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Um murro no estômago e uma mão na carteira

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Mayweather e Pacquiao têm um encontro milionário marcado para hoje em Las Vegas.

Uma história dentro de uma história dentro de outra história. A 15 de janeiro, num jogo de NBA entre os Heat e os Bucks, Floyd Mayweather e Manny Pacquiao trocaram dois dedos de conversa e um par de números de telemóvel à vista de todos - e ninguém quis saber mais de basquetebol.

O que interessava a quem ali estava e a quem via de casa, era perceber o que andariam eles a combinar. E quando aconteceria o que eles andariam a combinar. Os Heat lançaram o barro ao ecrã e puseram um frame de Manny à esquerda, outro de Floyd à direita, e uma frase interrogativa no meio de ambos: "Coming in 2015?" Claro que o barro pegou.

Os sorrisos cúmplices de Mayweather e Pacquiao mostraram que havia ali gato, mas o ditado diz-nos que a curiosidade não é amiga do bichano - nem do negócio. Em segredo, encontraram-se na suíte de hotel onde reviram protocolos, acertaram dinheiros e marcaram uma data e um lugar: 2 de maio, um sábado (amanhã), no casino MGM de Las Vegas.  Os dois melhores e mais mediáticos pugilistas do planeta cozinharam, ali e entre eles, o combate do século XXI.

As apresentações

Não vamos fugir ao cliché: senhoras e senhores, no canto direito, pesando 68 kg, com 22 títulos, 47 vitórias (26 delas por K.O.) e zero derrotas, Floyd 'Money' Mayweather; e no canto esquerdo, pesando 66 kg, com 20 títulos, 57 vitórias (38 delas por K.O.) e 5 derrotas, Manny 'Pacman' Pacquiao.

Mayweather e Pacquiao não são apenas os maiores pugilistas na categoria pesos meio-médios - são ícones deste desporto. Porquê? Porque ao contrário de outros e com outros pesos que nunca tiveram adversários à altura, o americano e o filipino combateram com os grandes nomes deste desporto, como Oscar de La Hoya ou Ricky Hatton. Derrotando lendas, tornaram-se lendas.

Mayweather e Pacquiao nunca se encontraram no ringue por conflito de agendas [por exemplo, Floyd retirou-se mais do que uma vez e também já esteve preso] ou divergências [Pacquiao recusou controlos antidoping nos moldes olímpicos] e o embate foi adiado consecutivamente desde 2009. Agora, escolheram um dia para defender dois legados: Mayweather nunca foi vencido profissionalmente e se perder deixa de ser perfeito; e se Pacquiao bater (o verbo é para ser entendido literalmente) Mayweather tornar-se-á o homem que fez o impossível.

Os estilos

No MGM estarão dois estilos tão distantes entre eles como a esquerda está da direita. Floyd Mayweather é um fala-barato arrogante, extrovertido e excêntrico que se fotografa na cama com maços e maços de notas e gere a carreira como um negócio - está sempre entre os atletas que mais ganham na lista anual da "Forbes".



E tem um histórico de violência doméstica que o leva a estar mais próximo do cobarde, do criminoso e do rufia de rua comum do que do desportista de elite. Mas, dentro do ringue, o destro Mayweather joga à defesa, com a boca fechada e  a cabeça no sítio. A sua ideia de boxe passa pela paciência e pelo contra-ataque: o americano esmurra e raramente sai esmurrado.

Manny Pacquiao é o oposto, porque fala pouco e baixinho, como o 'assassino' canhoto e silencioso que sempre que sobe ao ringue ataca sem piedade o adversário. É um tipo demolidor, agressivo e sem medo que avança como um aríete sobre um muro para destruí-lo do centro para os lados. E Pacquiao também é herói nacional, ator, cantor, ativista, político profissional e basquetebolista amador nas horas vagas.

Mas com tanto a dividi-lo há um gostinho que os une: o metal. Ambos já ganharam muito dinheiro - e preparam-se para ganhar mais. Muito mais.

Os milhões

O boxe é um desporto de somas e subtrações, porque se contam pontos, ringues e quantos assaltos faltam para o final. Os números geram outros números - e estes são quase obscenos. Por exemplo, o combate no MGM vai gerar 74 milhões de dólares (€66 milhões) em bilhética - o anterior recorde era de 20 milhões de dólares (€17,8 milhões), e aconteceu no Mayweather vs. Canelo Alvarez, de 2013. Depois, o bolo total dos direitos televisivos de transmissão já vai em 35 milhões de dólares (€31 milhões). Só nas Filipinas, a terra de Pacquiao, a Solar Television pagou €9 milhões. Além disso, o embate está a ser vendido em pay-per-view e três milhões de pessoas compraram-no a 90 ou 100 euros cada (em Portugal não há transmissão) - é como se o Uruguai inteiro tivesse puxado do cartão de crédito para ver Floyd Mayweather e Manny Pacquiao trocarem murros com um árbitro por perto.

E com tantos milhões em jogo, estúpido seria que os que dão o corpo pelo espetáculo não levassem uma fatia 'generosa'. Os jornais norte-americanos escrevem que Mayweather e Pacquiao decidiram que o primeiro ficaria com 60% das receitas do pay-per-view e o segundo com 40%. Isso dá quanto? 160 milhões de dólares (€143 milhões) para Floyd e 120 milhões dólares (€107 milhões) para Manny. Se o combate durar os 12 rounds, são 7,7 milhões de dólares por minuto.