Inês Querido realizou o seu primeiro Inter-Rail aos 19 anos e nessa altura "tive a certeza que o meu rumo me levaria para fora de Portugal mal acabasse a licenciatura". Frequentava então o primeiro ano do curso de Design Gráfico em Lisboa, a par do cursos de fotografia. Desde miúda que revelou interesse pelas artes para o qual, conta, muito contribuíram as viagens que realizava com a família no Verão.
Antes de ingressar no ensino secundário Inês Querido já tinha visitado Paris, Londres, Nova Iorque e os museus sempre fizeram parte dos seus itinerários. "A paixão pelas artes cresceu de mãos dadas com o gosto de viajar e de conhecer novas realidades", contou.
Em Junho deste ano rumou para Nova Iorque com o intuito de fazer workshops de Verão em duas escolas: no ICP (International Center of Photography) e na SVA (School of Visual Arts). Frequentou dois cursos de fotografia e um de design gráfico.
"É impossível vir a Nova Iorque e ficar-se indiferente. Todos os dias há eventos, conferências e inaugurações. A cidade fervilha de criatividade e de ousadia estética", contou a caldense, que se deixou surpreender com as livrarias de autor - espaços onde se vendem livros sem editora (impressos e distribuídos pelo próprio autor) que vão desde blocos de fotocópias agrafados, a peças originais feitas à mão.
"No meio daquele frenesim cultural uma pessoa sente-se quase na obrigação de produzir algo, de tentar dizer qualquer coisa de significativo", disse a jovem, que destacou as zonas de East Village e do SoHo. Este último é um dos locais "onde mais se sente a multiculturalidade característica de Nova Iorque" pois faz fronteira com Chinatown e com Little Italy.
Para quem gosta de programas mais culturais, Inês recomenda Chelsea, um bairro de Manhattan com centenas de galerias de arte contemporânea. "Vi que lá há espaços de livre acesso que albergam exposições temporárias, tanto de artistas mundialmente conhecidos, como de jovens que expõem pela primeira vez", contou. E ficou tão impressionada que decidiu voltar no dia seguinte, mas desta vez, com o seu portfolio.
Contactou com vários responsáveis que mostraram interesse pelo seu trabalho e "ficaram de me contactar se surgisse alguma oportunidade". Aqui conheceu Otis, um artista das Bahamas que trabalhava como gestor de uma galeria no SoHo. "Mostrei-lhe o meu portfolio e deixei-lhe o meu contacto", recordou e, passados uns dias o autor ligou-lhe a perguntar se estaria interessada em fazer parte de uma galeria que ele estava a começar com artistas de diferentes países. "O que começou por ser uma ideia dele, depressa se tornou num projecto comum ao qual dediquei grande parte do meu tempo", contou a jovem.
Estava o Verão a terminar e a nova galeria a dar os primeiros passos. A caldense percebeu que não fazia sentido voltar para Portugal e deixar o projecto a meio. Começou então a trabalhar como assistente de uma fotógrafa em East Village e como designer gráfica numa pequena empresa de Brooklyn.
Exposição com artistas de todo o mundo
A galeria designa-se Sebrof International Gallery e pode ser conhecida em www.sebrofinternational.com
. Inês Querido integra-a como artista e foi também assistente administrativa. Do projecto fazem parte 12 artistas de vários países.
A galeria pretende promover duas exposições por ano e a mostra inaugural teve lugar a 12 de Dezembro no Hungarian Cultural Center de Nova Iorque. Nela participaram uma dezena de artistas oriundos das Bahamas, Portugal, Alemanha, Rússia, Índia, França, Nova Zelândia e dos próprios Estados Unidos. Inês apresentou três projectos: um de fotografias, outro de colagens feitas com recortes de revistas e um terceiro composto por dois trabalhos que reflectem o anunciado fim da fotografia de filme. "
Tive um excelente feedback em relação aos meus trabalhos, principalmente em relação às colagens", explicou a autora, acrescentando que a organização espera realizar uma segunda exposição na Europa, em Paris ou em Londres.
Depois de Nova Iorque segue-se Londres. "Sempre tive um grande fascínio por essa cidade e esta é a altura certa para viver tal experiência", afirmou Inês Querido que pretende desenvolver o seu trabalho na fotografia e no design gráfico. Vai procurar emprego nas duas áreas, apesar de saber que é mais fácil arranjar trabalho como designer gráfica. De qualquer modo "a fotografia vai sempre fazer parte da minha vida profissional, seja a um nível comercial ou somente artístico", disse.
Inês Querido considera que neste momento não faz sentido estar em Portugal pois acha que o país "é extremamente limitado em termos de oportunidades para recém-licenciados". E no campo artístico torna-se ainda mais difícil pois é um "meio muito fechado e muitas vezes restrito a quem lhe pertence". Na sua opinião, "o caminho mais rápido para algum reconhecimento nacional passa por conquistar algo no estrangeiro, por mais pequeno que seja".