Já o debate sobre a moção de censura contra o Governo
apresentada pelo CDS
tinha passado de meio quando José Sócrates disse a frase que pode servir de epígrafe a mais de três horas de discussão: "Não me peçam para fazer o que não sei fazer."
Sócrates não muda o estilo, mesmo que introduza no discurso novidades como "humildade democrática". O primeiro-ministro que esta tarde respondeu à moção de censura do CDS (que recebeu o chumbo do PS, o voto a favor do PSD
e a abstenção do PCP
, BE
e Os Verdes
) fez o que sabe fazer e tem feito durante toda a legislatura: defesa intransigente das políticas do Governo - de todas, sem excepção - e ataque violento às oposições.
A frase de Sócrates citada acima podia referir-se ao desempenho parlamentar do primeiro-ministro, mas não - referia-se à governação. Continuava assim: "Não me peçam para fazer o que não sei fazer, que é governar sem convicção. Eu governo com base nas minhas convicções."
Mais à frente, acrescentou: "Este é o nosso rumo, não temos outro." E, ainda adiante: "Eu acredito nas políticas que o Governo desenvolveu." Não só Sócrates não mudou um milímetro no estilo, como garante que não alterará as políticas, nem que seja porque não tem outro rumo.
Quem pensou que o debate desta tarde traria um primeiro-ministro mais humilde ou mais suave ("português suave, modesto, humilde", ironizou Portas), enganou-se. Foi tudo igual.
A única novidade veio mesmo no fim: quem encerrou o debate foi Luís Amado
- não por acaso, o ministro mais popular do Governo e um dos poucos com uma imagem positiva segundo as sondagens.
Pelo meio, houve uma meia-novidade: Sócrates confirmou o adiamento do TGV
, garantindo que "o futuro Governo terá toda a liberdade para fazer a adjudicação e assinar o contrato" de concessão das linhas do comboio de alta velocidade.
Um adiamento justificado pelo "escrúpulo democrático", disse Sócrates, embora mantendo o discurso de que este é um projecto essencial para o Governo, que seria "uma irresponsabilidade" adiar.
Algum erro?
Paulo Portas
, ao abrir o debate, pediu ao primeiro-ministro que, tendo já admitido "eventuais erros", os concretizasse. Iria Sócrates reconhecer qualquer falha? Nada disso - nem uma. "Certamente todos cometemos erros..." - começou por responder, para logo virar o discurso para o argumento habitual da herança do Governo anterior, esta tarde outra vez repisado - "...mas não cometemos os erros que o senhor cometeu".
Toda a oposição colocou a mesma questão ao primeiro-ministro, sugerindo mesmo algumas pistas sobre os erros que Sócrates poderia reconhecer depois da derrota eleitoral das europeias: política económica, regras de acesso ao subsídio de desemprego, educação, segurança, fisco, desgaste da equipa governativa.
De Sócrates, nada. "Se mantém toda a confiança política em todos os seus ministros e em todas as suas políticas, os eventuais erros quais são?", interrogava Luís Fazenda, do BE.
A resposta estava dada na intervenção inicial de Sócrates, que deu a sua leitura dos "sinais de insatisfação e dúvida" que devem ser compreendidos "com humildade democrática": "Tenho bem a consciência de que as medidas difíceis que tivemos de tomar, para vencer a crise orçamental, e a necessidade que tivemos de fazer tantas reformas em tão pouco tempo, terão provocado, em certos sectores, algumas feridas e descontentamentos. Sei também que os efeitos da crise económica mundial trouxeram dificuldades adicionais às famílias e às empresas, prolongando um tempo de exigência e diminuindo a visibilidade dos progressos que o País, de facto, alcançou".
Sócrates atacou a apresentação de uma moção de censura "totalmente inútil e inconsequente", sinal de "oportunismo político" do CDS, ao "brincar aos truques políticos" e a "desprestigiar a democracia com expedientes sem sentido".
Alberto Martins
, mais duro, acusou o CDS de "irresponsabilidade política", de "usurpação política da vontade popular" e de "manobrismo infantil" por querer, com a moção de censura, "prolongar artificialmente" os resultados das europeias.
Portas, que no início do debate tinha apontado, entre os pecados de Sócrates, a arrogância, chegou ao fim constatando que o primeiro-ministro não mudou e nada aprendeu com a derrota das europeias. "Está absolutamente igual e isso não recomenda nada de bom para o futuro", sentenciou Portas.
"Está a tentar fazer de conta que o 7 de Junho não aconteceu, porque não retirou nenhuma consequência, nem dos erros nem da humildade. Chego a acreditar que o senhor faz parte dos que acreditam nas sondagens e acha que ganhou as eleições. Não ganhou", insistiu o líder do CDS.
Terminado o debate, e perante a insistência dos jornalistas, Sócrates assumiu um erro nestes quatro anos: "Deveríamos ter investido mais em Cultura, tal como fizemos em Ciência."