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O poeta é um fingidor e o treinador é um adaptador

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Como é que um treinador gere um plantel de jogadores de três equipas? Luís Castro, do Porto B, explica como se vive em adaptação constante, chegando a treinar só com quatro jogadores. E uma nota importante: "Quem não tem alegria na cara não tem alegria nos pés, amigos".

A diferença entre o mister e o manager (na realidade o poeta não é para aqui chamado, perdoem o engodo) é grande, mas resume-se bem com uma ideia: um só se dá bem com o cheiro da relva, outro prefere o ar condicionado do camarote (e depois também há aqueles que são carne e peixe, à José Couceiro, mister-manager-presidente-diretor). Luís Castro, do Porto B, é um mister. Mas ninguém o diria, ao vê-lo a fazer uma das apresentações mais interessantes do Fórum do Treinador de futebol, que começou segunda-feira e acabou esta terça em Santarém. "Isto não é o meu habitat, o campo é que é. Mas não podia dizer que não ao meu presidente e lá tive de pensar em qualquer coisa para apresentar: as minhas preocupações numa época numa equipa B." 

Depois de ter sido coordenador da formação portista e de ter orientado os seniores antes da chegada de Julen Lopetegui, Luís Castro passou para a equipa B portista, que fornece vários jogadores às seleções nacionais jovens (e Gonçalo Paciência à equipa principal) e ocupa atualmente o 9º lugar da II Liga. "Tem as suas especificidades. É um plantel muito complexo, porque tem jogadores dos B, dos sub-17 aos sub-19 e dos seniores. Não há muita cultura de equipa B em Portugal e isso cria algumas dificuldades. O mercado de inverno, por exemplo, é um caos para nós, porque há uma instabilidade muito grande nos jogadores." 

Como já disse alguém (que não foi Darwin, mas podia ter sido), quem não se adapta, morre. Ou seja, mister que não é flexível, sofre. "Começamos a época a pensar: 'vou fazer tudo isto'. Mas depois vemos que não podemos fazer nada disto. Cheguei a ter numa semana apenas dois guarda-redes e dois jogadores de campo para treinar. Vivemos em adaptação constante porque temos de planear um treino sem condicionar os nossos objetivos e ainda temos de pensar na satisfação do jogador, porque quem não tem alegria na cara não tem alegria nos pés, amigos." 

E não é só o mister que tem de se adaptar: os jogadores também. "Os nossos jogadores têm de ter inteligência de jogo, que é algo que nós não vemos mas sentimos se o jogador tem ou não. Não queremos jogadores que são anarcas em campo, que desequilibram a equipa. A nossa ideia é proporcionar o contexto ideal para o crescimento, por isso a construção do meu jogo não pode ser o meu lateral a meter a bola no avançado, senão o meio campo não joga. Quando falo com os seniores e lhes pergunto do que é que eles gostam quando os mais novos vão treinar com eles, eles dizem 'mister, nós gostamos daqueles que chegam cá e não têm medo de dar linhas de passe e pedir a bola para eles." 

Só que nem sempre os B estão prontos a ser A, mesmo quando os adeptos já acham que sim. "A inteligência de jogo envolve muitas decisões: participo na posse ou fico em equilíbrio, dou linha de passe para a circulação ou entro para a zona de finalização, vou no um para um ou espero ajuda... Há muito para trabalhar e é difícil trabalhar o lado aquisitivo do treino quando temos 21 jogos em três meses, como tivemos agora. Muitas vezes aquilo que parece que está pronto num determinado contexto, não está pronto noutro contexto." O mister é que sabe. Porque o cheiro da relva não é o mesmo do camarote.