Um sorriso luminoso, uma presença que transmitia respeito. Danielle Mitterrand, hoje falecida, com 87 anos, foi uma grande senhora da França e do Mundo.
Militante de esquerda desde a juventude - aos 17 anos alistou-se na resistência francesa contra o nazismo, como enfermeira -, nunca deixou de o ser até à hora da morte, ocorrida esta madrugada, em Paris. Mesmo quando foi, durante 14 anos, primeira-dama francesa, Danielle afirmou a sua diferença militante em relação ao marido, o falecido Presidente François Mitterrand.
Direitos do Homem, antirracismo, direito à autodeterminação dos povos e, ultimamente, a luta pela água para todos... A viúva de François Mitterrand esteve em todas as frentes, mesmo quando foi um incómodo para o marido, quando este ocupou o Palácio do Eliseu de 1981 a 1995.
Lutadora por "causas perdidas"
Um dia, nos anos 1980, Mário Soares e Maria de Jesus Barroso foram jantar à Rue de Bièvre, na residência privada, no bairro número cinco de Paris, do casal Mitterrand. Mário Soares, que era amigo pessoal de François Mitterrand, contou-me depois que tinha tentado sensibilizá-lo para a causa da resistência timorense. "Pois, estou muito bem a par disso, a minha mulher fala-me nisso, chateia-me com Timor todas as noites", respondeu-lhe Mitterrand.
Anos depois deste episódio, Danielle Mitterand deslocou-se a Díli para apoiar Timor-Leste independente e, com a sua associação France-Libertés, esteve ligada à associação de amizade França-Timor, dirigida pelo português Carlos Semedo, como ela militante de esquerda e dos Direitos do Homem.
Tal como em relação a Timor-Leste (na altura, a França mantinha relações privilegiadas com a Indonésia), Danielle Mitterrand 'chateou' o marido com muitas outras "causas perdidas" - dos curdos aos tibetanos, passando pelo apoio às revoltas armadas latino-americanas do fim do século passado.
"Primeira mulher" de Mitterrand
Danielle foi a "primeira mulher" de Mitterrand. A certa altura, quando, na fase final da sua longa presidência, François Mitterrand assumiu a sua segunda família, paralela, com uma outra mulher e uma filha, ela manteve-se muito digna.
Encarou a situação frontalmente no dia do funeral do marido, em conjunto com Anne Pingeot, mulher não oficial, e Mazarine Pingeot, filha de François Mitterrand e de Anne, nascida em 1974. Abraçou e beijou a "amante" e a filha "natural" no cemitério. Os dois filhos dela e de Mitterrand, Jean-Cristophe e Gibert, ambos hoje com mais de 60 anos, imitaram-na e fizeram o mesmo.
Danielle Mitterrand foi sempre uma mulher fascinante. Quando um dia lhe perguntaram se não se sentia ofuscada pelas numerosas relações amorosas extra-conjugais atribuídas ao marido, respondeu: "Nós, as mulheres, temos também os nossos segredos íntimos nesse domínio". Foi a única vez em que Danielle falou publicamente neste delicado assunto.
"Consciência de esquerda" do marido
Conhecera Mitterrand durante a guerra da resistência antinazi e casara-se com ele ainda com 19 anos. Sempre manifestou pelo marido grande respeito e, mesmo depois da sua morte, nunca poupou nos elogios sobre a sua carreira política. Os passos divergentes da vida pessoal e política de cada um - há quem diga que ela era a "consciência de esquerda" de François - não chegaram para os afastar.
Danielle Mitterrand foi uma grande mulher francesa de excecional coerência - até o atual Presidente, Nicolas Sarkozy, que ela criticou duramente pelas ações contra os ciganos ou os imigrantes indocumentados, o sublinhou na hora da sua morte.