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A felicidade é uma rotunda

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Nuno Botelho

Ela do Benfica, ele do Sporting. Juntaram-se, encomendaram cerveja suficiente para encher uma carrinha e começaram a vender. Estavam à espera desde as três da tarde, ela mais confiante do que ele. “Se não for hoje, será para a semana. Se não for para a semana, devolvemos a cerveja e pronto. Fica o negócio por fazer.” Não ficou. O Benfica - e o Belenenses - ajudaram. Histórias da festa no Marquês.

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotojornalista

Há uma razão para o Marquês de Pombal estar virado para o Tejo. Contempla a cidade que o terramoto de 1755 destruiu e que ele ajudou a reconstruir. Este domingo de tarde, a menos de dez minutos do fim da penúltima jornada do campeonato, o sonho do Benfica parecia prestes a ruir: no Restelo, o Porto ganhava por 1-0. E em Guimarães tudo estava como tinha começado. Já havia muitas cabeças baixas quando alguém, uma rapariga, gritou golo. Os olhos viraram-se para o ecrã montado na esplanada de um quiosque na Avenida da Liberdade, mas nada. O golo era do Belenenses e, por isso, a festa começou.  E a rotunda à volta do homem que fez renascer a cidade de Lisboa começou a encher à espera dos bicampeões que vinham da cidade onde nasceu o país.

Duas horas antes, sentada na relva ao fundo do Parque Eduardo VII, Diana comia o mais depressa que conseguia. A ideia era acabar o hambúrguer de uma cadeia de fast-food para correr para a televisão disponível no restaurante de uma cadeia rival. “Acho que vamos ganhar com um golo mesmo à beira do fim”, garantia a rapariga vestida de vermelho. Acertou sem acertar. Veio de Cascais com uma amiga, Andreia. “Podíamos ter ido a Guimarães, mas ela não quis”, atirou Andreia. Diana encolheu os ombros. “Vamos ganhar, vais ver. E fazemos a festa aqui.”

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Na esplanada da Avenida da Liberdade, as bombas começaram a rebentar antes do apito final. E antes das bombas já tinha passado uma mulher a vender cachecóis do bicampeão. “Dez euros.” Mais acima, na Rotunda, Ana Santos e Luís Lopes esfregavam as mãos de contentes. Ela do Benfica, ele do Sporting. Juntaram-se, encomendaram cerveja suficiente para encher uma carrinha e começaram a vender. Estavam à espera desde as três da tarde, ela mais confiante do que ele. “Se não for hoje, será para a semana. Se não for para a semana, devolvemos a cerveja e pronto. Fica o negócio por fazer”.

A jogada de Helena Soares era mais arriscada. Veio com a prima, Maria, de Odivelas. Chegaram ao Marquês de Pombal às cinco e meia da tarde, convencidas de que o jogo seria transmitido num ecrã gigante. Estavam enganados. Não havia ecrã, nem jogo. Procurara uma sombra, sentaram e dividiram os phones para ouvir o relato no telemóvel. “Mesmo de frente para o Leão. A ver se hoje fica vermelho”, arriscava Maria. Estavam ambas equipadas a rigor, com camisola, cachecol e lanche. “Temos de ganhar”, explicava Helena. “Caso contrário durmo no tapete. O meu marido e o meu filho são do Sporting.” Calaram-se as duas de repente. “Estou triste, muito triste”, sussurrou Maria. O Porto tinha marcado no Restelo.

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É provável que a esta hora estejam as duas à deriva no mar de gente que enche a Rotunda. São 34 metros de pedra até à estátua. A figura de bronze tem 10 metros e foi apresentada publicamente em 1914, no ano em que começou a Grande Guerra. Estava pensada desde 1882, quando se celebrou o centenário da morte do Marquês de Pombal, mas por falta de dinheiro a construção foi sendo adiada. Acabou por ser inaugurada apenas em 1934 – ano em que o Sporting foi campeão. Curioso é que o autor da estátua – que morreu antes da inauguração – tinha sido também jogador do Sporting. E não só. Francisco dos Santos começou no Casa Pia, passou pelo Sport e Lisboa e, quando estudou em Roma, jogou também na Lazio, tendo mesmo sido capitão da equipa italiana.

Há doze anos, na revista Camões, Gabriela Carvalho lembrou que as festas na rotunda começaram muito antes de haver Marquês.  Ainda a estátua era apenas uma ideia e já se realizava na rotunda – onde na altura havia apenas espaço e árvores (o Parque Eduardo VII era terra que alguns, apesar de nada nascer, insistiam em cultivar) -  o 4.º centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo a Índia, em 1898. A feira franca que ocupava todo o último quarteirão à entrada do então parque da liberdade, mais ou menos onde estava o ecrã gigante que transmitia o Guimarães - Benfica. “Mas, nesse ano, mais importante ainda (…) era a festa e as suas grandes atrações, um elefante feito de pasta de papel e de madeira, descomunal, com sete metros de altura.” Foi levantado um palco para espetáculos, um coreto em forma de esfera armilar, armado no meio da praça, no preciso local onde hoje se ergue a estátua”, escreve Gabriela Carvalho.

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Às dez da noite, tudo é vermelho e a felicidade é uma rotunda. Há 105 anos, no dia em que nasceu a República, havia barricadas montadas na rotunda. No ano seguinte, houve um desfile de comemoração e uma parada militar. Este domingo à noite, a polícia começou a chegar, em força e em carrinhas do Corpo de Intervenção, pouco depois das nove da noite. A zona mais crítica é a saída do túnel, por onde está prevista a chegada dos novos campeões nacionais de futebol.

O Marquês de Pombal, já se disse, está virado para sul, para o Tejo e para a cidade que foi destruída pelo terramoto e pelas ondas que vieram do mar em 1755. “Enterrar os mortos e cuidar dos vivos”, terá dito na altura o homem que hoje apoia o braço no dorso do leão. Este domingo à noite, tudo à sua volta parece vivo e encarnado. O palco montado pelo Benfica dá a volta à base da estátua e mal deixa ver as esculturas em pedras. Só com esforço se percebe o cavalo que arrasta as redes – símbolo da indústria  e das pescas - ou os bois na lavoura. Virada para a avenida, logo acima das figuras de Plutão e de Poseidon, está uma mulher nua e com um lenço esvoaçando ao vento. Alguns dizem que é Lisboa, outros que é Portugal. Mas este domingo à noite, o lenço deve ser um cachecol. E do Benfica.

Nuno Botelho