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"Jesus já perdeu títulos nos jogos decisivos. Aquilo vai estar sempre no subconsciente dele"

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Vencedor. Jesualdo Ferreira foi tricampeão no Porto e está quase a ser campeão no Egito

Miguel Vidal/Reuters

Aos 68 anos, Jesualdo Ferreira já passou por nove clássicos: oito pelo Porto e um pelo Benfica. Falámos com ele para perceber o que pode decidir o jogo deste domingo (17h00, BTV). Uma pista: não é o 'mister'. "Há vezes em que o treinador é impotente durante os clássicos."

Mariana Cabral

Que tal estes dois meses no Egito, com o Zamalek? As coisas não estão fáceis, embora os resultados sejam bons: foram cinco vitórias e um empate, e só sofremos um golo. Não é brilhante, mas é bom. Continuamos à frente do campeonato, com quatro pontos de avanço - que podem ser sete se ganharmos o jogo que temos em atraso. O problema é que os jogos acumularam-se depois da paragem de dois meses que tivemos, devido aos incidentes trágicos. 

O campeonato parou mesmo quando o Jesualdo chegou. Cheguei em fevereiro e fui assistir ao Zamalek-Enbu, quando aconteceram os distúrbios que mataram 20 e tal adeptos. Foi uma tragédia com implicações fortes, até porque o Zamalek tem 30 milhões de adeptos - não sei se é verdade, mas é o que me dizem - e houve muito dramatismo, havendo quem dissesse para se parar com o futebol ou acabar com o Zamalek. A equipa jogava no Cairo, mas agora tem de jogar fora, porque não havia condições de segurança suficientes lá. Claro que a paragem é má, mas foram dois meses que tiveram aspetos positivos porque nos possibilitaram trabalhar com tempo e introduzir novos hábitos, mais profissionais, nos jogadores e conhecê-los melhor.

O que quer dizer com hábitos mais profissionais? Quando chegamos a um país estrangeiro e com hábitos culturais muito diferentes há sempre um período de adaptação. Naturalmente colocamos a Europa como patamar de maior exigência no futebol profissional, por isso é que às vezes os jogadores que vêm de outros sítios têm dificuldade em adaptar-se. Apesar de o Zamalek ser um clube grande, com um historial de mais de 100 anos e de ser top três em África, não deixa de ter uma cultura de trabalho que às vezes não é a mais profissional. Que o diga o Manuel José, que esteve cá sete anos, eu só estou há dois.

Nacho Doce/Reuters

E o que conseguiu mudar? Regras básicas para uma equipa trabalhar bem. A postura no treino já não é a mesma, as horas a que eles gostam de treinar... bem, e agora vem aí o Ramadão, outro problema [risos]. Os egípcios gostam de jantar tarde, dormir tarde, não tem o hábito do pequeno almoço... E enquadrar isto numa atividade física profissional não é fácil. Foram necessários ajustes. Estou a ter na parte final da minha vida uma das experiências mais complicadas da minha carreira de treinador. O que vale é que já tenho muito 'background'.

Tem 68 anos, certo? Tenho 68, tenho, e quarenta anos de futebol. E, como se costuma dizer, nunca me tocou um bife de qualidade [risos]. Normalmalmente para onde fui aconteceu tudo ao contrário, já na Grécia, no Panathinaikos, foi igual. Mas já me habituei a estas lutas.

O Porto não era um bife de qualidade? Era, era, mas entrei num momento muito complicado para o clube. Mas foi o bife mais limpo que tive. Mesmo naquele momento difícil. Ó Mariana, veja lá como é que põe aí esta história do bife, hein? [risos] Isto é só uma maneira de dizer as coisas.

Nacho Doce/Reuters

Não se preocupe com isso. O Porto foi a melhor parte da sua carreira? Sim, o Porto foi o melhor tempo da minha carreira. Foram quatro anos muito intensos, de sucessos e vitórias. No Porto os objetivos passam por duas coisas, sempre: ser campeão nacional e passar a fase de grupos da Champions. Nesses quatros anos, só falhei uma vez esses objetivos, cumpri sete. Também gostei de ser treinador do Benfica, claro, mas apanhei uma fase mais complicada do clube. E também adorei o Sporting. Mas também não era um bife limpo [risos].

Mesmo assim era tudo mais fácil do que no Egito, não? Aqui não entendo nada do que dizem e escrevem, é como estar no meio do mar, abandonado num barco, e só dá para me guiar pelas estrelas [risos]. Tenho um tradutor e sei que as expressões gestuais são muito importantes. E vivo isto com muita paixão.

Vai ver o clássico? Não vou conseguir ver, porque vou para Alexandria nesse dia. Tenho visto alguns jogos da Liga portuguesa, menos do Benfica, que esses são da Benfica TV e é mais difícil. No dia do Bayern-Porto e do Barça-PSG até me irritei, porque toda a gente aqui só queria ver o Barça. Mas lá arranjei uma televisão meio perdida, ao longe, onde vi o jogo. Também foi um jogo que não foi muito feliz. Ao contrário do Porto-Bayern, que foi notável para o Porto.

Miguel Vidal/Reuters

O Lopetegui inventou ao pôr o Reyes a lateral e no dia seguinte recordou-se a invenção do Jesualdo, que jogou com o central Nuno André Coelho no meio-campo contra o Arsenal, em 2009/10, e perdeu 5-0. Pois eu sei que se falou disso, mas falou-se errado. Porque naquela altura não tinha mais ninguém para pôr ali, o Fernando que era o titular estava lesionado. Realmente um dos problemas do Porto em Munique foi não ter os dois laterais, que são do topo mundial. Mas se aquilo tivesse corrido bem e o Porto tivesse passado, aí o Lopetegui já tinha sido magnífico. O Nuno André Coelho não foi invenção, foi uma necessidade e escolhi-o porque pensei que ajudasse nas bolas paradas. Não correu bem, mas a culpa não foi dele. E atenção que estas equipas de agora do Arsenal e do Manchester são primas das outras. Naquela altura eram topo.

Pelas minhas contas esteve em nove clássicos, pelo Porto e pelo Benfica. É verdade. No meu tempo de treinador do Porto só perdi uma vez, no célebre jogo do túnel. O jogo deste domingo vai ser muito complicado para o Benfica, porque já percebeu que joga o título ali, mas também para o Porto, que pode passar a época sem ganhar nada, que é uma coisa que não é muito frequente. É decisivo, sem dúvida.

O Jesualdo defrontou o Jesus. Tem ideia de ele ser muito cauteloso, demasiado, se calhar, nestes jogos? A realidade é que o Jesus já perdeu títulos nos jogos decisivos e, quer queira quer não, aquilo vai estar sempre no subconsciente dele. Mas também digo que os jogadores é que jogam. Há vezes em que o treinador é impotente durante os clássicos.

Ana Baião

Acha que faltam portistas que entendam bem o que é um clássico? Na minha altura os mais portistas eram o Bruno Alves e o Meireles. E o Lucho, que apesar de ser estrangeiro sentia muito as coisas. No Porto em seis meses é muito fácil perceber o que é a cultura do clube e o que é a rivalidade com o Benfica. Não conheço bem o balneário atual, mas devem ter consciência que se o Benfica ganha outra vez, é um feito que já não acontece há muitos, muitos anos.

Como se mentaliza os jogadores para estes jogos? Não é preciso dizer muita coisa, em termos motivacionais. Complicado é nos jogos com o Beira-Mar, com todo o respeito pelo Beira-Mar. Nestes jogos todos estão motivados e as coisas decidem-se por questões de detalhe que são trabalhadas antes. Para o treinador é um dia de descanso [risos], porque não há muito trabalho. Mas é um dia terrível. Por exemplo, o último clássico que fiz, no Dragão, em 2010. Já não podíamos ser campeões mas o Benfica podia sê-lo ali, se ganhasse, e os jogadores perceberam bem a importância daquele jogo. Ganhámos 3-1.

A sua mulher ainda não lhe pediu para voltar para casa? Ela já esteve aqui comigo. Mas isso já me pediu há muito tempo. Só que isto é uma paixão muito forte que tenho, não consigo estar parado. Quando saí do Braga fiz uns comentários na TV, mas não deu, preciso mesmo do campo.

O Van Gaal diz que quando acabar esta época vai para o Algarve gozar a reforma. E o Jesualdo? Isso é porque ele tem uma casa porreira no Algarve [risos]. Eu não tenho. Mas não acredito que ele faça isso assim, sinceramente. Quando nós estamos habituados a ganhar, ficamos com uma dificuldade muito grande em perder esse sabor da vitória. [pausa] Boa maneira de acabar esta conversa, não acha?