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Darwin, o agitador

Podia ter sido pastor da Igreja anglicana mas acabou por redigir a teoria que afasta a intervenção divina da evolução das espécies. 150 anos depois, Charles Darwin continua a provocar debates inflamados.
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Os 1250 exemplares da primeira edição da obra de Darwin esgotaram-se em menos de 24 horas
Os 1250 exemplares da primeira edição da obra de Darwin esgotaram-se em menos de 24 horas

Há algo de subtilmente irónico nos retratos do homem que desafiou o mito da criação divina das espécies. Com a sua longa e farta barba branca, sobrancelhas carregadas e um nariz que o próprio considerava desproporcionado, Charles Darwin é a imagem de um profeta.

Do adolescente que preferia a caça à galinhola e as colecções de escaravelhos aos estudos não reza a história, pelo menos a que é contada pelas fotografias mais célebres da época. As que sobrevivem são a prova da sua própria evolução: do jovem nascido no seio de uma família abastada ao cientista notável, celebrado este ano por ocasião do bicentenário do seu nascimento (Shrewsbury, 12 de Fevereiro de 1809) e do 150º aniversário da publicação da sua obra de referência, "A Origem das Espécies", que revolucionaria para sempre a concepção do mundo natural.

"Só te preocupas com a caça, os cães e os ratos. Serás uma vergonha para a família e para ti mesmo", ter-lhe-á dito um dia o pai, conhecido médico. Por influência deste, inscreve-se com o irmão no curso de Medicina, mas acaba por desistir por não suportar ver sangue. Segue então o curso clássico em Cambridge com o objectivo de se tornar pastor da Igreja anglicana, mas a única disciplina que frequenta com regularidade é a de Botânica.

Aí conhece o professor John S. Henslow, um encontro que lhe proporcionará a viagem decisiva para a elaboração da sua revolucionária teoria. Pouco depois de terminar os estudos, Henslow recomenda-o para o cargo de naturalista na expedição do "HMS Beagle", um pequeno barco da marinha britânica que partirá numa viagem de circum-navegação para completar o estudo hidrográfico da América do Sul. "Não é que vos considere um naturalista consumado, mas sois capaz de coleccionar e de notar o que é digno de ser registado", escreve o mentor na carta que lhe dirige.

A 27 de Dezembro de 1831, após vários adiamentos, o "Beagle" zarpa finalmente de Devonport para uma viagem que deveria durar três anos mas que se prolongará por cinco. A primeira escala é a ilha vulcânica de Santiago, em Cabo Verde, depois de um surto de cólera em Inglaterra ter impedido Darwin de concretizar o sonho de conhecer Tenerife.

Nas suas notas, o comandante do "Beagle", Robert FitzRoy, dá conta do desalento do jovem: "Ter visto (o pico de Tenerife), ter ancorado e estado a ponto de desembarcar, e entretanto ser obrigado a ir embora sem a menor perspectiva de ver Tenerife de novo, foi para ele uma verdadeira calamidade." Foi a segunda vez em poucos dias que Darwin viu frustrados os seus planos de ir a terra. A 4 de Janeiro de 1832, uma semana depois de ter zarpado, o "Beagle" passou ao largo da costa de Porto Santo mas o mau tempo não permitiu que a embarcação ancorasse. "Estava tão doente que nem sequer me pude levantar para ver a Madeira", anota no seu diário de bordo.

Paragem nos Açores


A última escala, antes da chegada ao porto de Falmouth, a 2 de Outubro de 1836, foi também em território português, na Ilha Terceira, Açores, onde Darwin se manteve seis dias a fazer explorações geológicas. Pelo meio ficava uma odisseia com vários capítulos, com destaque para a famosa passagem pelas Galápagos, em Setembro e Outubro de 1835. Neste arquipélago vulcânico do Pacífico, o naturalista descobriu sete variedades de tartarugas gigantes, cada uma ocupando a sua ilha. Apesar de apresentarem pequenas diferenças, eram muito semelhantes entre si, levando-o a concluir que tinham uma origem comum. Estas observações, bem como as de pequenas aves conhecidas como tentilhões, serão decisivas para a formulação da sua teoria.

A ideia de uma evolução das espécies não era inovadora. Alguns autores, incluindo Jean Lamark, em 1809, e mesmo o avô de Darwin, já a tinham explorado. Faltava-lhes, contudo, o essencial: o mecanismo pelo qual se processava essa transformação. Darwin descobriu-o na teoria populacional de Malthus, segundo a qual o crescimento demográfico está limitado pelos recursos existentes. Por isso, a luta pela vida favorecia a sobrevivência dos mais fortes, que passariam as suas características à geração seguinte. O desenvolvimento de novas espécies resultaria das pequenas mudanças acumuladas pela repetição sucessiva deste processo. "Encontrei, finalmente, uma teoria sobre a qual posso trabalhar", desabafa Darwin. Chamou-lhe "evolução por selecção natural".

Nas duas décadas que se seguem até à divulgação das suas conclusões, Darwin mantém-se em silêncio no refúgio da sua casa, a Down House, longe da agitação intelectual de Londres. Alguns viram neste atraso o receio do autor em chocar a sociedade da época e, sobretudo, em ferir a sensibilidade religiosa da mulher, Emma, sua prima, com quem casara no início de 1839. "Não existe qualquer prova disso", assegura John van Wyhe, professor da Universidade de Cambridge e autor da principal página dedicada à vida e obra do cientista.

20 anos de trabalho


"Darwin trabalhou 20 anos na sua teoria porque, durante muitos anos, a sua principal preocupação foi publicar os resultados da expedição. Depois, a sua teoria não estava acabada. Sabia que tinha que torná-la bastante convincente antes de a publicar, porque era extremamente ambiciosa", explica o historiador ao Expresso. Redigido em 1842, o primeiro esboço dos princípios de Darwin permanecerá durante muito tempo guardado sob as escadas da casa do cientista.

Em 1858, uma carta de um jovem naturalista britânico chamado Alfred Russell Wallace lança o pânico na vida de Darwin. Wallace percorria o mundo recolhendo espécimes e chegara a conclusões semelhantes às suas. Numa carta ao amigo Charles Lyell, um destacado geólogo, Darwin admite: "Nunca vi uma coincidência tão espantosa. Se Wallace tivesse lido o meu esboço de 1842 não poderia ter escrito um melhor sumário. (...) Toda a minha originalidade será esmagada."

Percebe então que não pode adiar mais a publicação do seu trabalho, já conhecido por alguns dos amigos mais próximos, mas teme que o acusem de plágio. "Preferia queimar todo o meu livro do que ele ou alguém pensar que me portei de uma forma reles", confessa a Lyell.

Para resolver o imbróglio, Lyell e o botânico Joseph Hooke organizam, a 1 de Julho desse ano, uma sessão na Sociedade Lineana de Londres, o mais importante centro de estudos de história natural da Grã-Bretanha. Lyell apresenta ambos os trabalhos, referindo que os autores tinham chegado, sem conhecimento mútuo, à mesma conclusão. Nem Darwin nem Wallace marcam presença na sessão. O primeiro chorava a morte, dois dias antes, do filho mais novo, de 19 meses. O segundo estava ainda no Sudoeste Asiático. No final, nem aplausos nem críticas ferozes. Apenas indiferença. "O ano que passou não foi marcado por nenhuma dessas descobertas notáveis que de imediato revolucionam o departamento de ciências que as produziu", resumiria no final desse ano o presidente da sociedade, Thomas Bell.

A indignação chegaria apenas a 24 de Novembro de 1859, quando Darwin publica finalmente a sua obra imortal. Os 1250 exemplares da primeira edição esgotam-se em menos de 24 horas e o livro gera um escândalo sem paralelo nos sectores mais conservadores. Ainda que Darwin nunca o explicite no livro, a teoria de que todas as espécies têm um antepassado comum só poderia ter uma conclusão: a de que o Homem e o macaco partilhavam a mesma ancestralidade. Na imprensa, chega a ser retratado pelos caricaturistas com uma cauda e um corpo simiesco.

Controvérsia na sociedade vitoriana


"A controvérsia foi terrível em termos da sociedade vitoriana", garante João Caraça, director do serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, que, entre outras iniciativas, abrirá ao público no dia 12 de Fevereiro a exposição "A Evolução de Darwin". "Foi uma autêntica revolução, nos termos em que o que define uma revolução é, após ela, não ser possível voltar a pensar como antes." Um argumento que provavelmente faria corar Darwin, conhecido pela sua modéstia. "Dada a mediocridade das minhas capacidades, é verdadeiramente espantoso que tenha influenciado consideravelmente a opinião dos homens de ciência", refere na sua autobiografia.

Ao defender a evolução por selecção natural sem qualquer intervenção divina, Darwin entra em rota de colisão com a Igreja. Para a história fica o duelo verbal que teve lugar em Oxford em Junho de 1860, entre o zoologista Thomas Huxley, conhecido como o "bulldog de Darwin", e o bispo de Oxford, Sam Wilberforce. Na acesa troca de palavras, Wilberforce quis saber se era da "parte da avó ou do avô" que Huxley descendia do macaco. A réplica ficou célebre, embora persistam dúvidas sobre as suas exactas palavras: "Prefiro ter um macaco insignificante como avô a um homem que introduziu o ridículo num debate científico sério."

Certo é que a polémica, alimentada sobretudo pelos sectores mais religiosos, terá durado "pouco mais de uma dezena de anos", garante Van Wyhe. "O grande confronto entre ciência e religião é um pouco um mito", refere o investigador. "Muitas pessoas mais religiosas não tinham qualquer problema com a teoria de Darwin e viam-na como mais uma das leis naturais de Deus para governar o Universo." O próprio Darwin, apesar de ter perdido progressivamente a fé, nunca ousou negar a existência de Deus. "A conclusão mais simples é que toda esta questão está para lá do intelecto de qualquer homem", admite.

Segundo Tim Berra, autor do recente "Charles Darwin: The Concise Story of an Extraordinary Man" (Charles Darwin: A História Concisa de um Homem Extraordinário), a morte da segunda filha, Anne, aos 10 anos, "acabou com qualquer resquício de cristandade em Darwin". Van Wyhe discorda. "É algo que não está provado. O que se sabe é que, após a viagem do 'Beagle', ele foi perdendo a fé ao perceber que havia poucas provas que suportassem as afirmações da Cristandade." Quase ironicamente, e apesar de se afirmar agnóstico, foi sepultado, em Abril de 1882, na Abadia de Westminster.

Os debates inflamados que a obra provocou contrastam com a personalidade tranquila do seu autor. Apesar de seguro das suas convicções, era tudo menos um rebelde e sempre se manteve alheio às tempestades que a sua teoria provocava. Depois da publicação de "A Origem das Espécies", prossegue uma vida tranquila no refúgio da Down House, de onde raramente sai nas duas últimas décadas de vida, marcadas por uma misteriosa doença sobre a qual existe hoje muita especulação.

Custa a crer, mas, dois séculos após o seu nascimento e 150 anos depois da publicação da sua obra seminal, Darwin continua a gerar acesos debates. Em Setembro do ano passado, o reverendo Malcolm Brown, director de relações públicas da Igreja Anglicana, reconheceu publicamente que esta devia um pedido de desculpas ao cientista. No dia seguinte, durante a apresentação de um debate sobre "Evolução Biológica: Factos e Teorias", que teve lugar em Março, o arcebispo Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura do Vaticano, considerou não existir "a priori, incompatibilidade entre Darwin e a Bíblia" mas rejeitou "emitir pedidos de desculpa públicos como se a História fosse um tribunal eternamente em sessão". "As teorias de Darwin nunca foram condenadas pela Igreja Católica nem o seu livro foi banido", referiu. Já em 1996, o Papa João Paulo II reconhecera que a teoria da evolução era "mais que uma hipótese", uma visão promovida também em 1950 por Pio XII.

Ataques ferozes vindos dos criacionistas


Os ataques mais ferozes têm sido promovidos pelos movimentos criacionistas, com especial expressão nos Estados Unidos, considerada a nação cientificamente mais avançada do mundo. Segundo um estudo recente, 48% dos cidadãos americanos rejeitam a selecção natural e acreditam que o Homem foi criado directamente por Deus.

No próprio Reino Unido, bastião de Darwin, um grupo denominado A Verdade na Ciência tem promovido a divulgação do "Desenho Inteligente" nas escolas, como uma alternativa à teoria evolucionista. Um argumento "ridículo", defende Tim Berra, "já que o que deve ensinar-se numa aula de ciência é precisamente ciência e não religião".


Nicolau Copérnico (1473-1543)
Astrónomo
polaco, foi o autor da teoria heliocêntrica, segundo a qual a Terra e os outros planetas gravitavam em volta do Sol - e não o contrário, como se acreditava há mais de 1000 anos. Apesar de, na época, o seu modelo não ter sofrido grande oposição da Igreja católica - que então postulava essencialmente o geocentrismo de Aristóteles e Ptolomeu -, o seu livro "De revolutionibus orbium coelestium" (do latim "Das Revoluções das Esferas Celestes"), publicado no ano da sua morte, foi colocado no Index em 1616, aí permanecendo até ser retirado por Bento XIV, em 1758.



Giordano Bruno (1548-1600)
Filósofo
italiano, foi frade dominicano na juventude, antes de o seu espírito independente e indisciplinado o ter impedido de continuar os estudos religiosos, forçando-o a uma vida errante. Defendia que o cristianismo era totalmente irracional, sem qualquer base científica, e ensinava a teoria de Copérnico, rejeitada pela Igreja. De regresso a Itália em 1592, foi imediatamente detido, ficando preso até 1600. Julgado pela Inquisição, permaneceu firme na intenção de não renegar as suas ideias, mesmo depois de lhe terem sido concedidos oito dias para mostrar arrependimento. Foi condenado à morte, pela fogueira, o que viria a acontecer a 17 de Fevereiro de 1600. "Talvez vocês, meus juízes, pronunciem esta sentença contra mim com maior medo do que eu a recebo", afirmou na leitura do veredicto.



Galileu Galilei (1564-1642)
Astrónomo
e físico italiano, foi um acérrimo defensor da teoria heliocêntrica de Copérnico, motivando a reacção da Igreja Católica, que considerou heresia afirmar que a Terra se movia. Com quase 70 anos e muito doente, foi julgado pelo Tribunal do Santo Ofício, sendo forçado a renegar a sua tese para evitar a fogueira. Acabou condenado ao cárcere e a sua obra foi incluída no Index. "Eppur si muove" (E contudo ela move-se), terá afirmado à saída do julgamento. Foi formalmente reabilitado em 1992 pelo Papa João Paulo II, que reconheceu a sua teoria. "Galileu, fiel e sincero, mostrou-se mais perspicaz que os seus adversários teólogos."


Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro de 2009.


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Como?
Nenhuma teoria da ciência experimental "afasta" Deus do mundo porque simplesmente Deus não faz parte do campo destas ciências. São dois níveis diferentes de compreensão do mundo. Se assim não fosse não teríamos tantos cientistas crentes, Prémios Nobel incluídos.
REABILITAÇÃO DE C DARWIN EM SETEMBRO DE 2008
impõe o rigor intelectual que se informe que charles darwin foi em Setembro de 2008 reabilitado e novamente aceite no seio da igreja anglicana. Tal como Galileu, c darwin também sofreu o exagero da intolerancia religiosa. segundo o comunicado do oporta voz oficial dos anglicanos, Malcon Brown, «As pessoas e as intituições cometem erros e as igrejas e o scristãos não são excepção» e continua «a igreja cometeu um erro com Galileu e rapidamente tomou consciencia do seu erro ... a igreja anglicana fez o mesmo em 1860 con a Teoria da Seleção Natural de Charles Darwin».
Vaticano
Ja' agora, bem andaria o Vaticano se parasse de negar ou minimizar os eventos ocorridos durante a Inquisic,~ao.
A Enciclope'dia Cato'lica esta' a abarrotar de elogios ao Sao Domingos, ao Sao Pedro Arbues, ao Bernardo Gui e ao Toma's de Torquemada.
O capi'tulo Inquisic,~ao faz tudo para dar uma boa imagem dessa lamenta'vel instituic,~ao.
A negac,~ao ou minimizac,~ao da Inquisic,~ao, tal como do Holocausto, e' uma quest~ao de justic,a, e diz respeito a todos os seres humanos, independentemente da teologia, mitologia ou filosofia de cada um.
Darwin...
Não é importante que um cientista tenha sempre as respostas certas, o mais importante é que ele faça sempre as perguntas certas.

Segundo Darwin, não são os mais fortes nem os mais inteligentes que têm mais hipóteses de sobreviver, mas sim os que melhor se adaptam ao meio…Não será assim também em Portugal???

Re: Darwin...
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