De Barroso a 'Bo'
É verdade que Barroso conquistou o lugar na Comissão Europeia no dia em que fez de empregado de mesa nos Açores. É verdade que em todos os países onde houve um referendo ao Tratado lhe pediram silêncio para não dar votos ao "não". É verdade que quando rebentou a guerra da Geórgia, país membro do Conselho da Europa, o nosso José Manuel achou que não valia a pena interromper as suas férias. É verdade que enquanto o mundo desabava numa crise económica Barroso deu provas irrefutáveis da sua inexistência política. É verdade que não há jornal europeu de referência que não faça um balanço deprimente do seu mandato. É incompetente. Mas é o nosso incompetente. E exigir competência a um nacional é, como se sabe, falta de patriotismo e sinal de sectarismo ideológico.
Esta semana outra notícia excitou a alma lusa: as filhas de Obama terão como fiel companheiro um cão de água português. Apesar do latido inconfundível do Texas, o fiel amigo tem ascendência nacional. Obama fez a escolha certa: como se viu nas Lajes, fomos talhados para o papel.
Agora, com os dois pés de Barroso em Bruxelas e as quatro patas de 'Bo' em Washington, o mundo é nosso.
Alberto João Jardim escreve as suas inenarráveis crónicas num jornal não menos inenarrável da Madeira. E se é verdade que a maioria dos colunistas, na sua ganância, recebe para escrever, Jardim mostra a sua generosidade pagando mais de seis mil euros por dia para ser lido. Pena que, seguramente por engano, seja o erário público a liquidar a factura. A Madeira vivia bem com este acordo: o governo regional pagava, Alberto João escrevia e os madeirenses não o liam. Até que Jardim resolveu mudar esta equação quase perfeita. Se o presidente não recebe para escrever, os leitores não devem pagar para o ler. Assim, o "Jornal da Madeira", que estaria falido se não fosse o dinheiro público, passou a ser distribuído gratuitamente. A simpatia tem um objectivo: acabar com o "Diário de Notícias" da Madeira, um jornal que é vendido, tem leitores e, pecado dos pecados, não é dirigido a partir da Quinta da Vigia. Longe vão os tempos da censura. Jardim encontrou uma forma mais eficaz de calar a crítica: destruir, com a ajuda do contribuinte, o pluralismo na imprensa.
Parece que uma nova lei o vai impedir de continuar a injectar dinheiro naquele buraco sem fundo. Mas a lei, como se sabe, nunca atrapalhou Alberto João. Prepara-se para pedir às empresas que têm - e querem continuar a ter - concessões de serviços públicos ou adjudicações de obras para tomarem conta do negócio. Sejamos justos: ninguém pode acusar Jardim de querer esconder as suas vergonhas. Porque haveria de ser tímido? O país paga e acha graça.


