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Ele é Fernando Santos, ela é uma "rapariguinha". Ela manda nele e ele gosta

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FOTO MÁRIO CRUZ / LUSA

Selecionador esteve no Fórum do Treinador a explicar como se fez mister, como é que a seleção joga e quem é que manda no futebol. Atenção: é uma ela. 

Vamos pôr as coisas em linguagem futebolística: Fernando Santos não é homem de rodriguinhos. Se querem ver fintas, simulações e pontapés de bicicleta a coisa não é com ele. O selecionador nacional é um tipo prático, que acorda a pensar no que pode fazer com o que tem e não adormece a sonhar com o que não tem. 

Porquê? Porque ele pode tentar, mas não é ele que manda no futebol. Quem manda é ela. E ele deixa-se mandar. "Nós sabemos como queremos jogar, mas quem manda nisto é ela, é aquela rapariguinha redonda que anda para ali. Nós queremos ter posse de bola, mas a aplicação prática depende sempre do adversário. Então o adversário não joga? Às vezes mandas pontapés para a bancada porque o jogo não dá para mais. Ah pois!" 

O selecionador nacional abriu o Fórum do Treinador, em Santarém, um evento organizado anualmente pela Associação Nacional de Treinadores de Futebol, com uma conversa de uma hora sobre a evolução do jogador de futebol, o que fez dele treinador e o modelo de jogo da seleção nacional. E ainda houve tempo para falar sobre o Bayern de Munique-Porto e concordar com Paulo Bento no caso Ricardo Carvalho. 

Vamos por partes. A evolução do jogador. "É verdade que para jogar futebol não é preciso ter a 1ª classe, é preciso é jeito para jogar. Mas hoje em dia, intelectualmente os jogadores estão diferentes, gostam de perceber aquilo que se faz, têm um interesse redobrado nas questões tácticas. No nosso tempo queríamos era jogar." 

Ser treinador é fácil, mas só quando se está na bancada. "Há para aí dez milhões de treinadores. Mas a questão central é saber treinar para jogar, porque ver o jogo toda a gente vê: o 4-3-3, o 4-4-4, o 5-5-5. O que é complexo é treinar para que no jogo aconteça o que nós treinamos. Quando comecei a ser treinador, em 1977, no Estoril, fui pelo conhecimento empírico, via os outros treinadores e seguia os exemplos - até treinador de guarda-redes fui. O Jimmy Hagan no Benfica marcou-me porque treinava todas as vertentes do jogo em cada treino, não separava por dias o físico, o técnico e as restantes vertentes como então se fazia - há aqui gente que se lembra disso de certeza, o Humberto [Coelho], coitado, foi um dos que sofreu muito [risos]." 

O futebol é marcar e não deixar que os outros marquem. E o resto logo se vê. "Cada vez mais é um confronto de estratégias. As equipas pequenas, por exemplo, vivem de adaptação permanente. Se queres obter resultados tens de ter capacidade para te adaptar, porque a qualidade às vezes não é suficiente para se imporem. O Bayern, no segundo jogo com o Porto, teve uma adaptação estratégica muito clara na saída de jogo, porque o Porto na primeira mão condicionava o médio centro. Então o central começou a sair com a bola em condução e o Porto não foi capaz de resolver." 

Mais: "Quando era treinador do Estoril, lembro-me que o Barcelona do Cruyff veio cá fazer um jogo com o Belenenses e aquilo era impressionante, rabias de cinco metros e os gajos do meio não tocavam na bola. No Barcelona, aquilo era totalmente válido, mas numa equipa em que a qualidade dos artistas não é a mesma... continua a ser válido, mas os resultados se calhar não vão ser os mesmos". Ah pois. Prático. 

A nossa seleção de 4-3-3 passou à seleção de Santos 4-4-2. "É uma equipa de acordo com aquilo que eu penso, tenho é pouco tempo para treinar. Quero que seja uma equipa de posse de bola, que saia a jogar, privilegie o ataque organizado, mas que também aproveite o ataque rápido, não permita que o adversário saia a jogar... Quando cheguei, olhei para as características dos jogadores e só porque queria jogar em 4-3-3 ia deixar de fora os melhores? Tive de fazer uma adaptação em termos estruturais." 

Paulo Bento e a disciplina na seleção. "Todos os treinadores são disciplinadores. O Paulo tomou as decisões que tinha de tomar e fez bem perante as circunstâncias. Era o líder e fez o que tinha de fazer. Depois passou-se para outra fase, com outro líder, e as coisas são diferentes." Ah pois. O que (lhe) interessa é ganhar.