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Frágil, lento, fora do tempo. E ainda bem

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Giorgio Perottino / Reuters

Hoje há Juventus-Real Madrid (TVI, 19h45) e do lado dos italianos estará um médio de 35 anos que desafiou as leis da física (e do físico e do futebol) e fez do trinco um tipo elegante. Pirlo.

Se quisermos descobrir a origem das verdades basta seguir-lhes o rasto até ao lugar onde estas nasceram, normalmente na cabeça de alguém que é ou que se julga importante. Mas o problema com as verdades (algumas, não todas) é a falta de provas que as sustentem. E destas surgem as mentiras mais perigosas - aquelas que tomamos como certas.  

E ninguém se lembrou disso quando o importante jornalista desportivo Gianni Brera escreveu que os italianos eram gente comezinha e sem cabedal para aguentar 90 minutos ombro a ombro com povos mais robustos. Por isso, disse Brera, o melhor era jogar na retranca e assim se fez luz sobre o catennacio que fez escola no futebolismo - defender sempre e atacar só pela certa.  

É um modo de vida como qualquer outro e  os clubes e a seleção lá do sítio até ganharam umas quantas coisas (12 Taças dos Campeões / Liga dos Campeões e quatro mundiais). Só que nessa estrada houve tipos talentosos que chegaram a becos sem saída; outros, felizmente, foram por atalhos.  

Um deles é Andrea Pirlo. 

O que hoje sabemos de Pirlo podíamos nunca ter sabido porque ele é mais ou menos aquilo que Brera presumia sobre os italianos - frágil, lento e não muito físico. São três problemas a mais para um médio e durante anos Pirlo andou para trás e para a frente sem se fixar.  

Começou como número 10 no Brescia e o Inter de Mircea Lucesecu foi buscá-lo em 1998 para depois emprestá-lo ao Reggina em 1999 por não ter jogo para playmaker; regressou aos nerazzurri em 2000 e foi novamente recambiado a meio da época seguinte, desta vez para o Brescia. E foi aí que nasceu pela segunda vez. 

Carlo Mazzone, o treinador, pô-lo nas costas do veteraníssimo Roberto Baggio e juntos encontraram a combinação do cofre - e o AC Milan pagou quase €18 milhões por Pirlo em 2001. Andrea estava pronto para dar o salto mas ficou em terra no primeiro ano: pelos rossoneri jogavam Rui Costa, Gattuso, Albertini, Redondo e Ambrosini, cinco centrocampistas em quem Carlo Ancelotti confiava e que o faziam desconfiar de Pirlo. Fez 18 jogos na liga italiana, 11 deles como suplente utilizado. 

Nacho Doce / Reuters

Uma vez mais, Pirlo estava parado - e já se sabe o que acontece a quem para. Para evitar a segunda morte anunciada, Andrea chegou-se a Ancelotti na pré-epoca de 2002-03 e propôs-lhe o negócio do século: "Abordou-me e sugeriu-me que eu o devia pôr a jogar à frente dos defesas. Eu estava cético: ele era um médio ofensivo e tinha a tendência de correr com a bola. Mas, ainda assim, resultou". 

Na sua biografia, Ancelotti conta-nos que experimentou Pirlo no lugar do trinco no Troféu Berlusconi e que esta tinha sido a melhor decisão que tomou na sua carreira. Construiu a equipa à volta dele e inventou a 'Árvore de Natal': um médio defensivo criativo, dois médios duros à frente do mesmo, um par de números 10 e um ponta-de-lança. 

Os números de Pirlo dispararam com Ancelotti, até 2009, e Leonardo, em 2010: 40 jogos (2002-03), 44 (2003-04), 43 (2004-05), 49 (2005-06), 52 (2006-07), 45 (2007-08), 29 (2008-09) e 43 (2009-10). E os títulos, também: dois campeonatos italianos, duas Ligas dos Campeões, duas Supertaças Europeias, uma Supertaça italiana e o Mundial-2006. 

O trinco deixara de ser o lugar ocupado pelo brutamontes porque Pirlo tornara carismática e cerebral a posição que vive entre o quarteto defensivo e o meio-campo. Não foi o primeiro, é verdade, porque Redondo, o tipo-mais-elegante-a-pisar-um-relvado, já o fizera no Real Madrid. Mas Pirlo durou mais porque teve menos lesões. Aliás, perdurou. 

Porque, apesar de tudo, Pirlo viria novamente a ser questionado. Quando Massimo Allegri chegou ao AC Milan, em 2010-11, achou por bem voltar aos tempos da velha senhora - trouxe o quebra-ossos Van Bommel e juntou-o a Ambrosini para um meio-campo de tanques onde não cabia a berlina de luxo. Aos 30 anos, Pirlo estava a mais no sítio onde dera mais - e foi para a Juventus fazer mais do mesmo: 41 jogos (2011-12), 45 (2012-13) e 45 (2013-14) e três campeonatos italianos.

Giorgio Perottino / Reuters

Esta época, tem 27 encontros nas pernas, já celebrou o quarto título de campeão consecutivo e, acima de tudo o resto, vergou Allegri. O homem que o achara ultrapassado no AC Milan fez dele o ponto de passagem de todo o jogo na Juventus. Que hoje disputa a meia-final da Liga dos Campeões contra o Real Madrid de Carlo Ancelotti. 

Para Pirlo, será um reencontro entre "pai e filho". Para Ancelotti, é a oportunidade para "rever um irmão". Para nós, é futebol. Do melhor.