O que é que passa pela cabeça de portugueses que, depois de várias experiências de sucesso no estrangeiro, decidem voltar para um país que vive uma das suas piores crises?
Augusto Fraga foi para Espanha para fazer um estágio de seis meses. Acabou por ficar seis anos. Nasceu nos Açores e, com 10 anos, foi viver para Aveiro. Em Braga estudou Comunicação Audiovisual. Terminado o curso, rumou a Barcelona e, na capital da Catalunha, começou por estagiar na RCR Filmes. Hoje é um dos sete realizadores desta produtora de publicidade espanhola. Depois de ter vivido quase uma década no país vizinho, decidiu ter poiso fixo em Portugal. Com ele trouxe a sua cara-metade, que lhe deu, recentemente o primeiro filho. Ainda mantém a ligação à empresa espanhola, como realizador, e tornou-se um dos diretores criativos da Krypton Films, uma empresa portuguesa de produção e realização de filmes publicitários. Augusto Fraga recorda: "Em Espanha, fui muito bem tratado. Nunca fui descriminado por ser estrangeiro, nem no início, na empresa, por não saber o suficiente da técnica nem do catalão. Comecei por ser técnico de vídeo em filmagens, depois passei a segundo assistente de realização. Durante seis anos, não fiz outra coisa a não ser trabalhar." Certo dia chegou um anúncio que ninguém queria fazer. Augusto Fraga ofereceu-se e ganhou um dos galardões mais importantes da área. "Foi um importante prémio ganho em San Sebastian."
Quando ainda vivia em Espanha, foi estudar para Nova Iorque, regressou a Barcelona e por lá permaneceu mais algum tempo. A certa altura questionou-se sobre o seu estilo de vida e pensou em regressar a Portugal. "Lisboa tem todas as características que procurava: bom clima, boa comida, tranquilidade e a possibilidade de uma vida sem o stresse da movida de Barcelona." O seu regresso só foi possível porque acreditou que na capital lisboeta podia trabalhar para todo o mundo. "Creio num estilo de vida que permite ter Lisboa como acampamento base - onde as pessoas são simpáticas e se come bem -, e a partir deste ponto produzir filmes para a Europa e para o mundo, como se faz em Amesterdão, onde se trabalha para Londres, ou em Barcelona, onde se trabalha para Miami, por exemplo", afirma. Embora viaje muito, o seu poiso definitivo é Portugal. Já nas férias, escolhe os destinos nórdicos. "São países tranquilos, limpos, as pessoas são educadas, mas é caro, e isso é a parte mais desagradável. Gosto muito da tranquilidade dos países nórdicos. Adoro Oslo, Copenhaga e Estocolmo."
Deixar Nova Iorque
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| Rui Vieira: os portugueses são tão bons ou melhores que os outros |
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Rui Vieira partilha com Augusto Fraga a naturalidade. Também ele é oriundo dos Açores. Tem 36 anos e trabalha numa empresa de comunicação e publicidade, mas voltada para os suportes digitais. Começou por ser
free-lancer, e a oportunidade de ir para o estrangeiro surgiu-lhe na empresa onde trabalha: a Fullsix. Destino: Nova Iorque. "Aproveitei a hipótese de me integrar num projeto de seis meses, que acumulei com a direção da agência em Portugal." Não foi fácil, mas foi possível. Durante esse tempo, ficava do outro lado do Atlântico três semanas e vinha para cá uma. Poderia ter por lá permanecido. Os seus méritos foram reconhecidos, e isso é o que mais admira na sociedade americana.
"Há oportunidade igual para todos, mas vencem os melhores." Sempre que viajava levava na memória só as coisas boas do que tinha deixado, sobretudo a família. "Passado algum tempo começamos a perceber que também há outras coisas boas cá, que antes não valorizávamos." Durante o período que viveu em Nova Iorque conheceu muitos estrangeiros, mas apenas dois ou três americanos. "Os americanos têm um estilo de vida muito especial, e, como Nova Iorque recebe gente de todo o mundo, dei-me muito com estrangeiros."
A empresa onde trabalhou, a filial da Fullsix, situa-se em Brooklyn, para onde se estão a mudar as empresas ligadas à criatividade, ao design. Mas também artistas, músicos, fotógrafos atores. "Em Brooklyn respira-se talento por todo o lado. O mercado publicitário é muito forte. Cá ainda temos a divisão entre as agências tradicionais e as digitais, lá já não é assim." Em Nova Iorque, Rui Vieira aproveitou ao máximo a cidade. "Senti que aprendi muito. Conheci realizadores, jornalistas que vinham do Afeganistão, artistas, designers." A partir de certa altura começou a sentir saudades do seu país. "Os portugueses queixam-se de tudo, mas por lá também me apercebi que há muitas queixas."
Profissionalmente, Rui Vieira percebeu que os portugueses são tão bons ou melhores que os outros. "A única diferença é a escala e o planeamento. Lá, o trabalho é muito mais intenso, mas trabalha-se com muito mais tempo, ou seja, com mais planeamento." Da sua experiência concluiu que, pelo menos no seu ramo, quem consegue trabalhar em Portugal conseguirá trabalhar em qualquer parte do mundo. "Aqui pensa-se menos sobre os trabalhos e não se reflete quase nada. Lá é o contrário, mas também há mais autonomia e um respeito maior pelo trabalho do outro. O que torna a responsabilidade de cada um maior."
Viajar menos
Pedro Queirós é atualmente o presidente da Ericsson Telecomunicações, um cargo que assumiu em fevereiro último. Mas para aqui chegar esteve em vários países, sempre a subir na hierarquia. Licenciado em Engenharia Eletrotécnica pelo Instituto Superior Técnico, possui um MBA pela Cisco Systems, onde também trabalhou, e um mestrado em Enologia, pelo gosto que tem pelo vinho e pelas vinhas. É proprietário de uma quinta no Douro, onde produz vinho de mesa e vinho do Porto. Entre 1995 e 2002 foi country manager da Cisco Systems Portugal, tendo sido o responsável pelo lançamento da subsidiária no nosso país, assumindo em 2003 funções internacionais dentro do grupo.
Viveu em Espanha, França, Itália, e a partir desses países viajava quase diariamente para metade do mundo. Não lhe faltam milhas no currículo. Agora, regressado ao seu país, decidiu viajar menos e aproveitar o que Portugal tem de bom. "Simpatia, clima, gastronomia, vinhos, tranquilidade, património e a família." Os três executivos que escolhemos partilham pelo menos duas coisas em comum: o amor pelo país de origem e muito tenacidade. Porém, o sentimentalismo também os une.
"É quase sempre por razões sentimentais que muitos portugueses regressam ao nosso país." Quem o diz é Guilhermina Vaz Monteiro, managing partner da consultora Horton International Portugal. E acrescenta: "O orgulho de ser português acentua-se quando se está fora e nos são reconhecidos mais qualidades do que defeitos. Mas também há muitos executivos de topo que voltam com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento do seu país." Que sejam bem-vindos, porque nem a crise os demove.
Publicado na revista Única do Expresso de 23 de Outubro de 2010