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Deslocados de luxo

Obrigados a sair das suas casas, os deslocados de Fukushima perderam tudo. Mas a culpa não morre solteira na terra do Sol Nascente.

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As “casas temporárias” acolhem os refugiados/deslocados do acidente nuclear de Fukushima, que se sucedeu ao terramoto e ao tsunam,
Cada deslocado (ou família) teve direito a uma casa, com mobiliário sumário, cozinha equipada, televisão, ar condicionado

Já vi muitos campos de refugiados, em várias partes do mundo e bastantes deles na Europa, no tempo da guerra dos Balcãs e dos desentendimentos pós-soviéticos. Mas nunca como no Japão: pequenas casinhas, todas alinhadas, certinhas, quase de bonecas.

Chamam-lhe "casas temporárias" e é isso mesmo que são. Acolhem os refugiados/deslocados do acidente nuclear de Fukushima, que se sucedeu ao terramoto e ao tsunami, numa espécie de terceiro cavaleiro do apocalipse. Mais de 300 mil pessoas que viviam nos 23 municípios da região foram deslocadas e espalhadas pelo território do país.

Vi hoje algumas delas em Aizu Wakamatsu, uma cidadezinha de 20 mil habitantes do interior da província de Fukushima, que acolheu sete mil desses seus compatriotas. Agora já não chegam a cinco mil e dizia Takemi, o motorista, que ninguém dá por eles: têm carro, não saem à noite e fazem as suas compras nos centros comunitários que foram abertos em cada campo.

Seis tatamis por quatro


Nevou o dia todo, fazia um frio de rachar, mas no centro e nas casas estava acolhedor e quente. Não há grandezas, mas cada casa(inha) tem dois quartos, um de "seis tatamis, outro de quatro", que é assim que se medem os compartimentos nas casas. Tatami, para além do nome do tipo de piso, é também o colchão que se põe no chão para dormir e se recolhe de manhã. Cada um tem 90 por 180 cm.

Cada deslocado (ou família) teve direito a uma casa, com mobiliário sumário, cozinha equipada, televisão, ar condicionado. Uma família com dois filhos adolescentes pode ocupar duas casas. A cada um, grande ou pequeno, a Tepco, a companhia proprietária da central nuclear, foi obrigada a dar uma indemnização mensal de 100 mil ienes (mil euros arredondados), para além de um valor inicial que contabilizou alguns milhões, consoante as famílias. A sociedade é rica, a Tepco é culpada e a vida é muito cara, mesmo numa cidadezinha do interior.

Mas as indemnizações não vão ficar por aqui. Os jornais de hoje, para além de darem conta de um relatório que acusa o primeiro-ministro da altura de má gestão da crise ("Uma receita para o desastre", titulava um deles) anunciavam também que a Tepco ainda vai ter de pagar a cada grávida ou menor de 18 anos mais 600 mil ienes (cerca de 6000 euros) que tenha deixado voluntariamente a sua casa por causa de Fukushima. No Japão não se brinca.


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