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De férias na autocaravana

 São cada vez mais os jovens que fazem férias numa"casa com rodas". Seja em carrinhas transformadas ou em autocaravanas, o lema é dormir frente ao mar e desbravar estrada. Fomos experimentar o novo caravanismo cool
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Sara Pinteus e João Vieira fazem da sua autocaravana a sala de estar para receber os amigos

Mal arrancamos, um estrondo metálico rebenta nas nossas costas. Olhamos incrédulos para a parte de trás da autocaravana. Ups! Esquecemo-nos de arrumar as mochilas e recolher a escada de acesso às camas, antes de nos lançarmos à estrada. É a primeira vez que experimentamos a aventura de viajar num T0 sobre rodas e há muito a aprender. Regra número um: verificar sempre se há algum objeto fora de sítio a bordo, para que não caia em andamento. Aliás, é essa a única função do espelho retrovisor...

 

Seguimos em direção à costa litoral alentejana. É quinta-feira. Na estrada já se sente a euforia do verão. O sol quente convida à praia e ao campo e muitos carros levam famílias inteiras a banhos. A bordo avistam-se cães, guarda-sóis, geleiras e boias. Está um daqueles dias de calor em que só apetece bocejar frente a uma ventoinha, ler jornais, furar as ondas ou dormir na areia.

 

Ao longo do asfalto não passam despercebidas as autocaravanas ou as carrinhas transformadas ("kitadas", dizem eles) - muitas delas conduzidas por jovens entre os 20 e os 30 anos - que deslizam devagar, muito devagar, para usufruírem da paisagem, pouparem no gasóleo e procurarem um lugar ideal para estacionar. Agora que a temperatura subiu, as margens de acesso às praias e miradouros costeiros, de norte a sul do país, enchem-se destes veículos brancos, enormes, com interiores misteriosos.

 

Cá fora, uns exibem antenas parabólicas ou VHF/UHF no tejadilho, outros têm bicicletas arrumadas nas traseiras ou fatos de surf pendurados nas portas como bacalhaus. São a nova geração de caravanistas adepta do conceito "casa-móvel", mas que foge dos parques de campismo como o diabo da cruz e busca a melhor vista frente ao mar.

 É o caso de Emanuel, 26 anos, ao leme de uma autocaravana em busca das melhores ondas para surfar. Uma tarefa difícil porque nas praias da região do Alentejo o mar está desordenado, revolto, sem ondas formadas. Apesar de conduzir sem ninguém no lugar do pendura, não está só. No interior da caravana está Telma, 26 anos, deitada na cama do casal a mimar a sua bebé Lara, de 9 meses.

Atrás deles, em fila indiana, segue a carrinha transformada do casal amigo Hugo Moreira, 30 anos, e Ana Marques, 26 anos.

 

 Conheceram-se todos no Carregado, onde vivem, e decidiram viajar juntos durante duas semanas rumo ao sul. Encontramo-los a meio das férias, depois de uma estadia na Marina de Lagos. Andam a 30 quilómetros à hora. São adeptos da eco-condução: poucas acelerações e poucas travagens. "Para pouparmos não podemos puxar pelas mudanças. E o ambiente agradece. Este é um estilo de vida baseado na gestão de recursos", esclarece Emanuel. A primeira paragem desta tarde para os quatro amigos é o miradouro de acesso à Praia da Arrifana, em Aljezur, um dos mais bonitos areais da Costa Vicentina formado numa pequena baía.

 

Emanuel espreguiça-se após a longa viagem. "Aqui o vento não rebenta o mar e sempre há ondas", informa. A autocaravana onde viaja é dos seus pais, mas acaba de adquirir um veículo semelhante, em segunda mão, que mandou vir da Alemanha por 10 mil euros. "É uma maravilha. O mercado lá fora é maior e os preços mais competitivos."

Tiago Rodrigues, 37 anos, até anda de monociclo na sua autocaravana: É a minha primeira casa, a segunda fica em Valejas

A carrinha "kitada". Mal se abre a porta da carrinha de Hugo e Ana salta Ginja, um pequenito cão arraçado de chiuaua, que fareja e marca o novo terreno. As rodas da autocaravana alugada pelo Expresso não escapam. Este casal de namorados aproveita a pausa e o calor da tarde para partilhar com os amigos cervejas geladas e sangria fresca feita na noite anterior. "À nossa!" A aparelhagem dispara Bob Marley: "Uh! bad boys watcha gon, watcha gon, watcha gonna do?"

 

O veículo destes dois, apesar de ter algumas limitações logísticas, é um prodígio de transformação. Como Hugo é soldador de profissão e engenhocas de alma, comprou esta carrinha de mercadorias por "tuta e meia" e converteu-a no seu lar ambulante. Demorou meses a remendar-lhe os buracos, a pintar-lhe a chapa, a construir móveis e uma cama à medida, além de lhe instalar um fogão, um lava-loiça e um micro-chuveiro (onde cabe uma pessoa magra de ombros encolhidos). Na base do veículo foram colocados dois depósitos de água. Casa de banho não há. As necessidades fisiológicas são resolvidas numa sanita química portátil que despejam nas estações de serviço ou no mato. "Se formos práticos, as vantagens são enormes. É mais barato que alugar uma casa, podemos parar onde quisermos, dormir onde calha e estar a um passo do mar", afirma Ana, uma morena esguia, caixa de supermercado, que mata as horas com os cliques da sua máquina Reflex.

 

A Guarda está à perna. Ao seu lado, o namorado Hugo - ou "Ratinho", como é tratado pelos amigos pela sua baixa estatura - corrige-lhe o discurso. "Não é bem assim. Já não podemos estacionar onde queremos. A Guarda está à perna, principalmente na zona do Algarve e Alentejo. Há uma lei qualquer que não nos deixa pernoitar a 400 metros perto da zona costeira. Nós continuamos a fazê-lo, mas é um risco. Basta abrirmos toldos ou pormos a secar calções de banho fora dos veículos que nos sujeitamos a receber uma multa de 250 euros. É limpinho", assegura. Ana fotografa agora os pinotes da caprichosa Ginja, antes de denunciar: "São os donos dos parques de campismo que fazem queixa de nós, para nos obrigar a pernoitar nas instalações deles. Não se percebe esta atitude,"

 

Do lado deles está o Clube Português de Autocaravanas (CPA), que alerta para o vazio legal sobre estes veículos e para o facto de, nos últimos tempos, muitas autarquias estarem a proibir as autocaravanas de estacionar ou pernoitar em parques de estacionamento. Alguns veículos chegam mesmo a ser multados. "Esta interdição contemplada pelos Planos Municipais de Ordenamento do Território (PMOT) é uma atitude discriminatória e inconstitucional porque impede a liberdade de movimentação apenas de um determinado tipo de viaturas", alerta Diogo Ferreira, vice-presidente do CPA.

Não há números oficiais, mas este organismo estima que existam atualmente mais de 7000 autocaravanas portuguesas espalhadas pelo país. "A má imagem dos autocaravanistas está a mudar por uma questão de turismo interno. As autarquias estão a aperceber-se da mais-valia económica de os ter estacionados na região. Esta gente jovem que opta por fazer férias numa autocaravana, fora dos locais de campismo, faz consumo nos mercados locais", considera Diogo Ferreira.

 "Vamos molhar o cu ao mar?", desafia Emanuel. "Ratinho" aceita. Vestem os fatos impermeáveis e partem com as pranchas aconchegadas nas axilas em direção às ondas.

As raparigas ficam em terra numa animada cavaqueira feminina, enquanto consomem um bitoque com batatas fritas. Afirmam gastar apenas 400 euros nestas duas semanas, com refeições, portagem e gasóleo incluídos. "À medida do nosso bolso", comenta Ana. Telma concorda com a amiga, e apesar de ter apresentado alguma resistência a passar férias com a bebé numa autocaravana, diz-se rendida. "Não há como a nossa casa. Mas vive-se bem num veículo destes."

 

Percebe-se porquê. A autocaravana onde viaja vem equipada com quase tudo o que uma jovem mãe pode precisar: tem fogão, frigorífico, casa de banho com duche e sanita, televisão e, voilá, uma Bimby. "Na estrada ela só serve para triturar, de outro modo gastávamos a bateria da caravana. Mas dá para fazermos granizados de fruta com álcool, uma bebida ótima para as noites quentes", explica entusiasmada.

 

Quando o céu ganha um tom violeta é hora destes amigos retirarem o sal do corpo, de forma rápida e eficaz, para que os 100 litros de água que levam os depósitos da carrinha e da caravana deem para os banhos, e ainda restem para o lava-loiça e lavatório. O dia acaba com "um lumezinho" aceso no fogareiro, onde se grelham chouriços, morcelas de arroz e pianos de porco, combinados com fatias de melão, requeijão, vinho e outras iguarias. Somos convidados para jantar. Em troca, damos-lhes a experimentar as sandes gourmet que fizemos a partir de uma receita que o chefe José Avillez pensou para a nossa reportagem (ver caixa).

 

Amor e uma autocaravana. No dia seguinte seguimos para a praia de São Torpes, no Alentejo. Mal guinamos para a praia, avistamos um casal em redor de uma carrinha "pão-de-forma", alterada para ninho de amor. São ambos jovens, descontraídos, estilosos, cool, com gosto pela praia e ar livre.

 

David Matos, 25 anos, professor de educação física, sobe enérgico à capota da carrinha para colocar ao sol um chuveiro portátil (espécie de saco com água ligado a uma torneira), que lhes valerá o duche quente ao fim do dia. Cá em baixo, a namorada Mafalda Uva, 24 anos, bolseira de investigação científica (BIC) de microbiologia no Instituto Ricardo Jorge, observa-o. "Isto é boa vida! A paisagem muda todos os dias e adormecemos ao som das ondas", traduz esta rapariga que veio de Sintra com o namorado para uma escapadela de fim de semana.

 

Foi ele quem lhe pegou o "bicho das caravanas". "Antes ia para sítios mais cómodos e mais caros. Troquei o luxo pela aventura e não me arrependo. Esta vida tem mais graça", partilha Mafalda. Faz questão de esclarecer que não está a passar por uma fase freak ou rastafári. "Tomo banho todos os dias, uso maquilhagem e se for preciso visto até uma peça de roupa mais sofisticada se sair à noite. Com inteligência consegue-se manter a higiene que se tem em casa."

 

Para David essa questão é redundante. Apaixonado pelo vintage e pela recuperação de objetos e veículos antigos dos anos 60 e 70, já vai na terceira carrinha que comprou, para recuperar e depois vender por um preço consideravelmente superior. Desta vez desembolsou 4500 euros para adquirir a atual carrinha, reformulando-a com um fogão, cama de casal, armários e mesa de refeições. "Agora é praticamente uma casa para dois. Só não tem casa de banho. Mas resolvo essa questão nos cafés das localidades."

 

O caravanismo está na moda. Contam-nos que boa parte dos amigos começa a seguir-lhes os passos e a comprar carrinhas transformadas. "Está a tornar-se uma moda. De tal maneira que sinto que há um certo hype na estrada quando passamos com a nossa carrinha. Os automobilistas apitam à nossa passagem, os polícias acenam. Cada vez mais pessoas reconhecem a boa onda de fazer férias assim." Nunca tiveram chatices? "Não. Talvez porque optamos por ir para praias mais desertas e não damos nas vistas. Quer dizer, não montamos estendais, nem mesas no exterior", declara Mafalda. Contas feitas, esta dupla assegura não gastar mais do que 400 euros por mês, quando passa temporadas na carrinha. O próximo destino será Marrocos. "Até um dia!"

 

Próximo destino: Praia do Baleal, em Peniche. O vento está forte e as ondas formam cristas tentadoras para os caravanistas que ali estão para praticar surf. Entre a multidão de carapaças brancas destaca-se uma porta aberta de onde escapam vozes e risos. Aproximamo-nos. Lá dentro encontramos o casal de anfitriões: João Vieira, de 31 anos, e Sandra Pinteus, de 37 anos, ambos produtores de fotografia para moda e publicidade, a meio de um animado parlapiê (leia-se conversa) com amigos. São urbanos, afáveis e sempre disponíveis para que "venham mais cinco".

 Em cima da mesa, pão, queijo e água. Aquela parece ser a melhor sala de estar da região, se atendermos à boa disposição dos presentes e à magnífica vista de mar enquadrada nas janelas da viatura. "O caravanismo é um espetáculo. Não há compromissos com a rotina e dá menos trabalho que uma casa de férias", considera João.

A história da aquisição daquela autocaravana é uma grande façanha.

 

Há dois anos viajaram até Frankfurt, na Alemanha, para a comprar em segunda mão por 11 mil euros e regressaram a bordo dela, passando por França e Espanha. "Valeu pelo trajeto. Se não fosse por causa da caravana nunca teria conhecido as termas de Biarritz. Deu também para percebermos que as estações de serviço de França, Alemanha ou Espanha estão mais bem preparadas para este universo. Têm locais para pernoitarmos, tomarmos banho, atestarmos os veículos com água, gasóleo e despejarmos as águas sujas e cassetes químicas. Aqui em Portugal a realidade é outra. São raras as estações preparadas para caravanas. Ontem despejámos a cassete numa fossa que fica a caminho daqui", explica Sandra, que tem também uma irmã que costuma viajar Europa fora com o namorado numa carrinha transformada. O motivo da compra desta caravana teve contornos práticos: "O João queria surfar com os amigos e eu não queria ter que me levantar cedo da cama para o acompanhar no trajeto de Lisboa ao Baleal. Agora, partimos juntos na sexta-feira à noite para Peniche e, na madrugada seguinte, quando ele acorda para espreitar o mar, eu continuo a dormir", conta a produtora, que está grávida de cinco meses.

 

 Desde que compraram esta autocaravana passaram a ter uma vida ainda mais social. "Sobretudo aos fins de semana é um entra e sai de amigos de manhã à noite. Chegam aqui para conversar ou fugir ao frio, quando o céu fica nublado", diz o casal. Agora que um filho vem a caminho, o casal confessa que está prestes a trocar este veículo por outro maior, com um quarto separado da sala. "É uma bela desculpa para regressarmos à Alemanha. Desta vez, queremos regressar pela Holanda e Bélgica", remata Sandra com um sorriso entusiasmado.

 

Roda a caravana, gira o monociclo. Tiago Germano Rodrigues, 37 anos, professor de educação física, equilibra-se como um verdadeiro artista de circo no interior do seu veículo. Nunca para quieto, está sempre a aprender ou a ensinar algo a alguém e por onde passa faz novos amigos. "Ontem, aprendi a construir papagaios de papel. Como faz muito vento aqui no Baleal deu para altos voos." Patins, bicicletas, bolas de futebol e de basquete ou um tabuleiro de xadrez são alguns dos objetos com que este professor se entretém nos fins de semana que passa na caravana. "Voltei a ser nómada. Este é o meu primeiro lar. A morada alternativa é o apartamento que tenho em Valejas."

 Tiago paga 180 euros de empréstimo para abater nos 11 mil euros que pediu emprestado ao banco para comprar a caravana. "Não há dinheiro que pague esta liberdade."

O casal Garcia convidou o casal Sousa para juntarem os filhos e virem juntos das bandas de Santarém para a costa de Peniche: Consolação, Baleal, Foz do Arelho. Diana, de 8 anos, bebe o leite da manhã com muito mais apetite do que costuma mostrar em casa. Os seus olhos parecem ter asas. "É a minha casa de bonecas. Fazemos aqui tudo o que fazemos em minha casa, mas com muito mais piada." As crianças não mentem.

Publicado na Única de 17 de Julho de 2010


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Belos tempos
Corri praticamente toda a Europa a viajar numa caravana.
Era divertido e aguçava-nos o gosto pela aventura. Todos os metros percorridos tinham um sabor indescritível.
Os tempos eram outros. Não tínhamos qualquer receio em parar a carrinha num qualquer sítio que nos parecesse adequado áquilo que precisávamos.
Hoje, não faria o mesmo. Acho que, ainda em Portugal, à primeira paragem, éramos logo assaltados e maltratados.
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Edição Diária 17.Abr.2014

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