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O clássico que foi um zero à esquerda - e um zero à direita

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Benfica-FC Porto empataram (0-0) num jogo em que as ocasiões foram poucas e os disparates alguns. Sobretudo naqueles piores 45 minutos da história do clássico. O resultado é melhor para Jesus do que para Lopetegui, que passa a depender de terceiros para chegar a primeiro

Carta a Jorge Fernando Pinheiro de Jesus e Julen Lopetegui Argote

Exmos Senhores:

Não sou um dos 64 mil que estiveram na Luz e se isto vos parecer injusto - porque o que escrevo, escrevo-o a partir do que vejo de uma televisão - peço-vos desculpa. Mas aqui vai.

Bem sei que isto está quase no fim e que todos os pontinhos contam, sobretudo quando entre um e outro há apenas três de distância. E também sei que o segredo e o bluff e os mind games fazem parte do jogo. Portanto: ok, mister Jesus, concedo que a rábula do não-joga-mas-joga de Salvio é um mal necessário para tentar condicionar a estratégia do mister Lopetegui; e, ok, mister Lopetegui entendo-o quando diz que Munique é passado [o 6-1 é histórico e a história não se apaga] e que o clássico é que é vital, coisa que o mister Jesus nunca dirá porque, para ele, há sempre muito campeonato pela frente - até deixar de haver.

O que não aceito muito bem é aquilo que está a acontecer nestes 45 minutos, que me parecem os piores de sempre de um Benfica - FC Porto ou de um FC Porto - Benfica. Pergunto-lhe, mister Jesus, o que é feito daquelas jogadas de pé para pé, das tabelas, do Jonas (que anda perdido), das notas artísticas e da tração à frente? É que só vejo repelões e chutos para o ar. E, mister Lopetegui, onde está a posse, os extremos e a profundidade? É que daqui vejo um meio-campo com quatro [Casemiro, Ruben, Oliver e Evandro (?)] e não com três e isso pode parecer-nos a todos - que gostamos de bola - que está com medo.

Ou então é tática. 

É que estou aqui a fazer contas à vida e já vou em mais de 20 faltas, dois cantos, dois amarelos - e apenas um remate à baliza, de Jackson, que sai por cima da baliza de Júlio César. O que é mau. Os jogadores perdem-se num toma-lá-dá-cá ou num toma-lá-que-é-para-aprenderes e outras expressões hifenizadas e há dois momentos que definem este clássico na primeira parte: quando Talisca se embrulha com Samaris numa altura em que podia construir uma jogada de ataque; e quando é Jackson a magoar o colega Marcano num cabeceamento. São coisas que acontecem? Claro que sim. Mas este é um clássico e supostamente num clássico as coisas que acontecem são boas porque os jogadores são bons e fazem coisas bonitas.

[Estas últimas palavras não são minhas - fui buscá-las ao baú de Artur Jorge]

Ora, pode parecer um disparate culpar-vos por isso, que estão a correr confinados num banco de suplentes e não lá dentro. Mas, mister Jesus e mister Lopetegui, algo terão feito ou dito ao intervalo, porque esta segunda-parte me (a)parece, toda ela, um outro jogo. Um outro clássico. Há velocidade. Há ataques e há contra-ataques. Há guarda-redes a defender remates e gente a atacar com remates. Há Quaresma e Herrera. E não há Evandro. E não há Talisca.

O seu Porto, Lopetegui, fez um bocadinho mais pela vida, porque precisava mais de ganhar e trocou jogadores para marcar o golo. E o seu Benfica, Jesus, fez o que tinha a fazer, que era manter-se à distância, e trocou para evitar sofrer o golo.

E agora que acabou, os senhores poder-me-ão responder: "Sim, foi melhor, mas não houve muitas ocasiões." É verdade mas pelo menos nos segundos 45 minutos o clássico não esteve entalado na lua cheia do meio-campo, jogou-se um bocadinho nas outras meias-luas e até acabou convosco aluados à entrada do túnel quando Jorge Sousa apitou.

Não sei o que terão gritado um ao outro, mas bem que podiam ter combinado um outro clássico. Desta vez a sério. E sem medo. Porque como este já não se via desde 2001, e este foi um zero à esquerda - e um zero à direita.