As sociedades ocidentais estão a viver uma "deriva libertária" desde o final da II Guerra Mundial, da qual resulta que se alguém quer algo, isso "é razão e quase que moral suficiente para seguir, independentemente do que os outros pensem ou do que as instituições nos peçam", afirma o bispo do Porto numa entrevista concedida ao Expresso e que será capa do suplemento Actual no próximo sábado.
Confrontado com a necessidade de perceber se, mais do que uma deriva libertária o que assistimos é a uma afirmação do indivíduo, o prémio Pessoa 2009 sustenta, numa parte da entrevista agora divulgada em exclusivo na edição em linha do Expresso, que "não somos indivíduos. Filosoficamente falando somos pessoas. O indivíduo é aquele que já não se divide mais. Eu sou uma pessoa. Vivo no feixe de relações e vivo numa sociedade tão contraditória como a portuguesa, também com as instituições que têm promovido os valores que a têm definido ao longo dos tempos. Vivo com os outros e com as liberdades e as responsabilidades dos outros".
Não é apenas porque "me apetece ou queira que devo forçar a formalização daquilo que me apetece a mim e a mais um ou dois como eu", diz D. Manuel Clemente. Deste modo, mais do que saber se o interesse das instituições deve sobrepor-se aos interesses pessoais, o bispo defende que "devemos conjugar-nos como pessoa na relação com as outras pessoas e também com as instituições"
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| D. Manuel Clemente faz apelo a uma grande reflexão a propósito do casamento homossexual |
| Rui Duarte Silva |
Novas palavras para realidades diferentes
Sem dizer explicitamente se considera que dois indivíduos do mesmo sexo podem constituir uma boa família, o Prémio Pessoa de 2009 prefere constatar que se está a "estender o termo. E se estendemos tanto o termo que ele passa a integrar realidades que na sua essência são diferentes, a certa altura as palavras já não querem dizer nada. Qualquer dia já não nos entendemos. Posso mudar de palavra, desde que ela respeite a realidade da coisa a que se refere. Quando já não respeita, tenho de criar outra palavra, como sempre tem acontecido na evolução gramatical. Arranjamos outras palavras para designar realidades diferentes".
D. Manuel Clemente faz apelo a uma grande reflexão a propósito do casamento homossexual por achar que "não nos devemos precipitar quando se toca neste plano e neste nível do institucional, do geral, da sociabilidade instituída. Uma coisa é o meu comportamento particular, outra coisa é o extravasamento dessa minha preferência particular para o campo público, e a insistência em tornar formal este campo contra cultural".
A propósito da ideia muito defendida em diversos sectores de que os direitos individuais não se referendam, o bispo do Porto pergunta "até onde é que se pode impor, até em termos de formalização social de reconhecimento público, o meu desejo, o meu afecto, ou a minha preferência ocasional?"
Independentemente do conjunto de valores "que compartilhamos e de práticas que aqueles que estão de acordo com esses valores generalizados queiram ou não queiram, até onde é que vai o meu desejo esporádico ou episódico? Eu sou uma pessoa, não sou um indivíduo. Não vivo fora desta cadeia de relações", diz D. Manuel Clemente.
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| D. Manuel Clemente pergunta «até onde é que se pode impor, até em termos de formalização social de reconhecimento público, o meu desejo, o meu afecto, ou a minha preferência ocasional?» |
| Rui Duarte Silva |
Um liberal contemporâneo
Numa espécie de declaração de princípios, até para se situar do ponto de vista ideológico, o Prémio Pessoa assegura que se integra "na sociedade liberal contemporânea que desde o final do século XVIII a pouco e pouco se tem sedimentado entre nós e que se conjuga em termos de liberdade. Isto é, da disponibilidade de cada um em levar a sua vida por diante também de acordo com o seu próprio projecto e com a sua vocação".
Ora, na opinião de D. Manuel, aquela atitude contrapõe-se à realidade de sociedades mais antigas "em que o todo social quase que se situa em repetição pura e simples do que se tinha feito". O bispo do Porto afirma-se claramente no campo dos valores liberais", mas não extravasa para o campo do libertário porque, afirma, "o libertário implica caminhar no sentido da minha auto-afirmação sem ter em conta o que existe fora de mim, como os outros e os seus próprios projectos, designadamente aqueles que têm sido levados colectivamente em diversos campos, e que são as instituições".
D. Manuel Clemente diz não levar a sua "liberdade individual ao ponto de não considerar que estou numa sociedade onde estão outras liberdades conjugadas e que muitas dessas liberdades conjugadas estão institucionalmente apoiadas, porque têm levado por diante em conjunto determinadas tarefas e prosseguido determinados objectivos que são reconhecidos como valores universais".
Desde a última Guerra Mundial, conclui o bispo do Porto, "temos assistido a uma deriva libertária que vai no sentido de que eu desejo pura e simplesmente, eu quero assim e isso é razão e quase que moral suficiente para seguir independentemente do que os outros pensem ou do que as instituições me peçam, sem ter de dar satisfações a ninguém. Esta deriva do liberal para o libertário está aí".
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