Jesus gosta de ganhar mas o que ele gosta mais do que ganhar é gabar-se de que ganha. E do que ele faz para ganhar. E isso inclui algumas adaptações que se tomam por invenções, a mais conhecida de todas é a Fábio Coentrão e a última a reciclagem de Pizzi. Quando Enzo Pérez saiu em janeiro, o meio-campo do Benfica ficou entregue a Samaris, o grego que era número 8 e passou a 6, e a um vazio que seria preenchido por Talisca; acabou por ser de Pizzi. Mas o mérito de Jesus não é só este. O homem percebe da coisa; sobretudo, percebe como se deve defender com uma equipa pressionante e juntinha, que aciona a armadilha do fora-de-jogo sempre que alguém mais afoito aparece nas costas. Foi o que guarda-redes Quim nos disse no início da época: "Acho o Jesus fantástico na forma como comanda a defesa, mas digo-lhe já, a maneira como ele trabalha é difícil de seguir. Não é mesmo para toda a gente. Ele exige muito com a história da bola coberta bola descoberta: se o adversário que tem a bola está com alguém por perto, a equipa não se mexe, se o adversário que tem a bola está sem ninguém por perto, a equipa tem de recuar. E depois, aquela forma de defender à zona as bolas paradas é difícil de assimilar: os jogadores dão as mãos, todos numa mesma linha, e impedem os adversários de irem área dentro." Foi assim que travou o Porto no Dragão (ganhou 2-0) e na Luz (0-0). 

8) O forte da casa 

Há números malditos para os benfiquistas e o 92 é um deles porque lhes lembra um rapaz brasileiro de crista e pêlo na venta que fugiu a Roderick e agora está num museu: Kelvin. Mas 92 também foram os jogos consecutivos do Benfica a marcar golos na Luz - uma série que só acabou no clássico com o FC Porto. Ora, é em casa que os encarnados são irresistíveis: este ano, fizeram 44 golos, sofreram 4 e empataram apenas dois encontros, um com o Sporting (1-1), outro com o FC Porto (0-0).  Há quem diga que o Benfica usa o medo cénico a seu favor: tem uma média de 42.364 adeptos, mais dez mil do que o Sporting.  O Benfica foi levado ao colinho por quem gosta dele.

9) O futebol é um jogo de 11 contra 10 

E no final ganha o Benfica. Jesus bem pode dizer que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa - e que as expulsões não interessam para nada porque a equipa dele ganharia na mesma. Ok, mas então não se pode esquecer do que diz quando o vermelho lhe bate à porta: "Com a expulsão do Luisão tudo ficou mais complicado." Aconteceu no Rio Ave-Benfica (2-1) e ele não gostou. Mas vamos à contabilidade. O Benfica acabou oito jogos da Liga com mais um em campo: Moreirense (2), Penafiel, Gil Vicente, Académica, Estoril e Boavista.  

10) Foi uma limpeza com os grandes 

Os campeonatos ganham-se contra os pequenos e perdem-se contra os grandes - e Jesus sabe-o e basta rebobinar o filme até àquelas duas derrotas com o FC Porto em 2011/12 (Maicon) e 2012/13 (Kelvin) para encontrar uma resposta possível e plausível para os títulos que lhe fugiram. Este ano, tal como no de 2013/14, o Benfica de Jesus não perdeu um clássico (uma vitória e um empate) nem um dérbi (dois empates) - e todos estes foram jogos sem casos. Limpinho.